O governo Donald Trump exigiu do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), durante negociações diplomáticas sigilosas após o tarifaço de 50% imposto ao País, que “dissidentes políticos” no Brasil não fossem detidos, presos ou impedidos “arbitrariamente” de participar das eleições presidenciais de 2026, segundo informações do Estadão. O governo dos EUA fez a demanda para que o País se comprometesse com a realização de eleições “livres e justas”.
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A demanda explícita consta em um documento enviado pelos americanos aos negociadores brasileiros em outubro do ano passado, e que foi obtido pelo Estadão, com 21 demandas. O teor da exigência, considerado uma intromissão por integrantes do governo brasileiro, era mantido em segredo pelos dois lados até o momento.
“O Brasil se compromete a realizar eleições presidenciais livres e justas em 2026 e não deterá, prenderá nem limitará arbitrariamente, de qualquer outra forma, a participação de dissidentes políticos no processo eleitoral”, exigiu Trump. Para o governo brasileiro, o pedido dizia respeito à participação do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado no ano passado por tentativa de golpe, nas eleições deste ano.
O Itamaraty não quis comentar oficialmente o teor da proposta. O Departamento de Estado e o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos não responderam aos pedidos da reportagem.
Em agosto, uma autoridade de alto escalão do Departamento de Estado afirmou, sob reserva, que o governo dos EUA respeitaria o resultado das urnas, desde que o Brasil promovesse uma disputa eleitoral “livre e justa” e que os Estados Unidos já trabalharam com governos de “ambos os lados do espectro no Brasil” e que os relacionamentos foram bem-sucedidos.
Daniel Perez, embaixador indicado por Trump, ainda não aprovado por Lula, negou que irã se envolver na disputa eleitoral em entrevista a uma TV da Flórida. “Quanto às eleições no Brasil, isso cabe aos brasileiros decidir, e quem quer que eles escolham como vencedor será a pessoa com quem trabalharei”, disse.
O governo Lula já acusou o governo Trump de tentar operar uma ingerência descabida em assuntos domésticos, violar a soberania e interferir processo eleitoral brasileiro, mas sempre o fez em função de outras ações concretas dos EUA — como o tarifaço, a designação de facções como terroristas, aplicação de sanções a autoridades, envio de representantes e a cassação de vistos diplomáticos.
A exigência nunca havia sido trazida ao conhecimento público, nem era de domínio de todos os integrantes do governo envolvidos na negociação bilateral.
A negociação após tarifaço de 50%
O documento foi apresentado no dia 16 de outubro de 2025 a uma missão brasileira despachada a Washington, liderada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Ele consiste na primeira proposta de acordo entre os dois governos após o tarifaço de 50% imposto ao Brasil, anunciado por Trump em julho do ano passado.
O chanceler viajou com dois negociadores e quatro assessores. Pelo menos dois deles receberam a proposta originalmente enviada por e-mail, com o objetivo de promover discussões internas na comitiva brasileira e levar o assunto ao Ministério em reunião posterior entre os governos.
Os Estados Unidos não mencionam no documento o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 27 anos e três meses de prisão no caso da trama golpista. Mesmo depois da condenação, Bolsonaro e seus familiares insistiram por alguns meses na pré-candidatura do ex-presidente. Ele já estava inelegível até 2030 na época, por abuso de poder político, em ação julgada em 2023 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Flávio Bolsonaro (PL), senador e filho do ex-presidente, só veio a público anunciar que havia sido indicado pelo pai como pré-candidato a presidente em 5 de dezembro.
(*Com informações do Estadão)