Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
Depois de 10 horas de debate, a Câmara de Deputados da Argentina aprovou a reforma trabalhista com 135 votos, seis a mais do que o mínimo necessário.
"Histórico. A Argentina será grande novamente", celebrou Milei numa postagem feita de Washington, onde participou da reunião do Conselho da Paz, de Donald Trump.
"A aprovação desta lei significa a criação de trabalho com carteira assinada, menor formalidade, normas trabalhistas adaptadas ao século XXI, menos burocracia, maior dinamismo nas relações de trabalho e o mais importante de tudo: o fim da 'indústria de processos trabalhistas'", destacou, em nota, o Executivo argentino.
É a primeira vez desde 1943, quando Juan Domingo Perón tornou-se secretário do Trabalho e, posteriormente, presidente da República, que as regras trabalhistas são alteradas por um governo não-peronista.
"É a primeira vez que o trabalhador não está no centro da cena, sendo substituído pela empresa. Esse texto revoga a lei de teletrabalho, não menciona a tecnologia nem a robótica (IA), diminui direitos, dissolve indenizações, limita o direito à greve e restringe a militância do representante sindical", indica à RFI Jorge Sola, secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT).
Choque de visões
A jornada foi tensa também do lado de fora do Congresso. Manifestantes lançaram paus e pedras na polícia que respondeu com jatos de água e gás lacrimogêneo. No total, 16 pessoas foram presas.
Em protesto contra a reforma, uma greve geral de 24 horas paralisou o país. Das quatro greves contra o governo Milei, esta foi a de maior adesão. Ônibus, metrôs, e trens não circularam. A paralisação também atingiu o transporte aéreo. Servidores do Estado, bancários e outros 11 sindicatos cruzaram os braços.
Para conter os ânimos e garantir uma aprovação na Câmara, o governo eliminou o principal ponto de discórdia: o artigo sobre alterações nas licenças médicas. No texto original, as remunerações mensais nas licenças seriam reduzidas em casos de afastamento devido a doenças. Dos atuais 100% , o trabalhador afastado receberia 75% ou mesmo 50% de seu salário, dependendo do motivo da doença.
Mas foi aprovada a criação de um fundo que financia os empregadores na hora de indenizar os demitidos. Esse fundo receberá contribuições patronais que atualmente são destinadas à Previdência. Ou seja: os empregadores terão financiamento para demitir, enquanto a Previdência se desfinancia.
Mudanças nos direitos trabalhistas
O cálculo para a rescisão trabalhista em casos de demissão foi reduzido ao não ser mais considerado o décimo-terceiro salário, as férias e os prêmios.
As jornadas de trabalho podem-se estender por até 12 horas diárias.
As horas extras podem ser compensadas com folgas e não mais com dinheiro.
As férias poderão ser fracionadas com um mínimo de sete dias.
Alguns setores, como a Educação, passam a ser considerados essenciais e, por isso, a ter restrições no direito de greve.
Por tudo isso, especialistas advertem sobre o risco de que, pelo menos num primeiro momento, o mercado de trabalho argentino possa enfrentar uma onda de demissões. Segundo eles, passará a ser mais fácil e mais barato demitir para depois contratar com as novas regras, caso a economia e o consumo voltem a crescer.
O governo intitula a reforma como "lei de modernização trabalhista". Os sindicalistas veem um "retrocesso" e prometem denunciá-la na Justiça como "inconstitucional".