Adriana Moysés, da RFI
Na avaliação de Malamud, a intervenção dos EUA em Caracas foi "uma decapitação do regime" e pode anteceder um conflito "mais ao centro da geopolítica", envolvendo a Groenlândia, que é um território autônomo do Reino da Dinamarca.
RFI - O governo Trump instalou um protetorado na Venezuela ao fazer a presidente interina Delcy Rodríguez aceitar que a receita do petróleo fique sob controle de Washington para compras de produtos americanos?
Andrés Malamud - É verdade. Não houve invasão; houve uma decapitação do regime, mantendo o aparelho. Delcy Rodríguez passou de vice a presidente e prometeu cumprir acordos, ao contrário de Maduro. Resta ver o papel dos militares (como os ministros do Interior, Diosdado Cabello, e das Forças Armadas, Vladimir Padrino). Por enquanto, o governo da Venezuela prometeu fazer o que os Estados Unidos pediram e, portanto, podemos dizer que passou de ditadura para protetorado, sem deixar de ser ditadura.
RFI - Ao focar no ganho econômico, Trump dá satisfação ao eleitorado MAGA (Make America Great Again), que rejeita operações externas?
Andrés Malamud - Parcialmente. A satisfação que ele dá é não ficar na Venezuela e fazer uma operação de extração encoberta por um procedimento judicial. O governo americano alega que foi um juiz de Nova York que pediu a captura de Maduro, como narcotraficante, e então os militares forneceram logística para um funcionário do FBI entrar no lugar onde Maduro estava refugiado, ler os seus direitos e capturá-lo. O MAGA tem sempre uma preocupação moral muito forte, que Trump não tem quando diz 'petróleo, petróleo, petróleo'. A prova que o movimento MAGA não ficou satisfeio é que seu líder, o vice-presidente JD Vance, não participou do planejamento da operação nem da conferência de imprensa posterior. Esta operação foi arquitetada pelo Marco Rubio, secretário de Estado, que não é MAGA, não é isolacionista. Rubio é um intervencionista neoconservador clássico, como o ex-presidente Bush. Pete Hegseth, secretário de Guerra, embora tenha perfil America First e relutante a intervir, admite operações contra inimigos como o Irã ou regimes comunistas. Para Marco Rubio, o próximo objetivo é uma mudança de regime em Cuba. Para Trump, o objetivo seria petróleo e interesses materiais. Na Venezuela, a desculpa de intervenção foi a droga, mas no fundo, o único fio condutor de todas estas tribos do governo americano é geopolítica: mandar a China, a Rússia e Cuba para fora da Venezuela.
RFI - Rubio disse que o regime de Cuba cairia sozinho. Pode-se descartar algum tipo de operação mais truculenta contra a ilha?
Andrés Malamud - Os Estados Unidos, sobretudo Trump, utilizam ambiguidade como instrumento. A mudança de regime de Cuba é um objetivo histórico dos EUA e também há dinheiro a fazer na ilha, como os americanos faziam antes da revolução comunista, com cassinos, praias e resorts. O regime de Cuba está muito fragilizado e sem o petróleo da Venezuela dificilmente conseguirá resistir.
RFI - Qual seria o próximo alvo?
Andrés Malamud - Provavelmente, o alvo seguinte é a Groenlândia. A ilha é território do Reino da Dinamarca; não integra a União Europeia, mas a Dinamarca pertence à OTAN. O que muitos veem como conflito periférico na Venezuela pode ser ensaio para algo maior e central na geopolítica: os Estados Unidos atacarem um aliado da OTAN.
RFI - Ao não impor uma relação de força contra Trump, os europeus contribuem para a implosão da OTAN?
Andrés Malamud - Os europeus estão em negação: dependem dos EUA para logística e tecnologia de defesa. Sem os EUA, não há defesa europeia. Agora, o problema é que precisam defender-se dos EUA. A analista italiana Nathalie Tocci diz que a Europa não foi abandonada, mas traída: os EUA não deixaram a Europa sozinha, estão contra ela. A Europa está cercada pela Rússia, que invade, pelos Estados Unidos, que tarifam e podem invadir. A China, ironicamente, é a única grande potência que não tem interesse em destruir a integração europeia.
RFI - Como reagem Rússia e China diante desse avanço de Trump?
Andrés Malamud - Na América Latina, o hemisfério ocidental, como os norte-americanos chamam, a China é reativa - faz aquilo que os EUA permitem fazer. Ela não avança contra os interesses norte-americanos. Mas na sua região, a China é proativa - Taiwan será decidido pela China, no seu tempo. No caso da Rússia, há suspeita de que tenha colaborado com os EUA na Venezuela, porque os EUA colaboram com a Rússia na Ucrânia.
RFI - A assinatura iminente do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul muda alguma coisa nesse cenário?
Andrés Malamud - Muito pouco, mas é melhor que nada. Em um mundo de potências lideradas por grandes homens, países pequenos e organizações regionais são frágeis. Por isso, a unidade, a união faz a força. A União Europeia e o Mercosul juntos terão mais capacidade de reclamar protagonismo econômico, para defender-se de tarifas, não de invasões.
RFI - O Brasil poderia ter feito algo para evitar o que aconteceu na Venezuela?
Andrés Malamud - Sim, mas muito antes. O que o Brasil não fez durante muitos anos é o que sofre agora. Tucídides, autor da obra 'História da Guerra do Peloponeso', dizia que nas relações internacionais, os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem. O Brasil não interveio quando China, Rússia, Irã e Cuba já intervinham na Venezuela. Agora, com a intervenção dos EUA, o Brasil já não tem força para resistir.