Elianah Jorge, correspondente da RFI no Rio de Janeiro
O Brasil é o quarto destino escolhido pela diáspora venezuelana. Ano passado, foram mais de 19 mil pedidos de refúgio de venezuelanos em território brasileiro.
Em 2016 William Clavijo foi de férias ao Rio de Janeiro. Antes de voltar, soube que colegas e membros da força política da qual participava foram presos por ordens do regime de Nicolás Maduro. Ele é uma das vozes ativas da comunidade venezuelana no Brasil.
"Os anúncios de Delcy Rodríguez e Jorge Rodríguez [presidente da Assembleia Nacional] não respondem a um ato de vontade própria. Nós conhecemos muito bem quem são essas duas pessoas e a proximidade que tinham com Nicolás Maduro, e a relação que têm com a Comissão de Crimes da Lesa Humanidade, a violação dos direitos políticos dos venezuelanos e a violação dos direitos civis em geral", observa.
A advogada Delcy Rodríguez, de 56 anos, assumiu a presidência interina da Venezuela apesar de estar sancionada pelos Estados Unidos e pela União Europeia. Em sua gestão como ministra de Hidrocarbonetos, conseguiu driblar as sanções internacionais à venda de petróleo venezuelano. Segundo Donald Trump, ela é a pessoa mais indicada para conduzir o país neste período de transição.
Após anos de impasse, de tentativas de negociações e até uma eleição que careceu de transparência, a gestão interina de Rodríguez faz parte de uma manobra internacional para que haja uma transição viável do país, segundo o venezuelano G.H, que prefere não ser identificado.
"Delcy e companhia são uma jogada geopolítica. María Corina Machado e Edmundo González não poderiam voltar para governar. Toda essa situação na Venezuela é um barril de pólvora. Não é possível negociar com os que estão ali para ver que tipo de transição podemos fazer", afirma. "Apesar de não gostar dos irmãos Rodríguez, eu acho que eles são um mal necessário e vamos ver o que será possível fazer", comentou.
'Comemorei, mas Trump é um louco'
Gil Hernández tem a dupla nacionalidade, brasileira e venezuelana. Ele mora no Rio de Janeiro, mas sua família paterna está em Coro, região petroleira na costa oeste da Venezuela.
"Eu também comemorei, óbvio. Mas, por outro lado, é insano: [Donald Trump] é um louco para invadir outro país, sequestrar um presidente, levar para Nova York, julgar, e querer se apossar das reservas de petróleo, porque investiu no parque petrolífero e nunca foi pago. Que negócio é esse, gente?", disse.
Donald Trump afirmou que a indústria petroleira da Venezuela foi construída pelos Estados Unidos - o que, segundo ele, daria ao país teria direito ao petróleo venezuelano.
Moradora do Rio de Janeiro, a apoiadora do regime venezuelano Z.Y. acompanha com indignação o que acontece nem seu país. Ela percebe que, aos poucos, os venezuelanos começam a sentir as consequencias da ingerência norte-americana.
"Há efeitos colaterais. Já há escassez, filas para comprar. O país já estava muito estabilizado", afirma. "A Venezuela, com todo o bloqueio e tudo o que aconteceu, já estava estabilizada, mesmo com todos o problemas que tinha. Mas estava limpa, bonita", defendeu.
Desde a invasão, a população vem fazendo compras nervosas. Os preços dos alimentos dispararam e o poder de compra do bolívar foi pulverizado. Um quilo de carne, que antes custava cerca de US$ 8, agora pode sair por U$25, afetando o bolso sobretudo das camadas mais pobres da população.
Após dias de silêncio e incertezas, na última quinta-feira (8), Jorge Rodríguez, que também é irmão da presidente interina, anunciou a decisão "unilateral" de liberar presos políticos no país. Donald Trump afirmou que já preparava um segundo ataque à Venezuela, mas que a iniciativa de Rodríguez o demoveu da ideia.
Reativação da economia
O governo americano alega que os Estados Unidos irão modernizar o parque petroleiro da Venezuela - a força econômica do empobrecido país. Embora não esteja de acordo com a invasão, outro venezuelano morador do Brasil acredita que a recuperação da economia de seu país vai ser lançada.
"Antes desse governo entrar, a Venezuela trabalhava com os Estados Unidos e sempre era metade e metade. Eles construíram uma planta e levavam petróleo por 20, 30 anos. Era normal", disse. "Sempre foi assim. Agora, haverá bastante emprego. Todas as petroleiras, todas as refinarias serão ativadas. E cada refinaria precisa mais de 5 mil pessoas. É bom!"
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou os ataques à Venezuela. Ainda assim, durante o anúncio da liberação dos presos políticos, Jorge Rodríguez agradeceu ao governo do presidente brasileiro, afirmando que ele "sempre esteve ao nosso lado".
Entretanto, membros da comunidade venezuelana no Brasil acreditam que a gestão de Lula poderia ter feito mais pela Venezuela. "Gostaria que tomasse uma posição para apoiar os cidadãos [venezuelanos], tendo em conta que Nicolás Maduro é um ditador. E um ditador, não importa se é de direita ou de esquerda, é um ditador", afirmou uma venezuelana que também pediu anonimato.
De acordo com a ONG Justiça, Encontro e Perdão, até esta quinta-feira, havia 1.011 presos políticos na Venezuela.