Intelectual de referência do século XX, Bloch é reconhecido tanto por revolucionar a maneira de escrever e interpretar a História quanto por seu engajamento na Resistência Francesa durante a ocupação nazista. Preso pela Gestapo em 1944, ele foi torturado e executado aos 57 anos, poucos dias após o desembarque aliado na Normandia.
A homenagem promovida pelo presidente Emmanuel Macron ocorre em um momento em que as reflexões de Bloch sobre a propagação de rumores, boatos e crenças coletivas voltam a ganhar atualidade em meio ao fenômeno global das fake news.
Nascido em Lyon em 1886, filho de um renomado historiador, Marc Bloch formou-se na prestigiosa Escola Normal Superior de Paris e aprofundou seus estudos na Alemanha. Durante a Primeira Guerra Mundial, serviu no exército francês, participou de combates em algumas das batalhas mais sangrentas do conflito e recebeu diversas condecorações por bravura.
Mentiras em solo fértil do medo
Foi justamente a experiência nas trincheiras que o levou a refletir sobre a circulação de informações falsas em períodos de crise. Em um artigo publicado em 1921, intitulado "Reflexões de um historiador sobre as falsas notícias da guerra", Bloch analisou como boatos surgiam e se espalhavam entre soldados e civis. Décadas antes da internet e das redes sociais, ele observou que as notícias falsas prosperavam quando encontravam terreno fértil em medos, crenças e expectativas já presentes na sociedade.
Para o historiador, uma informação falsa não surgia do nada. Ela refletia sentimentos coletivos e revelava muito sobre a mentalidade de uma época. Em uma de suas formulações mais conhecidas, escreveu que a falsa notícia funciona como um espelho no qual a consciência coletiva contempla seus próprios traços.
Essa abordagem pioneira faz com que muitos estudiosos o considerem um precursor dos atuais estudos sobre desinformação e fake news.
Visão mais ampla da História
Bloch também transformou a historiografia ao defender uma visão mais ampla da História. Em vez de concentrar suas pesquisas apenas em datas, batalhas e grandes personagens, procurou compreender a vida cotidiana, as crenças populares, a economia e as estruturas sociais.
Sua obra "Os Reis Taumaturgos", publicada em 1924, mostrou como populações inteiras acreditavam que reis da França e da Inglaterra possuíam poderes de cura. Para ele, o mais importante não era saber se os milagres ocorreram, mas entender por que tantas pessoas acreditavam neles.
Em 1929, ao lado do historiador Lucien Febvre, fundou a revista Annales d'Histoire Économique et Sociale, origem da chamada Escola dos Annales, considerada uma das maiores revoluções da historiografia moderna. O movimento influenciou gerações de pesquisadores ao aproximar a História da sociologia, da geografia, da antropologia e da economia.
Torturado e fuzilado
Com a invasão da França pela Alemanha nazista, Bloch voltou a vestir o uniforme militar aos 53 anos. Judeu e patriota, recusou-se a abandonar o país e ingressou na Resistência Francesa. Atuou na região de Lyon até ser preso pela Gestapo em março de 1944. Torturado durante semanas, foi fuzilado em 16 de junho daquele ano juntamente com outros resistentes.
Sua obra mais famosa, "A Estranha Derrota", publicada após sua morte, tornou-se uma referência para compreender o colapso francês diante da ofensiva alemã de 1940.
A entrada de Marc Bloch no Panteão reconhece não apenas o acadêmico que transformou os estudos históricos, mas também o cidadão que colocou em prática seus valores republicanos e democráticos.
Em uma época marcada pela disseminação de desinformação nas plataformas digitais, suas reflexões sobre a formação das crenças coletivas e o poder das falsas notícias permanecem surpreendentemente atuais, quase um século depois de terem sido formuladas.