O Senado dos EUA avançou com uma resolução para impedir ações militares de Trump na Venezuela sem autorização do Congresso, em uma votação apertada que contou com apoio de alguns republicanos, mas a medida ainda enfrenta desafios significativos para ser aprovada.
O Senado dos Estados Unidos avançou nesta quinta-feira com uma resolução que proibiria o presidente Donald Trump de realizar novas ações militares contra a Venezuela sem autorização do Congresso, uma rara repreensão ao líder republicano.
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O placar da votação de uma medida processual para avançar a resolução de poderes de guerra foi de 52 a 47, com cinco senadores do Partido Republicano, de Trump, votando com todos os democratas a favor do avanço. Um senador republicano não votou.
A votação ocorreu dias depois que forças dos EUA capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro em um dramático ataque militar em Caracas no sábado. A repreensão a Trump, um dia depois que importantes integrantes do gabinete informaram todos os membros do Congresso sobre sua política para a Venezuela, marcou uma mudança no Senado de 100 membros.
Foi uma vitória significativa para os parlamentares que têm argumentado que o Congresso, e não o presidente, deve ter o poder de enviar tropas para a guerra, conforme explicitado na Constituição.
Entretanto, a resolução enfrenta grandes obstáculos antes de entrar em vigor.
Mesmo que seja aprovada no Senado, a resolução também deverá ser aprovada na Câmara dos Deputados, controlada pelos republicanos, e obter maioria de dois terços na Câmara e no Senado para sobreviver a um esperado veto de Trump.
Os republicanos bloquearam duas tentativas anteriores de aprovar resoluções semelhantes no Senado no ano passado, enquanto o governo aumentava a pressão militar sobre a Venezuela com ataques a embarcações no sul do Caribe e no leste do Pacífico.
Entretanto, a votação que bloqueou a última resolução em novembro foi de apenas 51-49, logo após os principais assessores de Trump terem dito aos parlamentares que não planejavam mudar o governo ou realizar ataques em território venezuelano.
Após a captura de Maduro, alguns parlamentares acusaram o governo de enganar o Congresso, inclusive os democratas publicamente e alguns republicanos nos bastidores. A captura de Maduro e a retórica de Trump também levantaram preocupações quanto a uma ação militar para tomar a Groenlândia, uma ilha do Ártico que é um território autônomo da Dinamarca, ou contra Colômbia, Cuba ou Irã.
A votação desta quinta-feira abriu caminho para o debate no Senado e uma votação sobre a aprovação final no Senado na próxima semana.
QUESTIONAMENTOS DOS REPUBLICANOS
O senador Rand Paul, um republicano do Kentucky que co-patrocinou a resolução, disse que alguns de seus pares republicanos estavam considerando apoiar a medida.
"Não posso garantir como eles votarão, mas pelo menos dois estão pensando nisso, e alguns deles estão falando publicamente sobre suas dúvidas em relação a isso", disse Paul em uma coletiva de imprensa na quarta-feira com o senador democrata Tim Kaine, da Virgínia, outro copatrocinador.
Ambos os senadores são membros do Comitê de Relações Exteriores.
Após a votação, Kaine afirmou que foi uma "grande vitória", dizendo aos repórteres: "Nenhum de nós deveria querer que este presidente, ou qualquer presidente, leve nossos filhos e filhas para a guerra sem aviso prévio, consulta, debate e votação no Congresso".
Os cinco republicanos que votaram a favor do avanço foram Paul, Susan Collins, do Maine, Josh Hawley, do Missouri, Lisa Murkowski, do Alasca, e Todd Young, de Indiana. O partido de Trump detém uma maioria de 53 a 47 no Senado.
Trump disse que os cinco "jamais deveriam ser eleitos para um cargo novamente". Ele disse em seu site Truth Social: "Os republicanos deveriam se envergonhar dos senadores que acabaram de votar com os democratas na tentativa de tirar nossos poderes de lutar e defender os Estados Unidos da América".
"GUERRA SEM FIM"
Os apoiadores reconhecem os obstáculos enfrentados pela medida, mas disseram que muitos republicanos podem desconfiar de uma campanha prolongada e cara de mudança de governo na Venezuela, à medida que os EUA enfrentam grandes déficits orçamentários.
Na quarta-feira, Trump pediu um grande aumento nos gastos militares dos EUA, de US$1 trilhão para US$1,5 trilhão.
O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, de Nova York, mencionou meses de ataques dos EUA a barcos venezuelanos e a declaração de Trump em uma entrevista ao New York Times de que os EUA estariam envolvidos na Venezuela por mais de um ano.
"O presidente está sinalizando abertamente um compromisso militar e financeiro de longo prazo no exterior, sem autorização, sem plano, outra guerra sem fim", disse Schumer em uma coletiva de imprensa.
Os senadores que se opuseram à resolução disseram que a captura de Maduro foi uma operação de aplicação da lei, não uma ação militar. Maduro enfrenta um julgamento em um tribunal dos EUA por acusações de porte de drogas e armas, das quais ele se declarou inocente.
Os oponentes também disseram que Trump está dentro de seus direitos como comandante-em-chefe para lançar ações militares limitadas.
"O objetivo dessa resolução é dar um tapa na cara do presidente. Ela não fará nada do que pretende fazer porque não pode impedir algo que não está acontecendo agora", disse o senador Jim Risch, de Idaho, o republicano que preside o Comitê de Relações Exteriores, em um discurso no Senado antes da votação.