Sob críticas de ativistas, Bruxelas recebe enviados do Talibã para tratar da volta de afegãos exilados

Autoridades do Talibã estiveram em Bruxelas nesta terça-feira (23) para discutir com a União Europeia o retorno de afegãos exilados ao país de origem. Foi a primeira vez que representantes da administração talibã foram recebidos pela UE. O encontro provocou indignação entre defensores dos direitos humanos.

23 jun 2026 - 13h02

"As reuniões foram construtivas e podemos esperar que levem a desdobramentos positivos", afirmou uma autoridade afegã, sob condição de anonimato.

Um ativista da Anistia Internacional segura uma faixa com os dizeres "Parem com o acordo com o Talibã" em frente à sede da Comissão Europeia, em protesto contra uma reunião com uma delegação do Talibã em Bruxelas, em 23 de junho de 2026.
Um ativista da Anistia Internacional segura uma faixa com os dizeres "Parem com o acordo com o Talibã" em frente à sede da Comissão Europeia, em protesto contra uma reunião com uma delegação do Talibã em Bruxelas, em 23 de junho de 2026.
Foto: AFP - NICOLAS TUCAT / RFI

Markus Lammert, porta-voz da Comissão Europeia, confirmou a realização de uma reunião de caráter "técnico" entre representantes de países europeus e autoridades afegãs responsáveis por questões de retorno e readmissão de migrantes.

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Segundo Bruxelas, os países da UE desejam priorizar o retorno ao Afeganistão de "indivíduos que representam uma ameaça à segurança e criminosos que cometeram infrações graves".

Cerca de 15 Estados-membros participaram do encontro que, de acordo com Lammert, permitiu dar continuidade às discussões técnicas iniciadas em uma reunião anterior realizada em Cabul, em janeiro de 2026. As conversas se concentraram especialmente na identificação das pessoas repatriadas, na emissão de documentos de viagem e nos procedimentos de retorno.

O Talibã voltou ao poder em 2021, após duas décadas de guerra e a retirada das forças dos Estados Unidos do Afeganistão. No entanto, seu governo não é reconhecido pela União Europeia.

Desde então, o grupo tem destacado a restauração da segurança em um país que, anteriormente, enfrentou décadas de conflitos e inúmeros ataques. "Não vamos reconhecer o regime do Talibã, certamente que não, mas, ainda assim, acho importante conversar com eles" sobre questões migratórias, havia enfatizado o comissário europeu Magnus Brunner cerca de dez dias antes.

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A reunião em Bruxelas desencadeou uma onda de críticas de organizações e defensores dos direitos humanos, entre eles a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz Malala Yousafzai.

A ativista paquistanesa afirmou estar "abalada e profundamente perturbada" com a visita, acusando as autoridades talibãs de "prender, espancar e executar mulheres que ousam se manifestar ou desafiar suas regras".

A ONG Anistia Internacional organizou um breve protesto em frente à sede da Comissão Europeia.

"Os países da UE abalam sua credibilidade ao condenar os abusos do Talibã e exigir responsabilização, por um lado, enquanto cooperam com o grupo em retornos forçados, por outro", afirmou a Human Rights Watch (HRW).

Em resposta às críticas, a Comissão Europeia sustenta há semanas que a reunião, coordenada com a Suécia, ocorreu em âmbito "técnico" e não diretamente com os principais líderes do governo afegão.

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O encontro sucede duas viagens anteriores de autoridades europeias ao Afeganistão para tratar da mesma questão, observou o braço executivo da UE.

Repatriamento e asilo

Os países da União Europeia receberam aproximadamente 1 milhão de pedidos de asilo de afegãos entre 2013 e 2024, segundo a agência de estatísticas do bloco. Cerca de metade desses pedidos foi aprovada no período.

Cerca de 20 países da UE buscam mecanismos para repatriar migrantes ao Afeganistão.

Em uma carta enviada em outubro, esses Estados-membros solicitaram a Bruxelas a apresentação de "soluções diplomáticas e práticas" para avançar na questão.

Nesta terça-feira, a delegação talibã foi liderada por Abdul Qahar Balkhi, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Afeganistão.

Cinco representantes do Talibã receberam autorização para entrar na Bélgica, segundo um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores belga. Posteriormente, uma fonte a par das discussões confirmou a presença do grupo em Bruxelas.

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Os vistos foram concedidos após uma análise dos perfis dos cinco integrantes pelos serviços de inteligência belgas. De acordo com as autoridades, a avaliação concluiu que eles não representavam ameaça à segurança.

Com AFP

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