"Chega de custos ocultos. Chega de transferir o ônus para aqueles com menos condições de suportá-lo. É hora de dizer toda a verdade. Se a IA deve ajudar a construir um futuro melhor, ela precisa ser honesta sobre o que nos custa hoje", declarou Guterres durante discurso na Semana de Ação Climática de Londres, importante evento anual realizado na capital britânica.
O chefe da ONU anunciou o lançamento de uma iniciativa de transparência ambiental na IA, que convoca as gigantes globais do setor a medir e divulgar a pegada ambiental de suas atividades, incluindo as emissões de gases de efeito estufa, o consumo de água e a área territorial ocupada por suas operações. A iniciativa também solicita que essas empresas se comprometam a utilizar energia renovável nessas atividades até o fim da década.
Os data centers, instalações onde diversos computadores armazenam, processam e distribuem informações pela internet, sustentam a IA e outros serviços digitais. Esses locais consomem enormes quantidades de energia, com previsão de uso de 448 terawatts-hora (TWh) de eletricidade em 2025. Se fossem um país, seu consumo os colocaria na 11ª posição do ranking mundial, logo atrás da França (468 TWh), segundo um estudo da ONU publicado no início de junho.
"As comunidades muitas vezes são mantidas no escuro sobre o impacto ambiental da infraestrutura que se desenvolve ao seu lado", enfatizou Guterres. Ele reconheceu que, embora a IA tenha uma "grande demanda por terra, água e energia", também pode ajudar a "acelerar soluções climáticas".
O discurso ocorre em meio a uma onda de calor na Europa Ocidental, com recordes históricos de temperatura registrados na França, previsão de novas máximas no Reino Unido e alertas vermelhos emitidos para 15 cidades italianas. Esses eventos são considerados mais um sinal das mudanças climáticas, impulsionadas principalmente pela queima de carvão, petróleo e gás, mas também por atividades ligadas à agricultura e à pecuária.
Responsabilidade de combustíveis fósseis
Em seu discurso, Guterres estabeleceu uma conexão entre a crise climática e a crise energética desencadeada pela guerra no Oriente Médio, afirmando que ambas compartilham a mesma origem: os combustíveis fósseis.
No entanto, segundo o secretário-geral da ONU, que defendeu a tributação dos lucros extraordinários das grandes empresas de combustíveis fósseis, "o mundo está perigosamente atrasado" em relação às metas de redução das emissões de CO₂.
Além do setor de tecnologia, Guterres também lançou um "apelo global à ação sobre o metano", o segundo principal gás responsável pelo aquecimento global, atrás apenas do CO₂, com o objetivo de reduzir suas emissões a níveis próximos de zero.
O secretário-geral também defendeu a redução das emissões provenientes da agricultura e dos aterros sanitários.
Cerca de 60% das emissões globais de metano, um gás inodoro e invisível, são resultado da atividade humana, principalmente da agricultura, seguida pelo setor de energia.
"Devemos agir com muito mais urgência para limitar rigorosamente a magnitude e a duração de qualquer ultrapassagem do limite de 1,5°C", apelou Guterres, referindo-se ao rompimento, considerado inevitável por muitos cientistas do clima e formuladores de políticas públicas, da meta de aquecimento estabelecida pelo Acordo de Paris de 2015 em relação aos níveis pré-industriais.
Com AFP