Referendo do Brexit completa 10 anos, em meio a nova crise política no Reino Unido

A votação pela saída do Reino Unido da União Europeia completa uma década nesta terça-feira (23), em meio à renúncia de mais um primeiro-ministro britânico. Dez anos depois, o cenário político continua tumultuoso: o país teve seis chefes de governo nesse período.

23 jun 2026 - 07h46

Yula Rocha, correspondente da RFI em Londres

Pessoas passam diante da Torre Elizabeth, o Big Ben, durante a 4ª Marcha Nacional pela Reintegração, em Londres, ato que marcou os dez anos do referendo do Brexit e defendeu maior aproximação entre o Reino Unido e a União Europeia, em 20 de junho de 2026.
Pessoas passam diante da Torre Elizabeth, o Big Ben, durante a 4ª Marcha Nacional pela Reintegração, em Londres, ato que marcou os dez anos do referendo do Brexit e defendeu maior aproximação entre o Reino Unido e a União Europeia, em 20 de junho de 2026.
Foto: REUTERS - Jack Taylor / RFI

Após a vitória histórica dos trabalhistas em 2024, que marcou o retorno do partido ao poder com a promessa de restaurar a normalidade, Keir Starmer - hoje um dos líderes mais impopulares do país - abre caminho para uma possível renovação interna no partido. O nome mais cotado para ocupar o cargo de primeiro-ministro é o de Andy Burnham, ex-prefeito de Manchester, um político carismático e que muitos acreditam estar mais alinhado aos problemas enfrentados. Ele é apontado como único capaz de conter a ascendência do arquiteto do divórcio do Reino Unido com a União Europeia, Nigel Farage, líder do Reform UK. 

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Farage comanda o avanço da extrema direita e causa apreensão tanto em conservadores moderados quanto em liberais, com a pauta anti-imigratória, que continua sendo o ponto central da agenda política que motivou o Brexit. Ainda assim, uma pesquisa recente da consultoria Ipsos indica uma mudança de humor: quase 60% dos britânicos votariam hoje pelo retorno ao bloco europeu em um novo referendo. O sentimento é diferente entre residentes da Inglaterra, do País de Gales e da Escócia. Uma pesquisa do YouGov indicou que entre os escoceses a insatisfação com o Brexit sobe para 75%.

Imigração

Durante o período em que vigorou o acordo de livre circulação de mercadorias e pessoas, o número de europeus vivendo no Reino Unido subiu substancialmente. Com a aprovação do Brexit - que muita gente acreditou ser o preço a se pagar para erguer muros nas fronteiras e melhorar a economia -, o número de imigrantes, no entanto, continuou a aumentar.

Sem os europeus, as universidades passaram a recrutar estudantes internacionais de outras partes do mundo, muitos deles acompanhados de suas famílias. O sistema público de saúde também precisava - e ainda precisa - de mão de obra estrangeira para dar conta do serviço.

O governo britânico concedeu vistos humanitários a ucranianos e cidadãos de Hong Kong. Os conservadores apertaram as regras de imigração, e o fluxo de entradas e saídas foi controlado, mas esses dados não estão diretamente relacionados ao Brexit. Conflitos ao redor do mundo, além das crises climática e econômica no pós-Covid, forçaram muitos migrantes sem documentação, especialmente da África e da Ásia, a enfrentar a travessia perigosa do Canal da Mancha em embarcações precárias, chegando à Inglaterra para pedir asilo político.

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Dez anos depois da votação, a questão migratória continua a dividir o país e alimenta a ascensão do partido Reform UK, de Nigel Farage.

Economia

A previsão pós-Brexit era catastrófica, e é importante também levar em conta o impacto das guerras, do tarifaço do presidente norte-americano, Donald Trump, e da pandemia. O país não chegou a mergulhar numa recessão, mas está mais pobre - ou menos rico - do que antes. A economia encolheu cerca de 6%, segundo o Banco Central da Inglaterra, enquanto os investimentos caíram 18%.

A União Europeia continua, de longe, a ser o principal parceiro comercial do Reino Unido, embora agora em condições menos favoráveis desde a saída do bloco, com barreiras alfandegárias, exigências sanitárias e maior regulação. A promessa de autonomia para negociar com quem bem entendesse resultou em acordos de livre comércio com Índia, Austrália e Nova Zelândia, do outro lado do mundo, mas não foi suficiente para compensar a perda de dinamismo nas trocas com os vizinhos europeus.

Política abalada com Brexit

Durante a última campanha eleitoral, que levou à vitória histórica dos trabalhistas em 2024, e ao longo dos anos recentes, a centro-esquerda do primeiro-ministro Keir Starmer evitou tocar no tema do Brexit - em parte porque muitos de seus eleitores, sobretudo em cidades pós-industriais, votaram pela saída do bloco. Com o crescimento do partido Reform, de Nigel Farage, Starmer passou a adotar um discurso mais duro sobre imigração e chegou a afirmar que, sem controle das fronteiras, o Reino Unido se tornaria uma "ilha de estranhos".

A declaração gerou críticas, e o premiê recuou - tarde demais. Uma parcela significativa dos eleitores trabalhistas, decepcionados com políticas sociais consideradas mais alinhadas à direita, migrou para o Partido Verde ou até mesmo para o Reform, de extrema direita, em busca de algo novo.

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Resta saber qual será a política migratória adotada por seu possível sucessor, Andy Burnham. Embora tenha se posicionado contra a saída do Reino Unido da União Europeia, ele foi eleito em um reduto que votou a favor no referendo. Com a percepção crescente de que o Brexit foi um péssimo negócio para o país, o governo britânico tem buscado uma reaproximação com a Europa continental. Um exemplo é a cúpula marcada para 22 de julho, que deve tentar fechar um novo acordo sanitário e um programa de mobilidade para jovens voltarem a estudar e trabalhar entre o Reino Unido e a União Europeia.

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