Espionagem russa: Áustria julga suspeito de ser agente duplo e Berlim expulsa diplomata

A Alemanha anunciou nesta quinta-feira (22) à Rússia a expulsão de um de seus diplomatas em Berlim, acusado de espionagem. Moscou considerou a medida uma "provocação ridícula" e prometeu reagir.

22 jan 2026 - 16h01

O Ministério das Relações Exteriores alemão anunciou ter convocado o embaixador russo no país, Sergey Nechayev, para informá-lo da expulsão de um diplomata "que espionou para a Rússia". O ministro das Relações Exteriores alemão, Johann Wadephul, informou que o homem em questão "foi declarado persona non grata" na Alemanha com "efeito imediato".

Em um comunicado enviado à AFP, a embaixada russa denunciou a decisão como "precipitada, com o intuito de desacreditar a missão diplomática russa", além de um "pretexto" para "agravar ainda mais as relações russo-alemãs". Ao Ministério das Relações Exteriores alemão, a representação diplomática advertiu que "as ações hostis de Berlim não ficarão sem resposta".

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Segundo a revista semanal alemã Der Spiegel, o homem trabalhava oficialmente como adido militar na embaixada, mas na realidade seria membro do serviço de inteligência russo. "Atividades de inteligência em nosso país são completamente inaceitáveis, especialmente sob o pretexto de diplomacia", afirmou o ministro Wadephul.

Segundo fontes, o adido militar era o contato de Ilona W., uma cidadã germano-ucraniana presa na quarta-feira em Berlim. Figura proeminente em uma associação que promove a cooperação internacional, particularmente entre a Rússia e a Ucrânia, Ilona W. era conhecida nos meios políticos e empresariais do país.

Acesso a colaboradores de alto escalão 

O Ministério Público Federal da Alemanha acusa Ilona W. de ter fornecido à embaixada russa informações sobre ajuda militar à Ucrânia e sobre a indústria de defesa alemã. A mulher obteve informações de ex-oficiais militares alemães, como um oficial de estado-maior recentemente aposentado e um ex-alto funcionário que deixou o Exército há 15 anos, explicou o Ministério da Defesa na quarta-feira.

Os dois homens, que permanecem em liberdade, ainda estão sob investigação para determinar se forneceram informações à Rússia conscientemente. No comunicado à AFP, a embaixada russa denunciou o "absurdo das alegações alemãs", afirmando que "todas as informações mencionadas são públicas".

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Este caso se soma à longa lista de operações de inteligência, desinformação e sabotagem que as autoridades alemãs atribuem a Moscou, como parte de sua suposta "guerra híbrida" contra países europeus que vêm ajudando a Ucrânia a resistir ao exército russo há quase quatro anos. Um russo e um alemão suspeitos de organizar a transferência de fundos e bens para áreas separatistas pró-Rússia no leste da Ucrânia também foram presos na quarta-feira, anunciou o Ministério Público Federal.

O Kremlin nega ameaçar a segurança dos europeus e afirma, ao contrário, que são eles que buscam destruir a Rússia.

Ex-agente austríaco é julgado por colaborar com Moscou

Também nesta quinta-feira, um ex-agente austríaco começou a ser julgado por vender informações confidenciais à Rússia, o que teria colocado em risco a reputação de seu país junto aos parceiros europeus. O julgamento de Egisto Ott, de 63 anos, começou em um tribunal de Viena, diante de dezenas de jornalistas austríacos e internacionais.

O ex-funcionário do Escritório de Segurança e Inteligência do Estado se declarou inocente, denunciando a "caça às bruxas" a que teria sido submetido pela promotoria, que ele acusou de tratá-lo como "inimigo público número 1". Embora tenha realizado pesquisas que levantaram suspeitas, ele afirma que foram feitas para operações austríacas, aprovadas por seus superiores, e não para a Rússia.

A promotoria o acusa de ter "enviado pedidos de assistência jurídica mútua" à Itália e ao Reino Unido, que, sem saber, agiram "em benefício" de Moscou. O caso também gerou "danos graves à reputação da Áustria junto aos serviços de inteligência aliados", segundo a acusação analisada pela AFP.

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Risco a refugidos ucranianos e chechenos

Entre 2015 e 2022, ele teria agido sob ordens de Jan Marsalek, ex-presidente austríaco do grupo alemão Wirecard, procurado por fraude e suspeito de trabalhar para o Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB), em troca de um pagamento de mais de € 80 mil. Conforme a acusação, Ott teria entregue os telefones celulares dos três mais altos funcionários do Ministério do Interior austríaco, o que, entre outros danos, colocou em risco a segurança de refugiados ucranianos e chechenos na Áustria e expôs milhares de contatos armazenados nos aparelhos.

Um laptop "contendo equipamentos de segurança eletrônica não divulgados, utilizados por Estados-membros da UE para comunicação eletrônica segura" também teria sido entregue ao FSB.

Além disso, graças ao seu acesso a bancos de dados, Egisto Ott teria transmitido informações sobre indivíduos "ameaçados de represálias", como um ex-espião russo que havia se refugiado em Montenegro. Em sua longa declaração introdutória, o promotor enfatizou que ele também é acusado de ter prestado indiretamente a Arkady Rotenberg, um associado próximo do presidente russo Vladimir Putin, alvo de sanções europeias.

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