Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York
Netanyahu chegou aos Estados Unidos na noite de terça-feira (10) e deve se reunir com o presidente americano no final da manhã. Antes, ele conversa com o Secretário de Estado, Marco Rubio. Segundo fontes israelenses, o governo de Israel já prepara cenários alternativos caso as negociações entre os Estados Unidos e o Irã fracassem, incluindo opções militares.
Antes de embarcar para Washington, Netanyahu deixou claro que o Irã é a prioridade absoluta da agenda. "Nesta viagem, vamos discutir uma série de questões, como Gaza e a situação regional, mas, acima de tudo, as negociações com o Irã", afirmou. Segundo ele, Israel pretende apresentar ao presidente americano princípios considerados essenciais para qualquer acordo. "Princípios que, aos nossos olhos, são vitais não apenas para a segurança de Israel, mas para todos aqueles que desejam paz e estabilidade no Oriente Médio", disse.
A reunião acontece após semanas de intensa articulação diplomática e militar entre Washington e Jerusalém. No último mês, o chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel e o diretor de Inteligência Militar visitaram o Pentágono. Mais recentemente, assessores diretos da Casa Branca se encontraram com Netanyahu em Jerusalém.
Ao mesmo tempo, Estados Unidos e Irã retomaram negociações indiretas em Omã na semana passada. Segundo analistas, as conversas terminaram sem avanços concretos sobre o programa nuclear iraniano, o que aumentou a pressão sobre a estratégia americana na região.
De acordo com a CNN, Israel vê com ceticismo essas negociações e busca garantir dois pontos centrais: a proteção de seus interesses estratégicos e a preservação da liberdade de ação militar caso um eventual acordo não funcione.
Netanyahu deve apresentar a Trump novas informações de inteligência sobre as capacidades militares do Irã. Autoridades israelenses afirmam estar preocupadas com a reconstrução acelerada do arsenal de mísseis balísticos iranianos e avaliam que, sem medidas concretas, Teerã poderia voltar a ter entre 1.800 e 2.000 mísseis em questão de semanas ou meses.
Israel pressiona para que qualquer acordo inclua exigências mais amplas do que o tema nuclear, como o fim do enriquecimento de urânio, a eliminação dos estoques já existentes, limites ao programa de mísseis balísticos e o encerramento do apoio iraniano a grupos aliados na região. O Irã, por sua vez, insiste que está disposto a negociar apenas o dossiê nuclear.
Nos últimos dias, Trump sinalizou que pode aceitar um acordo mais restrito. Questionado a bordo do Air Force One se um pacto limitado ao tema nuclear seria aceitável, respondeu que sim, desde que fique claro "desde o início" que o Irã não poderá ter armas nucleares.
A Cisjordânia também deve ocupar espaço relevante na conversa. Trump afirmou ao site Axios que se opõe a qualquer tentativa de anexação israelense do território palestino. "Temos coisas suficientes para pensar agora. Não precisamos lidar com a Cisjordânia", disse.
O futuro de Gaza em segundo plano
Paralelamente, Washington trabalha em um plano para o pós-guerra em Gaza. Segundo o The New York Times, enviados americanos estudam uma desmilitarização gradual do Hamas, permitindo que o grupo mantenha apenas armas leves enquanto entrega mísseis e armamentos de maior alcance.
A proposta faz parte de um plano mais amplo dos Estados Unidos para estabilizar Gaza, avançar na reconstrução e transferir a administração do território para um comitê palestino tecnocrata.
Israel adota uma posição mais dura. Netanyahu deve dizer a Trump que a segunda fase do cessar-fogo não avançou e que, sem o desarmamento completo do Hamas, não haverá reconstrução nem retirada das tropas israelenses. Autoridades israelenses afirmam ainda que uma nova operação militar pode ser necessária para viabilizar a visão americana para Gaza e para a região.
Além da agenda diplomática, a visita tem forte peso político interno para Netanyahu. O primeiro-ministro enfrenta eleições ainda este ano e aposta na imagem de líder com acesso direto à Casa Branca. Aliados e analistas avaliam que a relação pessoal com Trump será um dos principais eixos da campanha, reforçando a narrativa de que apenas ele consegue influenciar decisões estratégicas dos Estados Unidos.
A antecipação da viagem também permite que Netanyahu evite o lançamento oficial do Board of Peace, marcado para o dia 19. A iniciativa do governo Trump inclui países como Turquia e Catar, atores que Israel não quer ver envolvidos no futuro político e na reconstrução de Gaza. Assim, a reunião em Washington funciona tanto como um movimento diplomático estratégico quanto como uma vitrine política doméstica para o líder israelense.