Altinha, esporte que surgiu nas praias do Rio, vira moda em parques europeus

Entre o Museu do Louvre e a Torre Eiffel, uma cena improvável chama a atenção dos parisienses: rodas de altinha ocupam os jardins da capital francesa. Mas o fenômeno não se limita à França: o esporte também inspirou novos negócios na Holanda e já conquistou parques e praças em diferentes países da Europa.

20 set 2026 - 09h42
Resumo
A altinha, tradicional prática das praias do Rio de Janeiro, virou febre em parques europeus. Impulsionada por vídeos virais de duas amigas franco-brasileiras em Paris, a modalidade coletiva atraiu tanto expatriados quanto estrangeiros. A popularização rápida fez surgir grandes comunidades e inspirou negócios em países como França, Suíça, Holanda, Portugal e Espanha, transformando o esporte carioca em um fenômeno cultural e de conexão que segue conquistando novos adeptos pela Europa.

Ao atravessar o Arco do Triunfo do Carrossel, logo após a pirâmide do Louvre, em direção ao Jardim de Tuilleries, é possível avistar algumas bolas amarelas pairando sobre os gramados. 

Quem já frequentou uma praia brasileira pode se surpreender com a cena. O calor quase manipula os sentidos, nos faz duvidar de onde estamos. Não estamos no Rio de Janeiro. Ao fundo, a Torre Eiffel nos traz de volta à realidade. 

Publicidade

Jogar altinha em Paris virou febre graças a Isadora e Clarisse, duas amigas franco-brasileiras que se mudaram para a capital francesa para estudar. Depois de anos praticando o esporte - considerado patrimônio imaterial da cidade do Rio de Janeiro -, Clarisse explica que decidiram recriar na cidade a atmosfera das rodas que frequentavam nas praias cariocas. 

"Faltava isso aqui. Pensávamos: 'Como vamos ficar anos sem jogar? Vamos desaprender.' [...] Não é só sobre jogar, é sobre tudo que engloba o jogar, você se conectar com as pessoas", afirmou Clarisse.  

Pelo gramado, as conversas misturam português e francês. Entre os jogadores está Antonio, que, assim como Isadora e Clarisse, estudou em uma escola francesa no Rio de Janeiro e hoje mora em Paris. 

Para ele, jogar altinha é uma forma de matar a saudade de casa. "Eu sinto como se eu estivesse de volta no Brasil, na praia de Ipanema. É realmente muito bom para se reunir com os amigos, um momento de diversão para todo mundo. E quanto mais gente, melhor!"

Publicidade

Não confunda com a 'brésilienne' 

O grupo nasceu entre brasileiros, mas rapidamente ultrapassou essa fronteira. Franceses e outras nacionalidades também participam das partidas. 

Isadora explica que muitos franceses confundem a altinha com a "brésilienne", prática baseada em embaixadinhas individuais. A altinha privilegia a troca de passes em grupo.

"Você vê pessoas em roda fazendo embaixadinha, toques isolados e perto do corpo para mostrar suas habilidades com toque de bola, sendo que a altinha não tem nada a ver com isso, porque um toque na bola são bolas altas e para cima, e também tem dinâmica de ataque, bolas fortes e para frente", explica Isadora. 

Os vídeos publicados pelas amigas em Paris viralizaram; algumas postagens ultrapassaram a marca de dois milhões de visualizações no Instagram. Hoje, elas reúnem uma comunidade cada vez maior na capital francesa, com mais de mil integrantes em um grupo de WhatsApp. 

Novos grupos se espalham pela Europa

A febre não ficou restrita a Paris. O interesse pela modalidade também impulsionou o surgimento de novas comunidades em países como Suíça, Holanda, Portugal e Espanha e até inspirou novos negócios voltados para a prática.

Publicidade

Um deles é a Altinha Life, criada há cerca de um ano pelo holandês Rutger. Depois de descobrir o esporte em Barcelona, onde viu brasileiros jogando na praia, ele decidiu ajudar a popularizar a modalidade no continente europeu.

"Quando fui ao Brasil, vi muita gente jogando e percebi como a atividade reunia diversão e alegria", contou o jovem holandês. 

Hoje, a empresa mantém parcerias com grupos de praticantes em cidades como Paris e Genebra e negocia novas colaborações em outras localidades francesas. Segundo Rutger, as redes sociais têm desempenhado um papel central na expansão do esporte.

"No início era difícil encontrar pessoas que jogavam. Agora novos grupos aparecem o tempo todo", afirma.

Às margens do lago Léman

As bolas da empresa são utilizadas por diferentes comunidades que surgiram nos últimos anos pelo continente, entre elas a Altinha Paris. Uma das mais recentes é a Alta Suisse, fundada em Genebra pelo suíço Tom.

Fã de futebol e da cultura brasileira, ele descobriu a altinha e passou a praticá-la regularmente na Baby Plage, às margens do Lago Léman. O interesse despertado entre frequentadores do local foi tanto que Tom decidiu criar um grupo para reunir novos praticantes.

Publicidade

Lançada em agosto, a iniciativa já reúne mais de cem pessoas no WhatsApp e promove encontros frequentes em parques e quadras poliesportivas, um sinal de como o esporte vem ganhando espaço além da comunidade brasileira.

"Começamos a desenvolver esse trabalho esse ano e, hoje, vemos cada vez mais bolas da Altinha Life. As pessoas veem nossos vídeos e sempre perguntam de onde vêm as bolas [...] Aproveitamos para explicar um pouco como se joga." 

Com o verão chegando ao fim e as temperaturas começando a cair, muitos se perguntam o que acontecerá com um esporte tão ligado à vida ao ar livre. Por enquanto, a altinha segue ocupando praças e parques europeus, levando um pouco das praias brasileiras para o continente europeu.  

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se