Como a figura de Maduro vai se apagando na nova Venezuela de Delcy Rodríguez: 'Não há intenção de manter viva sua memória'

Quase 10 meses depois da sua captura pelos EUA, o ex-presidente Nicolás Maduro está cada vez menos presente nos discursos e na agenda do governo venezuelano.

22 out 2026 - 09h49
Resumo
Após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, Delcy Rodríguez consolida seu poder na Venezuela ao estreitar relações com Donald Trump e apagar a imagem do antecessor. O novo governo promoveu expurgos de aliados de Maduro, removeu seus retratos e omitiu seu nome de discursos e fóruns internacionais. Sob o lema de renovação nacional, Rodríguez assume a chefia de Estado e reposiciona o regime chavista, apesar das divisões internas e da falta de previsão de eleições.
Simpatizante com cartaz com os desenhos de Nicolás Maduro e Cilia Flores
Simpatizante com cartaz com os desenhos de Nicolás Maduro e Cilia Flores
Foto: Jesus Vargas/Anadolu via Getty Images / BBC News Brasil

Nova York, 22 de setembro, hotel Lotte New York Palace.

Naquele dia, a cidade americana presenciou a cena que, provavelmente, melhor exemplifica as mudanças políticas vivenciadas pela Venezuela desde o dia 3 de janeiro de 2026.

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Seus protagonistas são Delcy Rodríguez, a presidente interina cada vez mais consolidada da Venezuela, e Donald Trump, mandatário dos Estados Unidos.

Após a reunião no famoso hotel de Manhattan, eles tiram uma foto sorrindo. Ela faz um sinal de V com os dedos e ele ergue seu polegar direito.

A apenas 14 km dali, em uma prisão do Brooklyn, está o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, capturado em Caracas em uma noite de janeiro, por ordem de Trump. Rodríguez foi sua forte aliada por anos.

No dia seguinte, Rodríguez discursa frente à Assembleia Geral das Nações Unidas, que convoca grande parte dos chefes de Estado do planeta. A última vez em que um presidente venezuelano compareceu ao evento ocorreu em 2018, durante o mandato de Maduro.

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Rodríguez não menciona o ex-presidente em nenhum momento do seu discurso. Nem ele, nem seu predecessor, Hugo Chávez (1954-2013), nem as circunstâncias que levaram a própria Rodríguez a ser porta-voz da Venezuela frente à Assembleia.

Em vez disso, ela se refere ao mandatário americano: "Quero agradecer ao presidente Trump pela sua disposição de tomar o caminho das relações diplomáticas e da cooperação."

Tudo isso ocorre quase 10 meses após a operação militar sem precedentes em solo venezuelano, na qual os Estados Unidos capturaram Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Ambos enfrentam julgamento, respondendo, entre outras, a acusações de narcotráfico e torturas.

O agradecimento a Donald Trump e a omissão de Nicolás Maduro evidenciam que o panorama político venezuelano, em certos aspectos, sofreu uma reviravolta completa.

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Governando o país como presidente interina, Rodríguez procedeu a inúmeras mudanças, tanto no seu gabinete (substituindo figuras associadas a Maduro por outras mais próximas a ela), quanto promovendo leis como a dos hidrocarbonetos, uma breve lei de anistia, o desbloqueio de parte dos meios digitais ou o mais recente e incomum acordo petrolífero com os Estados Unidos.

Outra dessas mudanças é que a figura de Maduro, sem desaparecer por completo, está se diluindo.

A foto do encontro entre Delcy Rodríguez e Donald Trump
Foto: X/DELCY RODRÍGUEZ / BBC News Brasil

De 'presidente em exercício' para 'presidente'

Nos seus primeiros discursos após a incursão americana em território venezuelano, Delcy Rodríguez citava constantemente o nome do ex-presidente Maduro e sua esposa, a ex-primeira-dama Cilia Flores.

"São dois heróis que temos como reféns nos Estados Unidos da América", chegou a dizer ela.

Mas, à medida que as relações entre os dois países foram se estreitando, estes nomes começaram a aparecer cada vez menos nos seus pronunciamentos.

A jornalista venezuelana Valentina Gil realizou um estudo detalhado para o portal TalCual, da Venezuela, nos meses que se seguiram ao 3 de janeiro. Seu objetivo era determinar quantas vezes Maduro aparecia nos discursos de Rodríguez.

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"Observamos que, toda vez que Delcy Rodríguez se reunia com algum alto funcionário dos Estados Unidos, ela deixava de mencionar Nicolás Maduro", segundo Gil, em entrevista à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

"Ela não dizia nada frente a frente com as pessoas que perpetraram aquele ataque", afirma ela.

A jornalista analisou vídeos que, até alguns meses atrás, estavam no canal do YouTube da TV estatal do país, a Venezolana de Televisión. Em janeiro, Rodríguez mencionou Maduro até 86 vezes, mas, em abril, o número havia caído para oito menções.

