Da Groenlândia à Ucrânia, diplomacia centralizada de Trump desconcerta aliados

24 jan 2026 - 14h41

Quando as autoridades dos Estados Unidos, da Dinamarca e da Groenlândia se reuniram no mês passado na capital da ilha ártica, a sessão foi tranquilizadora e normal, sem nenhuma discussão sobre uma aquisição militar ou financeira do território dinamarquês pelos EUA, disseram à Reuters várias pessoas familiarizadas com as conversas.

Tudo isso mudou menos de duas semanas depois, quando o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou um enviado especial para a vasta ilha, Jeff Landry, que publicou nas mídias sociais ‌que ajudaria a "tornar a Groenlândia parte dos EUA."

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A nomeação e a mensagem surpreenderam Copenhague e pegaram de surpresa os altos funcionários norte-americanos do governo que trabalham com questões europeias e da aliança militar ocidental Organização do Tratado do ‌Atlântico Norte (Otan), disseram as fontes.

A exclusão de seus próprios diplomatas se enquadra no padrão de elaboração da política externa de Trump, que tem se desviado bastante em uma série de questões e, muitas vezes, tem sido formulada sem as autoridades de segurança nacional que, em outros mandatos presidenciais dos EUA, ajudaram a orientar a política.

Em vez disso, as medidas do governo Trump, que incluíram uma ameaça implícita de tomar a Groenlândia, um plano para novas tarifas sobre os aliados dos EUA e um esforço para arrancar concessões da Dinamarca, que governa a Groenlândia, pareciam ser conduzidas exclusivamente por Trump e um pequeno grupo de assessores próximos.

Conforme relatado pela Reuters nesta semana, esses assessores incluem o ‍secretário de Comércio, Howard Lutnick, que propôs a ideia das tarifas, e o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado, Marco Rubio, e outros que tentaram evitar que Trump considerasse a possibilidade de usar a força militar.

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Em muitos aspectos, essa é uma abordagem que funciona para Trump, dada sua desconfiança em relação à burocracia de Washington e seu desejo de ter suas decisões implementadas rapidamente. Mas os anúncios repentinos e as reviravoltas surpreendentes que decorrem dessa abordagem podem causar danos duradouros às relações com os principais aliados dos EUA.

Quando solicitada a comentar sobre vários exemplos de medidas da Casa Branca que surpreenderam ‌os diplomatas envolvidos em casos como Groenlândia, Ucrânia e Síria, a porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, disse que as pessoas "que vazam para a Reuters" não ‌estão a par de discussões delicadas e que as realizações da equipe de segurança nacional de Trump falam por si mesmas.

"O presidente foi eleito para implementar a política externa America First (América em primeiro lugar), e ele o fez de forma mais eficaz por meio de sua abordagem de cima para baixo", disse Kelly.

AÇÃO MILITAR

O perigo dessa abordagem centralizadora -- e personalista -- ficou claro nas últimas semanas.

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A fúria transatlântica em relação à Groenlândia aumentou depois de uma entrevista à CNN, em 5 de janeiro, do vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller. Perguntado se a Casa Branca, após a operação militar na Venezuela dois dias antes, descartaria uma ação militar para adquirir a Groenlândia, Miller se recusou a responder diretamente.

Trump e os funcionários de seu governo pareceram reforçar a possibilidade de os EUA usarem a força na Groenlândia em entrevistas e nas mídias sociais.

Os comentários geraram confusão e alarme em Washington e entre os aliados dos EUA.

No Capitólio, democratas e republicanos ficaram ansiosos -- o governo parecia estar mais uma vez avançando com uma grande operação militar sem consultar o Congresso primeiro, disseram duas fontes familiarizadas com o assunto.

Os parlamentares telefonaram para Rubio e para altos funcionários da Casa Branca, expondo suas preocupações e aconselhando o governo a não seguir em frente, disse uma dessas fontes. Alguns parlamentares republicanos também disseram às autoridades do governo que temiam uma possível investigação de impeachment sobre qualquer invasão militar da Groenlândia, disseram as fontes.

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Nesta semana, Trump diminuiu a tensão, retirando sua ameaça de impor tarifas aos aliados que apoiam a Groenlândia e dizendo que havia chegado aos contornos de um acordo com a Otan sobre o futuro da ilha.

Trump disse que ele e o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, "formaram a estrutura de um acordo futuro com relação à Groenlândia e, de fato, a toda a Região Ártica" durante conversas em Davos, na Suíça.

Mas a ação militar nunca foi seriamente considerada, de acordo com duas fontes próximas ao governo.

Kori Schake, ex-funcionária do Pentágono e da Casa Branca que está atualmente no American Enterprise Institute, disse que, com a ameaça de Trump de tomar a Groenlândia à força, o estrago já foi feito.

"Trump é tão errático em suas ameaças que não há como estabelecer que ele não voltará atrás e fará isso novamente. Ele tornou os Estados Unidos indignos de confiança para nossos amigos mais próximos", disse Schake.

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Solicitada a fazer comentários, inclusive sobre as observações de Miller, a porta-voz ‌da Casa Branca, Kelly, disse: "Se esse acordo for concretizado... os Estados Unidos estarão atingindo todos os seus objetivos estratégicos com relação à Groenlândia, a um custo muito baixo, para sempre".

O gabinete de Landry não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. Um porta-voz da embaixada dinamarquesa não fez comentários para esta matéria.

Trump e seus apoiadores têm insistido que os EUA precisam da Groenlândia para se defender das ameaças russas e chinesas no Ártico e que a Dinamarca não pode garantir a segurança da ilha. No entanto, os Estados Unidos já têm uma base na ilha e a capacidade de expandir sua presença lá, de acordo com um tratado de 1951 com a Dinamarca.

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