Aurore Lartigue, da RFI em Paris
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, sob crescente pressão após a demissão de dois aliados próximos envolvidos no escândalo Epstein-Mandelson, descarta, por ora, renunciar, segundo afirmou um porta-voz de Downing Street.
O líder trabalhista, já impopular, enfrenta uma crise inédita de confiança e autoridade por ter nomeado, em 2024, Peter Mandelson como embaixador nos Estados Unidos, apesar de conhecer os vínculos do diplomata com o criminoso sexual Jeffrey Epstein. O diretor de comunicação do premiê britânico, Tim Allan, anunciou nesta segunda-feira (9) que deixará o cargo para permitir "a formação de uma nova equipe" em Downing Street. A saída do governo de Tim Allan acontece um dia depois da renúncia do chefe de gabinete de Starmer, Morgan McSweeney.
Além dessas consequências políticas concretas, Frédérique Sandretto observa que a publicação massiva de documentos pelo governo americano também reacendeu com força o universo das teorias da conspiração. Segundo a especialista, essa transparência total, que deveria teoricamente dissipar dúvidas, acabou produzindo o efeito inverso.
Transparência
A professora de Civilização Americana da Sciences Po (o Instituto de Ciências Políticas de Paris) explica que a divulgação dos arquivos era algo amplamente esperado. Donald Trump havia anunciado essa iniciativa diversas vezes, mas sempre recuava, o que alimentava teorias conspiratórias sugerindo que havia algo a esconder.
A adoção do Transparency Act em 2025, após um consenso raro entre democratas e republicanos, abriu enfim caminho para a publicação de mais de 3 milhões de documentos. No entanto, Sandretto ressalta que o volume é tão gigantesco que o público não sabe nem por onde começar. A sensação de ter acesso a informações desclassificadas é real, mas a falta de orientação sobre como interpretar esse material bruto cria uma zona fértil para interpretações distorcidas.
"Pizzagate"
Esse fenômeno ficou particularmente evidente nas redes sociais, onde antigas teorias conspiratórias renasceram, como o pizzagate. A associação com essa fake news, difundida na época da campanha presidencial de Hillary Clinton, surgiu porque, nos documentos divulgados, a palavra "pizza" aparece 911 vezes. Isso levou muitos internautas a pensar imediatamente em um "código oculto".
Em plataformas como Reddit, termos que nada têm a ver com os crimes de Epstein voltaram a ser associados a narrativas falsas sobre redes de exploração sexual organizadas pelas elites. Para Sandretto, basta a presença de um elemento inesperado, como essas menções a "pizza", para reativar teorias surgidas há quase uma década.
A professora destaca que o caso Epstein, por sua natureza, já reúne todos os ingredientes que alimentam o imaginário conspiracionista. A morte do financista é considerada suspeita por muitas pessoas, assim como as ligações dele com figuras poderosas das big techs americanas, como Bill Gates, da política europeia e da aristocracia britânica. O fato de as vítimas serem frequentemente jovens e vulneráveis também alimenta as teorias da conspiração.
Oposição entre elite e povo
O enredo parece pronto para sustentar a ideia de uma elite transnacional conspirando contra o restante da população. Elementos clássicos do conspiracionismo, como a crença em um "Estado paralelo", a oposição entre elites e povo, e até teorias antissemitas, encontram terreno fértil nesse contexto. Circularam, por exemplo, versões afirmando que Epstein teria sido agente do Mossad.
Segundo Sandretto, a desclassificação massiva reforça a impressão de uma teia de relações sem fim, com novos nomes surgindo diariamente, o que turbina ainda mais a imaginação conspiratória coletiva. Ela argumenta que a decisão de divulgar tudo sem filtro ou contextualização pode ter sido contraproducente.
Embora a transparência seja bem-vinda, qualquer pessoa agora pode acessar os arquivos, encontrar referências soltas e associá-las a Epstein sem critério. Isso pode gerar confusões graves, especialmente porque alguns trechos são censurados, o que é suficiente para desencadear novas teorias afirmando que "estão escondendo algo".
Para a especialista, essa fronteira entre transparência e interpretação conspiratória é tênue. Todos querem informação, mas há igualmente a necessidade de prudência, pois a ausência de triagem transforma o público em investigadores improvisados, gerando um risco real em tempos de desinformação.
Apesar de a intenção declarada do governo americano com a divulgação ser "encerrar o caso", Sandretto acredita que o efeito será o oposto. De acordo com a professora, esta é apenas a primeira etapa de um processo mais longo. O público está convencido de que, em meio a milhões de documentos, é impossível que não haja uma revelação bombástica escondida.
Frdérique Sandretto considera provável que muitos nomes ainda venham à tona e que novas interpretações - corretas ou não - surjam à medida que o material for examinado. A professora acredita que estamos apenas diante da ponta do iceberg.