E, como destacou Gil em sua análise, Rodríguez não se referia a ele, nem à sua situação nos Estados Unidos, mas às "suas ações de governo ou à sua relação profissional com ele".

Os vídeos, segundo Gil, não estão mais disponíveis.

A tendência de não mencionar Nicolás Maduro se consolidou após os terremotos ocorridos na Venezuela no dia 24 de junho.

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Outros gestos se seguiram. Aqui está um exemplo de como a sutileza linguística vem tomando conta da realidade política da Venezuela.

Quando Delcy Rodríguez tomou posse, ela declarou que chegava "como vice-presidente executiva do presidente Nicolás Maduro Moros". E, desde então, ela se denominou "presidente em exercício", como é mencionado nos seus perfis nas redes sociais e nos seus comunicados à imprensa.

Mas, há pouco mais de um mês, em dezenas de comunicações oficiais, já se faz referência a ela como "presidente", "mandatária nacional" ou "chefe de Estado". Rodríguez só foi indicada como "em exercício" em duas ocasiões.

"O terremoto ajudou a diluir a figura de Maduro, no sentido de que ela não está mais nas preocupações das pessoas", afirma o analista Phil Gunson, do International Crisis Group para a região dos Andes, em entrevista à BBC.

"Existem outras coisas mais importantes para se preocupar", explica ele. "Sem falar nas dificuldades do dia a dia do país, que não melhoraram em nada no setor econômico, e as pessoas observam que nada está avançando."

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Delcy Rodríguez não mencionou Nicolás Maduro durante seu discurso na ONU
Foto: Michael M. Santiago/Getty Images / BBC News Brasil

"Não se percebe intenção ativa de manter viva a memória de Maduro e Cilia Flores", afirma Gunson. "E, quando eles se referem às relações com os Estados Unidos, sempre o fazem em termos positivos."

Os Estados Unidos apresentaram recentemente novas acusações de tortura contra Maduro e Flores. O governo venezuelano não se pronunciou publicamente em defesa do ex-mandatário.

Gunson destaca que eles não estão totalmente esquecidos, mas existem outros gestos além dos discursos.

Recentemente, por exemplo, foi retirada uma fotografia gigante de Maduro e Cilia Flores, que havia em frente a um conhecido centro comercial de Caracas. O mesmo está ocorrendo no interior de algumas instituições e outros símbolos também estão sendo retirados.

Na sede do Palácio da Justiça, um enorme complexo de concreto no centro de Caracas, dois cartazes gigantes decoraram por anos as imensas torres em dois dos seus lados. Um deles mostrava Hugo Chávez e o outro, a imagem em 3D de Simón Bolívar (1783-1830), recriada pelo seu governo.

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Agora, existem dois novos cartazes com o slogan do momento, "A Venezuela renasce".

Letreiro em um edifício com os dizeres 'A Venezuela renasce'
Foto: Diko Betancourt/Anadolu via Getty Images / BBC News Brasil

"O terremoto se transformou em uma oportunidade muito visível para reinventar a imagem pública do governo a partir desse slogan", explica à BBC News Mundo a professora de Estudos Latino-americanos Irina Troconis, da Universidade Cornell, em Nova York, nos Estados Unidos.

Troconis é autora do livro The Necromantic State ("O Estado necromântico", em tradução livre), que trata exatamente do uso das imagens e da propaganda durante o regime chavista, estabelecido em 1999.

A professora explica que a medida faz "parte muito lógica dentro de uma maquinaria que operou por vários anos na Venezuela: a de mudar a fachada ou a imagem pública como forma de também enviar simultaneamente a mensagem de que as coisas estão mudando e são diferentes".

Troconis também comenta a mudança de nomenclatura de Delcy Rodríguez nas comunicações oficiais, de presidente em exercício para presidente.

"É o que também está se antecipando. É uma forma de ir, pouco a pouco, apagando do discurso a necessidade de eleições."

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Durante seu discurso frente à Assembleia Geral da ONU, Rodríguez declarou que "na Venezuela, haverá eleições", sem especificar quando nem sob quais circunstâncias. Ela disse apenas que, quando as eleições ocorrerem, serão garantidas "condições reais de participação para todas as forças políticas".

Os Estados Unidos também não têm pressa para realizar eleições na Venezuela, apesar das queixas de muitos venezuelanos que veem o mandato de Rodríguez como ilegítimo.

Purga e caras 'novas'

A professora de política Maryhen Jiménez, da Universidade Nacional da Irlanda Maynooth, explica que, "desde o dia 3 de janeiro e com a captura de Maduro, a Venezuela se transformou em algumas dimensões da propaganda política e a eliminação de fotos, menções ou outdoors é uma realidade".

Aliado a isso, "existe uma transformação em andamento e o relançamento de quadros vinculados a Delcy Rodríguez", afirma ela.

