Há pouco mais de um ano, em 28 de abril de 2025, toda a Península Ibérica ficou no escuro por horas após uma pane gigantesca. Relatórios posteriores indicaram que a falha não esteve ligada ao calor, mas sim à intermitência da produção de energia renovável, como solar e eólica. Ainda assim, com episódios de ondas de calor cada vez mais frequentes, o fenômeno costuma ser associado às altas temperaturas.
Na segunda-feira, o show da banda de metal Iron Maiden, realizado na Paris La Défense Arena, foi interrompido por quase uma hora. Segundo os organizadores, a causa foi uma pane elétrica de origem desconhecida. No entanto, suspeitas recaíram sobre o calor.
Na mesma noite - a mais quente já registrada desde o início das medições, em 1947 - a usina nuclear Golfech 2, no sudoeste da França, precisou ser desligada devido ao aumento da temperatura do rio Garonne. Essas usinas utilizam água dos rios para resfriar seus sistemas, mas quando essa água fica quente demais, as centrais precisam reduzir ou até interromper a produção.
80 °C nos subsolos
Com cerca de 1,5 milhão de quilômetros de cabos, alguns com aproximadamente 50 anos, a rede elétrica francesa pode sofrer falhas e interrupções. Quando a temperatura chega a 40 °C na superfície, pode atingir até 80 °C em algumas instalações subterrâneas. Nesses casos, os cabos podem dilatar, ceder e provocar curtos-circuitos. Por isso, panes podem ocorrer, embora tendam a ser localizadas.
Em períodos de calor, o consumo de eletricidade também aumenta, principalmente devido ao uso intensivo de ar-condicionado e ventiladores. Isso torna áreas urbanas mais vulneráveis. Ainda assim, a produção elétrica na França segue suficiente para atender aos picos de demanda.
Os principais operadores do setor, como EDF, Enedis e RTE, procuram tranquilizar a população e afirmam que um apagão generalizado não é considerado provável, sobretudo devido à forte participação da energia nuclear na matriz elétrica. Ainda assim, a Enedis reconhece riscos de cortes localizados.
A EDF prevê mais de €8 bilhões em investimentos nos próximos 15 anos para adaptação às mudanças climáticas. No momento em que o governo planeja ampliar a eletrificação para reduzir a dependência de combustíveis fósseis, ainda não está claro se essas medidas serão suficientes.
Afogamentos, transportes e Torre Eiffel fechada
Nesta terça-feira, a Torre Eiffel ficará fechada a partir das 16h (horário local) devido ao forte calor em Paris, com temperaturas chegando a 40 °C. O principal ponto turístico do país, que normalmente funciona até 0h45, teve seus horários ajustados para priorizar "a segurança das equipes e dos visitantes", segundo comunicado.
Quarenta pessoas morreram afogadas em todo o país em menos de uma semana desde o início desta onda de calor histórica. O primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, que lidera um comitê interministerial de crise, afirmou que a maioria das vítimas são crianças, adolescentes e idosos, e alertou para os riscos de nadar em áreas não supervisionadas.
No transporte público, trens precisaram reduzir a velocidade, e a rede ferroviária enfrenta atrasos, já que as temperaturas extremas aumentam o risco de deformação dos trilhos.
Nesta onda de calor, com 54 regiões do país em alerta vermelho, mais de 90% da população foi impactada pelas altas temperaturas.
Com AFP e agências