Melissa Barra, da RFI em Paris
Com voz robótica e pele azul, Gaitana IA concorre simultaneamente ao Senado e à Câmara de Representantes, na Circunscrição Especial Indígena. Seu criador, Carlos Redondo, explicou à RFI como surgiu o projeto da candidata Gaitana.
"Nas nossas comunidades, o ego do líder, do personagem, não existe. Cacique é o ancião que vai de casa em casa, de família em família, buscando consenso, buscando colocar as pessoas de acordo. Começamos a estudar toda essa nossa cosmovisão. O único passo que faltava era digitalizá-la", conta Redondo.
Registrar uma IA como candidata não é legal na Colômbia. Por isso, o Conselho Nacional Eleitoral autorizou que Redondo e outro representante humano ocupem os assentos e repitam as decisões de consenso geradas por Gaitana.
Redondo explica que a plataforma é participativa. Os usuários enviam temas, a IA os sintetiza e, em seguida, coleta as opiniões de todos. Com base na maioria, ela toma uma decisão e da mesma forma atuará ao votar projetos de lei, caso seja eleita.
"Se há um projeto de lei, a Gaitana compartilha, reduz o conteúdo. Se for uma lei de 200 páginas, ela reduz a cinco infográficos, compartilha com toda a comunidade de Gaitana - que hoje já reúne mais de 10 mil integrantes, entre indígenas e afrodescendentes - e essas pessoas começam a opinar", detalha. O criador acrescenta que a IA contabiliza as opiniões e o lado que tiver 50% mais um alcança consenso.
Proposta antisistema
Mas o que aconteceria se a maioria dos usuários decidisse boicotar? "Se o próprio consenso decidir que sim, que é o correto, nós, como legisladores, teremos que respeitar. É possível que isso aconteça, embora precise ser uma maioria bastante significativa - seriam necessárias cerca de 6 mil pessoas tentando sabotar Gaitana para que isso ocorresse", responde seu criador.
Com apenas três pequenos servidores, Redondo afirma que o impacto ambiental da IA será mínimo. Ele reconhece que a tecnologia ainda é limitada em termos de segurança de dados e na capacidade de lidar com um grande volume de opiniões divergentes. Segundo ele, o projeto é, sobretudo, uma proposta antisistema.
"Nós analisamos, nos últimos quatro anos, todos os projetos de lei apresentados na Colômbia, e os mais escandalosos são homenagens à arepa com ovo [,um prato típico da culinária colombiana]. É uma vergonha a maneira como essas pessoas legislavam. Então, está bem: desumanizar isso e começar a humanizar com dados. Dentro da unidade de trabalho de um congressista, há uma equipe inteira que Gaitana não precisará, e já colocamos nos estatutos que ela renuncia a todos esses benefícios", afirma Redondo.
Ainda é difícil medir o alcance da iniciativa, muito apoiada por jovens. Pesquisas indicam que apenas um terço dos eleitores com menos de 24 anos pretende votar.