Com dívida recorde, França preocupa investidores e desafia zona do euro

A França pode desestabilizar a zona do euro? A segunda maior economia da União Europeia enfrenta o peso de uma dívida pública crescente, com possível efeito de contágio no bloco. Nos últimos meses, os juros da dívida pública subiram em vários países como os Estados Unidos, o Japão e a Alemanha, impulsionados pela alta dos preços da energia causada pela guerra no Oriente Médio.

18 set 2026 - 14h45
Resumo
A França enfrenta forte desconfiança dos mercados devido à sua dívida recorde de 117,5% do PIB (€ 3,5 trilhões) e a uma previsão de déficit de 5,4% para 2026. A alta nos juros de seus títulos soberanos para 4,5% — superando países como Itália e Grécia — encarece o serviço da dívida e acende o temor de um efeito bola de neve. Fragilizado politicamente no Parlamento, o governo planeja um ajuste fiscal bilionário para tentar equilibrar as contas e mitigar o risco de contágio na zona do euro.

"A França é a mais exposta", afirmou à AFP Kevin Thozet, da gestora de ativos Carmignac. Segundo ele, o país tem uma das maiores dívidas e déficits da zona do euro. O governo, sem maioria no Parlamento, dispõe de pouca margem de manobra. 

Entrada do Ministério da Economia e das Finanças da França (imagem ilustrativa).
Entrada do Ministério da Economia e das Finanças da França (imagem ilustrativa).
Foto: REUTERS - Stephanie Lecocq / RFI

A dívida pública francesa atingiu 117,5% do PIB, o equivalente a cerca de € 3,5 trilhões (R$ 20,6 trilhões), no fim de março. O governo estima que o déficit público chegará a 5,4% do PIB em 2026, quase o dobro do limite previsto pelas regras europeias. 

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O rendimento dos títulos soberanos franceses de dez anos alcançou 4,5% em meados de setembro, maior nível desde 2008. Acima dos níveis registrados em Itália, Espanha e Grécia, essa taxa encarece o serviço da dívida pública, cujo custo é estimado em € 65 bilhões (R$ 382,7 bilhões) em 2026, mais do que os gastos com Educação ou Defesa, sem considerar as aposentadorias. 

Efeito bola de neve

"A França deixou de ser um país central da zona do euro para se tornar um país quase periférico", afirmou Maxime Darmet, economista da Allianz Trade. 

Como exemplo, ele citou a ampliação para 100 pontos-base, nesta sexta-feira (18), do diferencial, conhecido como spread, entre os títulos de dez anos da França e da Alemanha, que rendiam 4,5% e 3,5%, respectivamente. Para Darmet, o movimento reflete uma "preocupação crescente dos investidores". 

O risco de um efeito bola de neve também é preocupante: o endividamento cresce automaticamente quando o custo médio da dívida avança mais rapidamente do que a economia, inclusive descontada a inflação. O governo projeta crescimento de apenas 0,5% em 2026. "Durante muito tempo", afirmou Thozet, a França se beneficiou de "certa tolerância em relação aos seus desvios orçamentários porque era a França, e porque a Europa era França e Alemanha". 

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Mas os investidores internacionais, que detêm cerca de 56% da dívida francesa, "começam a perceber" a situação, acrescentou. Propostas como a de Jean-Luc Mélenchon, líder do partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI), de cancelar parte da dívida pública, gera ainda mais desconfiança. Apesar da deterioração dos indicadores, a dívida francesa continua atraindo investidores e, por enquanto, não representa "um risco sistêmico", ponderou David Zahn, da gestora Franklin Templeton. 

Risco de contágio 

Se a situação se agravar, uma crise de maior dimensão poderá atingir toda a zona do euro, dada a importância econômica da França para o bloco. Darmet vê risco de contágio caso o diferencial de juros alcance entre 120 e 130 pontos-base, em decorrência de uma nova deterioração das contas públicas, de uma desaceleração mais intensa da economia, de um impasse político ou da adoção de medidas econômicas vistas com desconfiança pelos mercados. 

Ainda assim, segundo ele, a zona do euro está "muito mais sólida" do que durante a crise das dívidas soberanas da década de 2010. Países como Portugal ajustaram suas contas públicas e a Itália, embora ainda vulnerável, tornou-se mais resiliente. 

Além disso, "com ou sem razão, os mercados acreditam que o Banco Central Europeu intervirá se os diferenciais de juros realmente dispararem". O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, afirmou na quinta-feira (17) que pretende incluir um ajuste fiscal de € 54 bilhões (R$ 317,9 bilhões) no projeto de orçamento para 2027, com o objetivo de reduzir o déficit público. 

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A aprovação da proposta, porém, enfrentará oposição  no Parlamento.

Com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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