Na cidade estoniana de Narva, na fronteira oriental da União Europeia, redes sociais vêm sendo tomadas por publicações de cunho separatista em russo. O que está por trás disso e como a população local encara a situação?No mapa, Narva é apenas uma cidade da Estônia, na fronteira oriental da União Europeia. Politicamente, porém, essa fronteira é palco de debates sobre segurança, identidade e o futuro da Europa.
O motivo são vários canais anônimos em língua russa nas redes sociais, com o nome sensacionalista de "República Popular de Narva". Neles, desconhecidos conclamam à separação da cidade da Estônia e difundem narrativas pró-Rússia.
Os serviços de inteligência estonianos classificam isso como provocação. Os moradores locais, por sua vez, veem como puro disparate.
Ainda assim, o simples aparecimento desse tipo de mensagem já faz da cidade fronteiriça um símbolo de distanciamento em relação à Rússia. O que está acontecendo atualmente na cidade "mais russa" da UE e da Otan?
A Rússia logo ali
Em Narva, tudo segue como sempre: as pessoas cuidam de seus afazeres cotidianos. Um vento forte sopra do rio homônimo em direção ao Golfo da Finlândia, as ruas estão quase vazias, e vê-se a mistura habitual de fachadas soviéticas com letreiros de lojas europeias.
Do outro lado do rio fica Ivangorod, na Rússia. A fronteira com o país vizinho está aberta, mas só pode ser atravessada durante o dia e a pé. Carros e ônibus não podem passar pela ponte — uma decisão tomada pela Rússia. Oficialmente, a ponte está sob reformas, e o bloqueio deve durar pelo menos até o fim do ano.
Para muitos moradores de Narva, atravessar entre os dois países faz parte do cotidiano. As pessoas cruzam o rio Narva como sempre. Alguns vão fazer compras, outros visitam parentes, outros fazem isso simplesmente por hábito.
"A Europa começa aqui" — por muito tempo, a cidade se orgulhou dessa frase. Hoje, porém, ela soa diferente. Mesmo que a fronteira pareça tranquila, é aqui que o Ocidente e a Rússia se encontram de forma direta. Todos os grandes temas da política europeia — Otan, sanções, guerra na Ucrânia — são sentidos em Narva a poucos centenas de metros de distância.
Moradores preocupados com a "imagem da cidade"
Nas últimas semanas, Narva esteve nos holofotes internacionais. Primeiro, por causa das especulações sobre um possível separatismo.
Depois, devido a um drone que caiu recentemente na região — provavelmente ucraniano, mas que teria vindo de território russo. A versão oficial, de qualquer forma, é que o drone se perdeu.
Em 25 de março, drones ucranianos atacaram portos na região russa de Leningrado. Um dos drones desaparecidos atingiu a chaminé de uma usina elétrica na pequena cidade de Auvere, perto de Narva. Felizmente, não houve mortos nem feridos graves.
Ao comentar as supostas tendências separatistas, a prefeita Katri Raik demonstra tranquilidade: "As pessoas em Narva se preocupam com a imagem da cidade. Esse tipo de notícia nos torna conhecidos de forma negativa, o que ninguém quer. As pessoas amam muito a sua cidade. Os moradores de Narva não têm tempo para inventar histórias. Aqui, o que importa é sobreviver e conseguir pagar as contas de aquecimento e de eletricidade."
Uma cidade "russa" dentro da União Europeia
Narva é a cidade mais russófona da UE. Apenas cerca de 2% dos habitantes falam estoniano em casa. O restante fala russo. Além disso, um terço da população possui passaporte russo.
Mesmo assim, algo está mudando, diz Raik, que faz parte dos 2% de falantes de estoniano.
"Antes, o estoniano era, por assim dizer, uma língua secreta; hoje não é mais assim. Claro que Narva não vai se tornar uma cidade de língua estoniana — ela continuará bilíngue e, no futuro, talvez até trilíngue."
Ela se refere ao inglês, que pode se tornar uma importante língua de comunicação internacional após a abertura da primeira fábrica europeia de ímãs de terras raras em Narva. A unidade já produz componentes importantes para a Europa, reduzindo a dependência da UE em relação à China.
