O Irã pediu "respeito mútuo" nas discussões. Segundo o ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi, o encontro com o enviado dos Estados Unidos, Steve Witkoff, deve focar apenas no programa nuclear, que Teerã afirma ter fins pacíficos.
Washington quer abordar também a questão dos mísseis balísticos iranianos, o apoio de Teerã a grupos armados na região e como a República Islâmica "trata o seu próprio povo", afirmou o secretário de Estado americano, Marco Rubio.
"O Irã está conduzindo a diplomacia com lucidez e levando em consideração os eventos do ano passado. Estamos agindo de boa-fé e defendendo firmemente nossos direitos. Os compromissos devem ser honrados", escreveu no X o chanceler, instantes antes do início das negociações. "Igualdade, respeito e benefício mútuo não são palavras vazias, são condições essenciais e os pilares de um acordo duradouro."
Mais cedo, Araghchi se reuniu em Mascate com a diplomacia de Omã, que já atuou como mediadora entre os dois países em negociações sobre o programa nuclear iraniano em 2025, e que foram suspensas em junho, em meio aos ataques de Israel às instalações nucleares iranianas, com apoio dos Estados Unidos.
Esse encontro é o primeiro desde a "Guerra dos 12 Dias". A situação das instalações danificadas permanece incerta.
Irã tem apoio da China
As negociações ocorrem após a sangrenta repressão do regime iraniano ao amplo movimento de protesto que começou no início de janeiro, que deixou milhares de mortos, e após uma série de trocas de farpas entre Washington e Teerã. O Irã diz que se defenderá contra quaisquer exigências excessivas por parte dos Estados Unidos.
Horas antes da reunião, a televisão estatal iraniana informou que um dos mísseis de longo alcance mais avançados do país havia sido instalado em uma das bases subterrâneas da Guarda Revolucionária. A China afirmou que apoia o Irã na defesa de seus interesses e se opõe a qualquer "intimidação".
A República Islâmica está enfraquecida por uma série de reveses: além dos bombardeios israelenses e americanos às suas instalações nucleares, a queda do regime aliado de Bashar al-Assad na Síria, o colapso militar do Hezbollah no Líbano e a contestação interna a colocam em uma posição fragilizada no diálogo.
Até onde Teerã poderia ir?
"A situação na República Islâmica é sem precedentes. Trata-se de um regime que perpetrou crimes contra a humanidade no início de janeiro. É uma forma de suicídio político, o que significa que eles seriam capazes de tomar medidas excepcionais se acreditassem que sua sobrevivência está em risco e que o regime está ameaçado a curto prazo", explica à RFI o pesquisador Clément Therme, especialista em Irã.
"O uso desproporcional da força contra manifestações pacíficas sugere que a ameaça de uma escalada militar regional pode se concretizar, daí a preocupação dos países da região e a mobilização geral para organizar um formato de negociação e evitar essa perspectiva no curto prazo", enfatiza o especialista do Instituto Francês de Relações Internacionais (Iris), em Paris.
Do outro lado, os Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, acumularam uma presença militar impressionante na região, enquanto exercem pressão máxima para impor exigências radicais. Os Estados Unidos exigem que o Irã cesse o enriquecimento de urânio em seu território e que seu estoque de metal já processado seja transferido para fora das fronteiras iranianas - algo que Teerã se recusa a cogitar.
Washington também quer revisar o programa de mísseis balísticos do Irã, ou seja, reduzir a produção e o alcance de seus mísseis. Fontes iranianas de alto escalão disseram à Reuters que este é, sem dúvida, o assunto mais sensível para as autoridades do regime até o momento.
Com Reuters e AFP