A violenta repressão do ICE e o temor de deportações vêm esvaziando bairros hispânicos como o de Detroit e impulsionando a insatisfação com Donald Trump. Pesquisas mostram que 62% dos eleitores latinos acham que o governo vai longe demais e 51% preferem democratas para a Câmara, revertendo ganhos republicanos anteriores. Ao lado dos asiáticos e afetados também pela alta do custo de vida, esse eleitorado pode ser decisivo para definir o equilíbrio de forças no Congresso nas próximas eleições.
Justine Fontaine e Bertrand Haeckler, enviados especiais da RFI a Detroit
Em Detroit, no estado-chave de Michigan, o impacto das operações de repressão violenta do ICE, a polícia de imigração, é visível. Em uma sexta-feira à noite, o tradicional bairro mexicano da cidade estava praticamente vazio. Restaurantes funcionavam com poucos clientes após ações recentes da agência nas proximidades, inclusive perto de escolas.
Julio, que prefere não revelar seu verdadeiro nome, ainda tenta entender por que tantos latinos, incluindo amigos próximos, votaram em Trump há dois anos.
"A situação está realmente complicada. O ICE matou pessoas diante dos filhos, prendeu crianças na saída da escola. Todo mundo está em pânico", afirma. "Não acho que as pessoas imaginavam o que aconteceria neste segundo mandato."
Apesar do crescimento do apoio republicano entre os latinos em 2024, Julio diz que continuará votando nos democratas.
Voto latino pode influenciar resultado
O comportamento dos eleitores latinos e também dos asiático-americanos é acompanhado de perto pelos partidos. Depois de ampliarem o apoio a Trump na eleição presidencial de 2024, pesquisas indicam um possível afastamento de parte desse eleitorado.
Segundo levantamento do Pew Research Center, realizado entre o fim de setembro e o início de outubro, 51% dos eleitores latinos registrados preferem candidatos democratas à Câmara dos Representantes, contra 24% que apoiam os republicanos. Outros 18% ainda não haviam decidido em quem votar. Entre os eleitores de origem asiática, a vantagem democrata é ainda maior: 56% contra 16%.
A política migratória aparece entre os motivos de insatisfação. Segundo a pesquisa, 62% dos latinos registrados consideram que o governo Trump está indo longe demais nas deportações. Ao mesmo tempo, o tema divide a comunidade. Entre os latinos que apoiam candidatos republicanos, quase metade avalia que a atual política tem a intensidade adequada.
O custo de vida também influencia a disputa, sobretudo após a alta dos preços dos combustíveis provocada pela guerra com o Irã.
Em distritos decididos por margens apertadas, mudanças na participação de latinos e asiático-americanos podem ajudar a definir o equilíbrio de forças no Congresso e servir como primeiro teste nacional da reação dos americanos aos dois primeiros anos do segundo mandato de Trump.
Medo da deportação
Neste fim de semana, durante as celebrações do Dia dos Mortos às margens do rio Detroit, pouco mais de cem pessoas participaram do evento, marcado por apresentações musicais e danças folclóricas mexicanas. Poucas aceitaram falar à reportagem.
Taylor, americana casada com um mexicano, diz que escolheu seus candidatos democratas pensando em duas prioridades: "Que defendam a educação pública e protejam as liberdades e os direitos, para que ninguém tenha medo de suas origens ou da própria identidade."
Com medo das ações da polícia de imigração, Taylor providenciou passaportes americanos para as duas filhas, que ainda nem frequentam o ensino fundamental.