O fato de russos étnicos constituírem a maioria absoluta em uma cidade que faz fronteira com a Rússia desperta paralelos com o Donbass, a Crimeia e a Transnístria. Comparações desse tipo aparecem repetidamente em diversos meios de comunicação, incluindo ucranianos e russos.
O jornalista e antropólogo local Roman Vikulov rejeita essas analogias: "Em Narva não há separatistas, e nunca houve — exceto há 35 anos, quando muitos sonhavam com uma autonomia dentro da República da Estônia. Hoje não se fala mais nisso."
"Um clima geral ruim, mas não agressivo"
Vikulov aponta, porém, que há pessoas em Narva que já não acreditam que suas vidas possam melhorar na Estônia.
"Existe uma grande decepção e uma tristeza profunda. O clima geral é ruim, mas não agressivo", relata.
As pessoas estariam deixando a cidade não porque quisessem se juntar à Rússia ou se separar da Estônia, mas porque não veem futuro ali.
"Por frustração e desconfiança em relação ao futuro de Narva como um todo", diz Vikulov. "Isso está diretamente ligado à situação do nosso vizinho oriental. Durante muito tempo, como cidade fronteiriça, nos prometeram boas perspectivas. Esperava-se um fluxo constante de pessoas que gastariam dinheiro aqui. Esse sonho, na minha opinião, já acabou."
Segundo ele, não se trata de clima político, mas de problemas do dia a dia.
Nas ruas de Narva, conversas políticas terminam rapidamente. Uma senhora idosa disse apenas ao repórter da DW:
"Isso tudo não me interessa. Moro em Narva há muito tempo, e para mim a cidade é o que é — ela continua sendo a minha cidade."
Sobre a chamada "República Popular", os moradores dizem: "Isso não é para ser levado a sério, é fake." "Um absurdo completo. Não dá nem para imaginar." "Não acredito que os moradores de Narva queiram se submeter à Rússia. No meu círculo de conhecidos, não conheço ninguém que queira isso." Quase todos acrescentam que a vida na Estônia é melhor. Basta, segundo eles, uma visita ao lado russo para se convencer disso.
A comparação entre as duas cidades separadas pelo rio Narva é desfavorável a Ivangorod, dizem os moradores de Narva. A construção da orla fluvial em Ivangorod fracassou, embora a UE tenha disponibilizado recursos em um programa de cooperação transfronteiriça.
No lado estoniano, surgiu uma bela orla, enquanto a de Ivangorod ficou nove vezes menor. A qualidade do lado russo também deixa a desejar.
Narva recebeu 830 mil dólares para a obra; os russos, 1,2 milhão de euros. Em 2017, o New York Times relatou o caso, atribuindo o fracasso russo provavelmente à corrupção. Dois anos depois, moradores de Ivangorod confirmaram a tese frente a um repórter da DW.
"Trata-se de uma comparação de condições de vida que se pode fazer toda semana", diz Serguei Stepanov, jornalista da televisão pública estoniana em Narva. Segundo ele, as pessoas na Rússia são mais pobres, e as aposentadorias na região de Leningrado são cerca de três vezes menores do que na Estônia. Ele descreve Ivangorod como uma cidade deprimente. Por isso, algo parecido ao que se viu na Crimeia, no que diz respeito ao apoio da população local, lhe parece irrealista. "As pessoas não querem pertencer à Rússia", enfatiza Stepanow.
A vice-presidente do Conselho Municipal de Narva, Jana Kondrasova, pondera:
"Sempre haverá alguém com uma visão de mundo radical. Claro que também existem essas pessoas aqui, mas não se trata de um fenômeno disseminado."
A Rússia tem planos para Narva?
Em Moscou, Narva jamais é esquecida. O presidente Vladimir Putin mencionou a cidade em 2022, afirmando que o czar Pedro, o Grande, teria "recuperado territórios" durante a Grande Guerra do Norte, incluindo Narva. A declaração provocou protestos na Estônia.
Desde a invasão russa da Ucrânia, ocorre todos os anos, em 9 de maio, um grande concerto na margem russa do rio Narva, com símbolos soviéticos proibidos na Estônia, transmissão do desfile na Praça Vermelha e artistas pop russos. O palco é montado de forma a ser visto claramente de Narva. Nesse dia, a fronteira se transforma em um grande telão.