Neste sentido, surgem alguns rostos novos e outros que, na verdade, não são tão novos assim. Como Héctor Rodríguez, ministro da Educação desde 27 de agosto; Daniela Cabello, filha de Diosdado Cabello, ministra do Turismo; ou Miguel Pérez Pirela, conhecido comunicador e fundador de programas aliados ao chavismo.

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E também significa a eliminação dos rostos mais relacionados a Nicolás Maduro. Uma das figuras mais destacadas é Alex Saab, que os Estados Unidos indicam como testa de ferro do ex-presidente.

Saab era ministro da Indústria e Rodríguez o afastou do cargo após o dia 3 de janeiro. Ele foi detido em uma operação conjunta entre os dois países e, em maio, foi deportado da Venezuela para os Estados Unidos. Ali, ele recentemente se declarou culpado pelo crime de lavagem de dinheiro.

Alex Saab e Nicolás Maduro.
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

Também se destaca a destituição de Vladimir Padrino López como ministro da Defesa, após ocupar a pasta por 12 anos. Atualmente, ele ocupa o Ministério da Agricultura.

Além de Padrino López, toda a cúpula da Força Armada Nacional Bolivariana foi substituída.

Tarek William Saab, acusado de violações dos direitos humanos por diversas organizações, deixou seu cargo de procurador-geral e Laura Guerra, ex-cunhada de Maduro, abandonou a presidência do Banco Central da Venezuela.

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"É uma nova coalizão que quer se apresentar como nova, mas são os mesmos atores, existe apenas uma reacomodação interna", explica Maryhen Jiménez.

"Estão havendo expurgos daqueles que não farão parte desta nova etapa e distanciamento de chavistas tradicionais, que consideram que o chavismo está se isolando das suas origens ideológicas."

"A grande pergunta é se esta aposta de lançar um chavismo 3.0 tem capacidade de se conectar com a sociedade venezuelana", ressalta ela.

'Presidente Maduro'

Existem algumas vozes dentro do chavismo que continuam mencionando o nome de Maduro.

Valentina Gil destaca que o ministro do Interior e Justiça, Diosdado Cabello, é um dos que o mencionam constantemente no seu programa de televisão Con el Mazo Dando ("Batendo com o martelo" — expressão que, em espanhol, significa "trabalho duro").

"E se refere a ele como presidente", afirma Gil.

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Também o governador do Estado fronteiriço de Táchira, Freddy Bernal, denunciou em junho a eliminação das fotos de Maduro e Chávez em algumas instâncias de governo.

Fora da cúpula de poder, outras figuras antigas do chavismo criticam o esquecimento e a situação atual entre a Venezuela e os Estados Unidos.

É o caso de Elías Jaua, ex-ministro de Hugo Chávez durante anos e também com Maduro; Iris Varela, figura relevante junto aos dois ex-presidentes; e do comunicador Mario Silva.

E, nas manifestações de chavistas, muitos recordam aquele que ainda consideram seu presidente e reivindicam seu retorno à Venezuela.

Uma figura interessante é o filho de Maduro, o parlamentar governista Nicolás Maduro Guerra. Ele combina o pedido de liberdade para o pai ao seu apoio a Delcy Rodríguez.

"Sabemos que Nicolás Maduro e Cilia Flores sairão, mais cedo ou mais tarde, pela diplomacia e pelo diálogo", declarou ele.

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Simpatizante do governo venezuelano, com bonecos de Nicolás Maduro e Cilia Flores como super-heróis.
Foto: Jesus Vargas/Anadolu via Getty Images / BBC News Brasil

Irina Troconis e Maryhen Jiménez concordam que existe uma tentativa de apagar o nome do ex-presidente, mas ambas destacam que é impossível fazê-lo por completo.

"O que fazer com a figura de Maduro e como lidar com ela também é um desafio para outros atores", destaca Jiménez. "Observamos como ele continua sendo utilizado no discurso público nos Estados Unidos e setores da oposição venezuelana ainda o mencionam."

Maduro "é uma figura importante na história venezuelana", segundo ela. "Basicamente, ele liderou o processo de autocratização e esteve à frente do governo em momentos muito obscuros."

Troconis explica que, neste momento, "a Venezuela representa, para o governo dos Estados Unidos, o único triunfo, entre aspas, que pode ser citado como referência".

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"Maduro representa o único inimigo que se conseguiu capturar", segundo ela. E, paralelamente, ele é "esse recipiente vazio ao qual se atribui toda a culpa pela deterioração na Venezuela".

Para Troconis, Maduro "é necessário tanto para o governo dos Estados Unidos, para manter uma imagem de ter conseguido algo neste discurso de guerra, quanto para o da Venezuela, para mostrar que ocorreu uma mudança".

Delcy Rodríguez pode não ter mencionado Maduro nem ao menos uma vez no seu discurso na ONU, mas Trump dedicou a ele parte do seu pronunciamento, ao lado da mandatária interina.

"É um gesto de poder, de domínio, de recordação", conclui Troconis.

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