Corte da internet não intimida manifestantes no Irã, que mantêm protestos apesar da repressão

Os iranianos voltaram às ruas de várias cidades do país na noite desta sexta-feira (9), incluindo a capital, Teerã, no 13º dia do maior movimento de protesto contra o governo em mais de três anos. A rede nacional de internet continua bloqueada por determinação das autoridades da República Islâmica.

10 jan 2026 - 05h03

Apesar da repressão e do corte das comunicações, moradores marcharam por diversas ruas principais da capital, segundo um vídeo verificado pela AFP e imagens publicadas nas redes sociais. Alguns batiam panelas e entoavam frases contra o governo, incluindo "Morte a Khamenei", em referência ao líder supremo do Irã.

Em bairros como Sadatabad, no noroeste de Teerã, os manifestantes receberam apoio de motoristas que buzinavam, mostrou um dos vídeos. Canais de televisão em língua persa, com sede no exterior, transmitiram vídeos de manifestantes em Mashhad, no leste, Tabriz, no norte, e na cidade sagrada de Qom.

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A advogada iraniana Shirin Ebadi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2003 e exilada, disse temer um "massacre sob a cobertura de um apagão total", já que a conectividade foi reduzida a 1% do nível normal, segundo a ONG de monitoramento de segurança cibernética Netblocks.

O bloqueio da internet "não é um problema técnico no Irã, é uma tática", disse Shirin Ebadi, acrescentando que foi informada de que centenas de pessoas foram levadas a um hospital de Teerã na quinta-feira com "graves ferimentos oculares", causados por tiros de balas de borracha.

"Parece que as pessoas estão tomando o controle de algumas cidades, algo que ninguém imaginaria ser possível há poucas semanas", disse o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acrescentando que o Irã tem "grandes problemas".

Acusações 'delirantes', dizem EUA

Na quinta-feira (8), Trump havia ameaçado novamente "atacar o Irã com muita força" caso as autoridades matassem manifestantes. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, acusou os Estados Unidos e Israel de interferirem no movimento de protesto, ao mesmo tempo em que descartou a possibilidade de intervenção militar estrangeira.

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O Departamento de Estado americano rejeitou essas acusações, alegando que se tratam de uma "tentativa delirante de desviar a atenção". Pelo menos 51 manifestantes, incluindo nove crianças, foram mortos e centenas ficaram feridos em todo o Irã desde o início dos protestos, em 28 de dezembro, informou na sexta-feira a ONG Iran Human Rights, com sede na Noruega.

Na sexta-feira, a televisão iraniana mostrou a extensão dos danos materiais da onda de manifestações. O prefeito de Teerã afirmou que mais de 42 ônibus, veículos públicos e ambulâncias foram incendiados, assim como 10 prédios governamentais. Um promotor na cidade de Esfarayen, no leste do Irã, e vários membros das forças de segurança foram mortos na noite de quinta-feira durante os protestos, segundo o judiciário.

Khamenei promete não recuar

O líder supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, advertiu na sexta-feira que seu país "não vai recuar" diante dos protestos que desafiam a República Islâmica, no poder desde 1979. Dirigindo-se a apoiadores que gritavam "Morte à América", Khamenei adotou um tom agressivo em um discurso transmitido pela televisão estatal.

A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), o exército ideológico do Irã, considerou a situação "inaceitável" e prometeu proteger a Revolução Islâmica. O judiciário advertiu na sexta-feira que a punição para os "manifestantes violentos" seria "máxima".

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Estes protestos são os maiores no Irã desde a morte de Mahsa Amini, em 2022, presa por violar o rígido código de vestimenta feminino no país. Os atos ocorrem em um momento em que o Irã está fragilizado após a guerra com Israel e os golpes sofridos por vários de seus aliados regionais, e depois que a ONU restabeleceu as sanções relacionadas ao programa nuclear iraniano em setembro.

Em uma declaração conjunta, a União Europeia, o Canadá e a Austrália elogiaram "a coragem do povo iraniano em defender sua dignidade e seu direito fundamental ao protesto pacífico". "Condenamos veementemente as mortes de manifestantes, o uso da violência, as prisões arbitrárias e as táticas de intimidação empregadas pelo regime iraniano contra seu próprio povo", acrescentaram.

Com informações da AFP

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