Nascida em Rueil-Malmaison, na região parisiense, a artista construiu sua identidade a partir de experiências multiculturais e de um contato precoce com diferentes linguagens artísticas. Ao comentar o conceito central do trabalho, ela associa o título a um processo gradual de construção pessoal e coletiva.
"Começou, para mim, já com a capoeira, que eu iniciei aos 13 anos. Eu já estava numa luta, numa dança pela libertação. Então esse disco começa com a liberdade do escravo. E, pouco a pouco, você vai na liberdade interior à minha própria liberdade, como filhos de migrantes, como mulher, como também a afirmação do ser, apesar de todos os preconceitos que existem na sociedade, na família", diz a cantora.
O lançamento marca a realização de um projeto iniciado anos antes, após singles e o EP "Salvação", de 2019. Antes de se dedicar integralmente à música, Elsinha atuou como professora de espanhol na rede pública francesa, mas abandonou a carreira de docente para investir na produção artística. Nesse percurso, a escolha do idioma tornou-se elemento central de sua expressão.
"Eu sempre tive uma conexão enorme cantando em português do Brasil. Tentei em francês várias vezes, tem uma música no disco que é misturado francês e português, mas [o português do Brasil] é uma língua que me toca na alma, é uma sensibilidade profunda. Eu acho que também tem a ver com as minhas raízes, então é uma língua para mim de abertura, de conexão de raízes. E o espanhol também me conecta em um intermédio entre França e Portugal, porque de criança eu ia todos os anos para Portugal e passava pela Espanha", afirma.
Diferentes territórios e tradições musicais
Composto por 12 faixas, "Liberdade" reúne canções em português, espanhol e francês, refletindo um percurso que atravessa diferentes territórios e tradições musicais. A artista combina influências afro-brasileiras, referências lusófonas e elementos da música hispânica em um repertório que articula múltiplas identidades. Esse processo também se apoia em referências femininas que marcaram sua formação ao longo dos anos.
"Eu tenho logo uma cantora que vem, que é Mayra Andrade [pois] Cabo Verde me inspira muito. E também Maria Bethânia, Elis Regina, as músicas da Tropicália. Apesar de eu não ter vivido isso e não ser brasileira, meu pai escutava, porque chegou até Portugal. E também tem outras figuras mais hispânicas, como Natália Doco. Quando você fala da Cesária Évora, também fiz uma cover de 'Sodade'", relata.
A proposta artística do álbum também se reflete na forma como a cantora se apresenta ao vivo. Seus shows incorporam dança e performance, integrando o corpo à música e ampliando a experiência do público. Essa dimensão está diretamente ligada à sua formação inicial, marcada pela prática da capoeira, que influenciou tanto sua expressão corporal quanto sua compreensão de ritmo e movimento.
Ao longo do disco, Elsinha explora episódios pessoais e familiares, compondo um retrato que atravessa infância, vida adulta e experiências de deslocamento. A temática da imigração, da identidade e da busca por pertencimento aparece como eixo estruturante, reforçando o caráter autobiográfico do projeto.
Nesse contexto, o fado emerge como uma referência afetiva importante, ligada à herança portuguesa de sua família. Inicialmente associado a certo constrangimento, o gênero passa a ocupar espaço mais central em sua trajetória recente. "Isso vem da minha mãe, apaixonada pelo fado. Era o sonho dela ser cantora, mas não era muito bem valorizado naquela altura. Meu bisavô era acordeonista e não funcionou, não deu muito certo. Então depois a família cortou um pouco a música, mas tinha um apego, tinha uma alma do fado muito forte", diz.
"Quando eu canto, eu tenho, não vou dizer essa dor que leva o fado, mas um pouco de sofrimento e um pouco de saudade também no fado que eu gosto. Hoje em dia eu reconectei com isso, porque antes eu tinha um pouco de vergonha de falar que escutava fado. Reconectei há pouco tempo, há um ano, dois anos, com o fado. E também a liberdade de mulher, porque teve a ditadura também em Portugal. Eu cresci numa família bastante conservadora, tinha um pouco de machismo. Não estou falando da família, mas da sociedade portuguesa", afirma.
Memória e identidade no centro do disco
Uma das faixas mais marcantes do álbum aborda diretamente a memória da escravidão, tema que atravessa a história brasileira e permanece como elemento estrutural de desigualdades contemporâneas. Ao incluir "Navio negreiro" logo na abertura do disco, Elsinha explicita a dimensão política de seu trabalho e sua preocupação com a memória coletiva.
"Eu sei que essa música podia ser um pouco polêmica. Primeiro, começar o álbum com essa canção. Chegou esse tema de forma evidente para mim, também pela memória coletiva. Não quis fazer apropriação cultural", justifica. "Realmente eu fiz com maior humildade, respeito e amor, e um tema que não podemos esquecer. Então é também uma memória", diz.
Ao longo do disco "Liberdade", a artista articula experiências individuais com questões históricas, estabelecendo um diálogo entre passado e presente. A ideia de liberdade, que dá nome ao álbum, aparece como elemento transversal, conectando vivências pessoais a processos coletivos de afirmação e resistência.
A diversidade linguística do projeto também cumpre um papel estratégico, segundo a artista, permitindo à cantora transitar entre diferentes públicos e contextos culturais. A relação com o Brasil, construída durante o período em que Elsinha viveu no país, influenciou diretamente sua sonoridade e sua abordagem estética. Elementos afro-brasileiros aparecem tanto na estrutura musical quanto na temática das canções, ampliando o diálogo com tradições que historicamente moldaram a música popular brasileira (MPB).
*Confira a entrevista completa clicando no imagem principal dessa matéria, com a interpretação pela artista da canção "Navio negreiro".