'Não acho que sou herói': o menino que nadou de forma 'sobre-humana' por 4 horas para salvar a mãe e os irmãos

Austin Appelbee contou detalhes das horas que passou na água nadando para salvar a vida de sua mãe e irmãos na Austrália.

4 fev 2026 - 07h48
Austin Appelbee, ao lado de sua mãe Joanne, disse à BBC que teve muito medo
Austin Appelbee, ao lado de sua mãe Joanne, disse à BBC que teve muito medo
Foto: BBC News Brasil

Um menino australiano de 13 anos que nadou por quatro horas para buscar ajuda para sua família depois que eles foram levados para longe no mar disse à BBC: "Eu não me achei um herói — eu apenas fiz o que fiz".

Austin Appelbee não sabia se sua mãe, Joanne, seu irmão, Beau, e sua irmã, Grace, ainda estavam vivos quando finalmente chegou à praia, quatro horas depois de tê-los deixado na água agarrados a duas pranchas de stand-up paddle.

Publicidade

A quilômetros de distância da costa oeste da Austrália — com as ondas ficando maiores e a luz do dia começando a diminuir — sua mãe temia que ele também não tivesse sobrevivido.

Somente horas depois, quando Joanne finalmente avistou o barco de resgate, ela soube que ele estava vivo. A essa altura, ela e as crianças já haviam se afastado a 14 km do litoral.

O que começou como um dia em família na praia terminou em um calvário de 10 horas para Joanne e sua família. A travessia a nado de Austin para pedir ajuda foi posteriormente descrita como "sobre-humana" pelos socorristas.

"Eu presumi que Austin não tivesse sobrevivido", disse Joanne, de 47 anos, ao canal BBC News.

Publicidade

No final, porém, "foi um final totalmente perfeito, todos bem, felizes e doloridos, mas sem ferimentos".

'Uma batalha difícil'

A família voltaria na sexta-feira da semana passada para sua casa em Perth, mas antes disso estava brincando com duas pranchas de stand-up paddle e um caiaque na parte rasa da praia, explicou Joanne, quando as crianças "foram um pouco longe demais".

"O vento aumentou e a situação piorou", lembrou ela. "Perdemos os remos e fomos levados para mais longe... Tudo deu errado muito, muito rápido."

Ao se verem à deriva cada vez mais longe da praia de Quindalup, na Austrália Ocidental, Joanne percebeu que precisava fazer algo, mas não podia deixar Beau, de 12 anos, e Grace, de oito, sozinhos.

Austin pegou o caiaque para voltar à praia em busca de ajuda, sem perceber que a embarcação estava danificada, com água entrando nela.

"Ele [o caiaque] começou a virar, e em seguida eu perdi um remo e soube que estava em perigo", lembrou ele. "Comecei a remar com o braço."

Publicidade

Em um dado momento, ele conseguiu fazer o caiaque funcionar — antes que ele virasse pela última vez.

Agarrado ao caiaque virado, Austin — que jura ter "visto algo na água" — percebeu que precisava fazer alguma coisa.

"A situação estava ficando perigosa — eu já estava na água há algumas horas."

A família estava passando férias em Geographe Bay, na Austrália Ocidental
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Ele havia perdido de vista sua família, que também não conseguia mais vê-lo. Conforme Joanne e as crianças se afastavam cada vez mais para o mar, as ondas ficavam cada vez maiores, tornando mais difícil se manterem nas pranchas, e a visibilidade também piorava. Todos usavam coletes salva-vidas, mas não tinham comida nem água.

"Eu presumi que Austin tivesse chegado muito mais rápido do que realmente chegou", disse ela. "Conforme o dia avançava, nenhum barco aparecia e ninguém vinha nos resgatar.

"Se ele não conseguiu, o que eu fiz? Tomei a decisão errada? E alguém vai vir salvar meus outros dois filhos?"

Austin, por sua vez, começou a nadar os últimos 4 km, abandonando seu próprio colete salva-vidas depois de um tempo porque não estava ajudando.

Publicidade

Durante as duas horas seguintes, foram a oração, as músicas cristãs e os "pensamentos felizes" que mantiveram o garoto de 13 anos, "muito assustado", firme.

"Eu estava pensando na minha mãe, no Beau e na Grace." "Eu também estava pensando nos meus amigos e na minha namorada — tenho um grupo de amigos muito bom", disse ele.

"Quando botei o pé na praia, pensei: como é que estou em terra firme agora? Será que estou sonhando?"

Então, ele teve outro pensamento: sua família "ainda pode estar viva lá fora — eu preciso salvá-los".

Eram cerca de 18h no horário local, quando ele finalmente achou a bolsa da mãe e telefonou pedindo ajuda.

A ligação desencadeou uma grande operação de busca, informou a polícia em um comunicado na segunda-feira (2/2).

Publicidade

Austin — que havia desmaiado após fazer a ligação — foi levado para o hospital, onde ligou para o pai, chorando muito. Ele ainda não sabia se Joanne e seus irmãos estavam vivos.

Mas minutos depois, ele recebeu uma ligação dizendo que eles haviam sido encontrados. Todos — médicos e policiais — estavam pulando de alegria.

"Foi um momento que nunca vou esquecer", disse Austin.

Em alto mar, Joanne tinha dificuldades para conseguir segurar seus filhos menores. Eles estavam com muito frio e já estava escuro. Ela temia que o pior tivesse acontecido com Austin.

"Não conseguíamos ver nada vindo para nos salvar", disse ela. "Estávamos chegando ao ponto de estarmos completamente sozinhos."

Joanne não conseguiu relaxar nem mesmo quando viu o barco se aproximando: as crianças haviam caído na água e ela tentava desesperadamente alcançá-las.

Publicidade

"Foi um verdadeiro pesadelo", disse ela.

De volta à terra firme, eles foram atendidos no hospital por ferimentos leves. O mesmo paramédico que socorreu Austin pôde confirmar — finalmente — que ele também havia sobrevivido.

Austin até já voltou para a escola — embora de muletas, pois suas pernas estavam muito doloridas.

Agora, menos de cinco dias depois, Austin ainda está tentando assimilar o que aconteceu. Ele certamente não se vê como um herói, apesar do que as pessoas continuam dizendo. Foi, ele reconheceu, uma "batalha difícil".

Seus elogios são reservados à "adorável equipe da ambulância" e à "resposta realmente rápida" do serviço de emergência.

Outros, no entanto, foram efusivos em seus elogios a Austin.

Publicidade

O comandante do Grupo de Resgate Marítimo Voluntário de Naturaliste, Paul Bresland, descreveu os esforços do adolescente como "sobre-humanos".

O policial James Bradley disse que suas ações "não podem ser elogiadas o suficiente — sua determinação e coragem acabaram salvando a vida de sua mãe e irmãos".

BBC News Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da BBC News Brasil.
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações