Por que as chances de Musk conseguir fundar terceira via na política americana são remotas

O bilionário Elon Musk anunciou esta semana a criação do "Partido da América", com a meta de transcender o sistema bipartidário que estrutura a vida política americana há mais de dois séculos. Entretanto, as chances de sucesso da sigla como uma terceira via são rasas, na opinião de Frédérique Sandretto, professora de civilização americana do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po Paris).

10 jul 2025 - 12h05

O bilionário Elon Musk anunciou esta semana a criação do "Partido da América", com a meta de transcender o sistema bipartidário que estrutura a vida política americana há mais de dois séculos. Entretanto, as chances de sucesso da sigla como uma terceira via são rasas, na opinião de Frédérique Sandretto, professora de civilização americana do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po Paris).

No último dia 7, Elon Musk anunciou o lançamento do Partido da América. (07/07/2025)
No último dia 7, Elon Musk anunciou o lançamento do Partido da América. (07/07/2025)
Foto: REUTERS - Dado Ruvic / RFI

Em entrevista à RFI, a pesquisadora analisou as perspectivas diante do novo partido do empresário. Antes de Musk, outros afortunados já tentaram, sem sucesso, romper com a hegemonia de republicanos e democratas no cenário eleitoral dos Estados Unidos.

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RFI: Com a criação do seu Partido da América, Elon Musk afirma querer romper com o sistema bipartidário americano. Mas antes dele, outros já fizeram essa tentativa no passado. Quais foram os principais?

Frédérique Sandretto: Historicamente, o primeiro a tentar foi Theodore Roosevelt, membro do Partido Republicano durante seus dois mandatos [de 1901 a 1909], que tentou lançar o que chamou de Partido Progressista em 1912. De fato, foi um fiasco total. Nem todos se uniram a ele, e ele ainda privou o titular republicano William Howard Taft de uma parte dos votos, e o candidato do Partido Democrata, Woodrow Wilson, acabou eleito.

Depois, houve o bilionário texano Ross Perot nas eleições de 1992. Ele era um pouco como Musk, na realidade. Quase dá para traçar um paralelo: ele era um empresário com muito dinheiro, o que é essencial para vencer uma eleição americana, e queria conquistar um novo eleitorado com uma mensagem anti-establishment. Mas não funcionou, já que o democrata Bill Clinton venceu.

Depois houve outras tentativas: ambientalistas como Ralph Nader em 2000, 2004 e 2008, Jill Stein em 2012, 2016 e 2024, e houve Gary Johnson, do Partido Libertário.

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Eu diria que a candidatura que mais poderia ter funcionado foi a de Ross Perot, que obteve quase 20% dos votos. O que podemos dizer é que acabou custando ao então titular George H. Bush um grande número de votos, e ele não foi reeleito. E o novo partido em si também não funcionou.

RFI: Por que as tentativas de criar uma terceira via política nos Estados Unidos fracassam sistematicamente?

FS: Pode-se perguntar como é possível que, em um país que se afirma como o mais democrático do mundo, existam apenas dois partidos com espaço para existir? O bipartidarismo não está previsto na Constituição americana. Por outro lado, ele realmente surgiu nas décadas seguintes à independência dos Estados Unidos, em 1776, quando havia dois grandes partidos políticos.

Então, acredito que esteja verdadeiramente enraizado na cultura americana. E o presidente George Washington, em 1790, manteve essas duas correntes políticas: o Partido Federalista e o Partido Democrata-Republicano. Em 1860, testemunhamos o surgimento do sistema bipartidário como o conhecemos hoje, entre os republicanos e os democratas - e assim permaneceu desde então.

Isso também pode ser explicado pela forma como o sistema eleitoral funciona, com o turno único em que "o vencedor leva tudo". Isso significa que, estatisticamente, partidos pequenos certamente perderão. Além disso, há a questão do financiamento. É preciso muito dinheiro para lançar um partido; não se pode fazer isso apenas com base em ideias políticas: precisa de financiamento.

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RFI: Musk tem mais chances de sucesso do que os anteriores?

FS: Quando ouvi o anúncio, vi como uma briga de egos. Musk apoiou Trump, ele foi seu primeiro doador privado, Trump o nomeou para o DOGE, o Ministério da Eficiência. Agora, Musk quer provar que pode enfrentar Trump lançando seu próprio partido.

Mas, quando você olha para os discursos de Musk, tem a impressão de que o Partido da América é um partido de oposição e reação às políticas de Trump. Seu discurso se concentra exclusivamente na economia, na rejeição do orçamento de Trump, que ele chama de "abominação repugnante".

Ele fala muito sobre "liberdade", uma palavra forte nos Estados Unidos. Mas de que liberdade ele está falando? Liberdade econômica? Liberdade de dívida? Permanece vago. Não há nenhuma indicação sobre educação, política internacional e diplomática, ou questões sociais americanas. Não aparece no discurso, ou pelo menos não ainda. Então, eu realmente tenho a impressão de que não há ideologia por trás disso.

E depois, quem vai se juntar à causa de Elon Musk? Senadores republicanos como Rand Paul, Mike Lee e Ron Johnson foram citados, mas isso não seria suficiente. Quem votaria nele? Republicanos decepcionados? Tecnocratas? Seu eleitorado é muito incerto, e seu índice de popularidade está bem baixo depois de sua mudança para o DOGE, então não tenho certeza de que ele tem tantos apoiadores.

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Além disso, em termos de timing, esse tipo de tentativa tem mais probabilidade de dar certo quando há uma eleição, e isso ainda está bem distante, já que estamos nos encaminhando para as eleições de meio de mandato em 2026.

RFI: Você parece ser cética quanto a ele poder representar uma terceira via na política do país.

FS: Com certeza, embora eu ache que seria bom politicamente. Acho que talvez seja hora de os Estados Unidos terem mais diversidade em seus partidos políticos. Porém, infelizmente, não vejo como esse terceiro partido pode sobreviver, mesmo que a ideia seja boa.

Podemos gostar dele ou não, não importa, mas ele é um visionário. Então, por que não entrar na política? Embora o próprio Musk não possa ser candidato, já que nasceu na África do Sul e, portanto, não é elegível.

Mas seja como for, não tenho certeza se este é um projeto viável a longo prazo e tenho a impressão de que estamos testemunhando o confronto de dois homens através das leis, através da criação deste partido. Isso vai muito longe. A política está sendo refém de questões de personalidades.

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Entrevista de Aurore Lartigue, da RFI

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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