Carla Juaçaba leva a Paris pensamento arquitetônico que une clima, técnica e política do espaço

Convidada das Palestras Chaillot, na Cité de l'Architecture, em Paris, a arquiteta brasileira Carla Juaçaba apresenta um percurso que articula duas décadas de produção entre o Rio de Janeiro e a Europa. Professora na Accademia di Mendrisio e vencedora, em 2026, do concurso para o Museu de Arte Kurpark Bad Ragaz, na Suíça, ela chega à capital francesa com uma obra consolidada por exposições, instalações e projetos, sempre guiada pela tensão entre natureza, técnica e história.

15 mai 2026 - 13h27

Desde 2000 à frente de um escritório independente no Rio de Janeiro, Carla Juaçaba construiu uma trajetória que oscila entre comissões privadas e programas culturais, com presença frequente em instituições internacionais. Premiada com o ArcVision Women and Architecture Prize, em 2013, e o Emerging Architecture Award, da Architectural Review, em 2018, ela participou da Bienal de Veneza no mesmo ano, quando também construiu uma capela para o Vaticano — hoje integrada ao patrimônio italiano e ao acervo do Centre Pompidou, em Paris.

Professora da Accademia di Architettura de Mendrisio desde 2019, onde se tornou titular em 2023, ela transita com naturalidade entre prática e reflexão. Em exposições e instalações — de Lisboa a Genebra, de Nova York a São Paulo —, sua arquitetura se aproxima das artes visuais, insistindo na ideia de que espaço não se separa de contexto.

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"Acho que estamos num momento em que o mundo ficou muito pequeno, e passamos a falar de uma arquitetura de reflexos internacionais", afirma. Ainda assim, resiste a paralelos rápidos. "Não consigo comparar muito a arquitetura francesa com a brasileira, porque a questão climática, quando estou fazendo trabalhos no Brasil e na Suíça, muda completamente a perspectiva e o modo de fazer".

"Varanda House", projeto da arquiteta brasileira Carla Juaçaba.
"Varanda House", projeto da arquiteta brasileira Carla Juaçaba.
Foto: RFI

A diferença não é apenas técnica. "A questão climática transforma o modo de fazer." No Brasil, segundo Juaçaba, isso se traduz em margem de liberdade. "A arquitetura brasileira tem uma liberdade dada pelo próprio clima. Não preciso enfrentar todas as camadas que a França precisa para se proteger do frio".

É uma diferença que se materializa no projeto. "No museu que está sendo feito no Brasil, o chão é de terra. Eu nunca poderia fazer isso na Europa." Para a arquiteta, o clima, mais do que condicionante, torna-se linguagem. "É um problema global, mas sempre com questões locais, que exigem reação e reflexão."

Paisagem como estrutura, não ornamento

Nos projetos recentes, essa atenção ao contexto assume forma quase programática. "Um museu na Suíça, em uma montanha com neve, e outro no Brasil respondem diretamente a esses contextos." Em ambos, a paisagem não aparece como fundo, mas como estrutura. "Vejo a arquitetura como uma inserção em que natureza e objeto se misturam, um dentro do outro."

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A consequência é a recusa do paisagismo como acabamento. "O projeto paisagístico precisa nascer junto com o projeto de arquitetura. Não é algo secundário, que vem depois." A crítica é direta. "O paisagismo não deveria aparecer como um elemento decorativo, aplicado depois para tornar o projeto mais bonito."

Na prática, isso implica um olhar atento ao território. "[O paisagismo] precisa surgir junto, ligado às questões ambientais, atento à vegetação local e capaz de fazer coexistir essas duas dimensões." Uma posição que atravessa desde instalações efêmeras, como o Pavilhão Humanidade, até trabalhos recentes apresentados em circuitos internacionais.

Em Paris, Juaçaba opta por destacar projetos brasileiros, entre eles o Flor de Café, em Minas Gerais. "Vou falar principalmente de projetos do Brasil. Um deles é o Flor de Café, pensado para pequenos agricultores." Ali, arquitetura, economia e história se entrelaçam.

"É um projeto de longo prazo, ainda em busca de financiamento. Foi iniciado por uma mulher, que reuniu pequenos agricultores, valorizou o café que produziam e que antes era vendido por quase nada." O desdobramento aponta para um programa maior. "Hoje, eles vendem o próprio produto."

O projeto inclui ainda um centro cultural. "Eles querem criar um centro do café ligado ao agriturismo, que também abrigará um museu sobre a história do Brasil a partir da exploração do café — uma história marcada pela destruição da Mata Atlântica." A dimensão ambiental vem associada. "O projeto tem o apoio do instituto criado por Sebastião Salgado, que já atua no reflorestamento da região."

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Instalação na na Galeria Storefront de Nova York.
Foto: RFI

Museu como extensão da paisagem

Na Suíça, onde Carla acaba de vencer um concurso internacional, a lógica se mantém. "O museu em Bad Ragaz fará parte de um circuito cultural nas montanhas, onde já existem instituições em lugares como Davos." O processo seletivo foi restrito. "Foram convidadas 12 mulheres do mundo inteiro, com um júri de 14 pessoas, e acabei vencendo", conta.

Ao descrever o projeto, Juaçaba sintetiza sua abordagem. "É muito brasileiro, mas realizado com tecnologia suíça." A relação com o terreno é determinante. "Ele se desdobra entre as árvores existentes, mantém um pé no chão e permite que se caminhe pelo jardim e pelo museu no mesmo nível."

No Brasil, o museu dedicado à artista Laura Lima avança ainda mais nessa direção. "É um museu pensado para uma única artista, no Instituto Paz, ao lado de Inhotim." A arquitetura, nesse caso, abdica de protagonismo. "Não é um museu que simplesmente abriga a obra. É um espaço concebido para ela, que só funciona a partir do trabalho dela."

A consequência é uma redefinição da própria ideia de edifício. "Existe algo de efêmero na obra dela, e o museu, embora não seja efêmero, carrega uma fragilidade." A solução espacial explicita essa tensão. "É um museu que não tem chão. Ele pisa diretamente na terra, no barro vermelho de Minas Gerais."

A arquiteta brasileira Carla Juaçaba.
Foto: RFI

Arquitetura e política do espaço

Se o território condiciona a forma, a história orienta escolhas. "Eu penso nisso. O modelo da casa-grande e senzala é um programa brasileiro. Nunca fiz uma casa-grande e senzala moderna. Não gosto e não me sinto bem fazendo. Tenho a sorte de trabalhar com pessoas que não desejam isso, mas sim casas integradas à natureza do Rio", aponta.

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A escala doméstica, nesse sentido, torna-se política. "São casas com as dimensões necessárias para viver." Para a arquiteta brasileira, o modelo tradicional perpetua desigualdades. "A casa-grande e senzala pressupõem porta social e porta de serviço, o que é inaceitável."

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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