Após a raiva, veio a resignação. Uma semana depois do terremoto que devastou a região costeira ao norte de Caracas, a população afetada praticamente perdeu a esperança de encontrar seus entes queridos. O número de vítimas fatais, ainda provisório, continua a aumentar: são 2.295 mortos e 11.267 feridos.
No estado de La Guaira, o sentimento predominante é de desalento. Moradores choram nas ruas, agora transformadas em acampamentos improvisados e cobertas de lama após as fortes chuvas das últimas horas. Barracas e colchões encharcados dividem espaço com montanhas de escombros, enquanto milhares de pessoas permanecem entregues à própria sorte.
O número de desalojados em situação crítica é imenso. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que a emergência possa afetar até meio milhão de pessoas e lançou um apelo por recursos, alertando que os meios atualmente disponíveis não serão suficientes para responder à dimensão do desastre. Milhares de famílias perderam tudo, desde parentes até suas casas. As ruínas do que restou de muitas residências também passaram a ser alvo de saqueadores, que há dias pilham bens entre os escombros.
Segundo a imprensa independente, muitos agentes de segurança também se juntaram aos criminosos. O fenômeno, relatado nos últimos dias, reflete o cenário de profunda crise social enfrentado pelo país, onde parte significativa da população, incluindo servidores públicos, já vivia em condições de extrema dificuldade antes do terremoto.
Nas últimas horas, o próprio governo reconheceu o problema pela primeira vez. Nos dias seguintes à tragédia, as autoridades chavistas exaltaram repetidamente o heroísmo da população e das Forças Armadas Bolivarianas na resposta à emergência. Denúncias de abusos e saques, por sua vez, eram classificadas pela televisão estatal e pelo governo como notícias falsas disseminadas pela oposição.
O cenário mudou nesta quarta-feira. O ministro do Interior, Diosdado Cabello, anunciou a prisão de quatro agentes do Corpo de Investigações Científicas, Penais e Criminalísticas (CICPC), acusados de praticar saques durante operações de resgate.
"O governo terá tolerância zero com aqueles que mancham e desonram o uniforme de nossas forças policiais com atos imorais", afirmou o ministro.
Um dos agentes aparece em um vídeo que viralizou nas redes sociais carregando uma sacola repleta de dólares encontrada entre os escombros. As imagens mostram o momento em que ele é cercado por moradores indignados, que retiram o dinheiro de suas mãos enquanto o chamam de "canalha".
Enquanto isso, as equipes de resgate seguem realizando as últimas escavações em La Guaira, a área mais atingida pelos dois fortes tremores. No entanto, já faz dias que não há sinais de sobreviventes sob os escombros. Ainda há quem espere que as chuvas recentes tenham contribuído para manter alguma pessoa viva, mas as chances de novos resgates bem-sucedidos diminuem a cada hora.
"A esperança permanece intacta: continuamos escavando em um esforço para salvar vidas", declarou o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, durante seu boletim diário na televisão estatal.
O discurso otimista, porém, contrasta com a realidade enfrentada pelo país. As primeiras equipes internacionais de resgate já começaram a deixar a Venezuela. Entre elas está o primeiro contingente italiano, que embarcará nesta noite em um voo partindo do aeroporto de La Guaira. A equipe holandesa, composta por 64 socorristas e oito cães farejadores, também encerrou sua missão, frustrada por não ter conseguido encontrar sobreviventes.
"Estamos voltando para casa com a sensação de que fizemos tudo o que era possível no tempo que tivemos, mas também com o pensamento de que, se tivéssemos chegado um pouco antes, talvez pudéssemos ter salvado alguém. A probabilidade de encontrar pessoas ainda com vida agora é muito baixa", afirmou um dos socorristas. .