"Sejamos claros. Não quero nem censura, nem muito menos a dissolução. Minha luta é pela estabilidade e para conter a desordem", declarou o chefe de governo ao jornal francês Le Parisien.
Recentemente, o gabinete do premiê anunciou ter solicitado ao Ministério do Interior que se prepare para a possibilidade de realizar eleições legislativas nas mesmas datas das municipais, entre 15 e 22 de março, caso seu governo caia.
Ele enfrentará duas moções de censura na próxima semana, apresentadas pelo partido da esquerda radical França Insubmissa (LFI) e pela legenda de extrema direita Reunião Nacional (RN), ambos denunciando a "hipocrisia" da posição francesa sobre o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, além da postura delicada em relação às questões orçamentárias.
"Uma moção de censura enviaria um sinal dramático em um momento em que procuramos um compromisso, e uma mensagem ainda mais dramática dada a conjuntura política internacional", declarou o primeiro-ministro ao jornal, após ter denunciado "posturas partidárias cínicas" numa mensagem divulgada na sexta-feira.
La France a une position claire sur le Mercosur : nous voterons contre, sans surprise.
Déposer une motion de censure dans ce contexte, c'est choisir délibérément d'afficher des désaccords politiciens internes. C'est choisir d'affaiblir la voix de la France plutôt que de montrer…
— Sébastien Lecornu (@SebLecornu) January 9, 2026
As duas moções de censura serão analisadas pela Assembleia Nacional entre a próxima terça (13) e quarta-feira (14). Nas redes sociais, Lecornu criticou a atuação dos partidos Reunião Nacional e França Insubmissa, salientando que a França votou "contra" o acordo comercial da União Europeia com os países do Mercosul.
Segundo o Le Parisien, a decisão de Sébastien Lecornu de pedir ao Ministro do Interior, Laurent Nuñez, que preparasse novas eleições legislativas nas mesmas datas das eleições municipais foi tomada em segredo, durante um almoço privado no Palácio do Eliseu entre o primeiro-ministro e Emmanuel Macron, no início da semana passada.
Protestos e pacote de medidas
Um dos motivos da pressão sobre Sébastien Lecornu, a aprovaçao do acordo UE-Mercosul tem gerado protestos na França, obrigando o governo de Emmanuel Macron a reagir.
Na quinta-feira (8), um grupo de agricultores, acompanhados de cerca de 100 tratores, ocupou Paris, bloqueando ruas e avenidas centrais da capital, incluindo áreas próximas à Torre Eiffel e ao Arco do Triunfo.
Os protestos foram convocados pelo sindicato Coordenação Rural, que reivindicava mudanças na gestão da dermatose nodular contagiosa (DNC) bovina e se opõe ao acordo de livre-comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul.
Para apaziguar o setor agrícola do país, horas depois da aprovação do acordo comercial pelo Conselho Europeu, na sexta-feira (9), o governo francês anunciou um pacote de medidas.
Os maiores beneficiados serão os pecuaristas, atingidos atualmente por uma epidemia de dermatose bovina. A gestão da crise sanitária amplificou o movimento de protesto de agricultores.
A ministra francesa da pasta, Annie Genevard, anunciou € 300 milhões de apoio ao setor, incluindo a duplicação do fundo de compensação para dermatose bovina e outras medidas adotadas nas últimas semanas, relativas a fertilizantes e auxílio para os vinhedos.
RFI com agências