Haiti vive colapso e recebe chefe da ONU em meio a violência e rejeição à organização

O secretário-geral da ONU, António Guterres, desembarca nesta terça-feira (16) no Haiti para uma visita de solidariedade em meio à escalada da violência das gangues, que já deixou ao menos 2.300 mortos neste ano. O país enfrenta colapso institucional e cerca de 1,5 milhão de deslocados internos. A missão ocorre sob críticas ao histórico da organização no território e diante da preparação de uma nova força internacional para conter os grupos armados.

16 jun 2026 - 11h35

O secretário-geral da ONU, António Guterres, realiza nesta terça-feira (16) uma visita ao Haiti descrita pela organização como um gesto de solidariedade diante do agravamento da crise de segurança e humanitária no país, marcado pela expansão de grupos armados e pelo aumento do número de vítimas. A viagem ocorre em meio a críticas persistentes ao papel da própria ONU no território haitiano.

Um homem carrega uma criança enquanto moradores fogem de um bairro após confrontos entre gangues na noite anterior, em Porto Príncipe, Haiti, em 20 de abril de 2026.
Um homem carrega uma criança enquanto moradores fogem de um bairro após confrontos entre gangues na noite anterior, em Porto Príncipe, Haiti, em 20 de abril de 2026.
Foto: AFP - CLARENS SIFFROY / RFI

A visita acontece enquanto a violência segue em alta. Desde o início deste ano, ao menos 2.300 pessoas morreram em decorrência das ações de gangues, segundo dados divulgados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, comandado por Volker Türk. O número reflete a intensificação de um cenário que já vinha se deteriorando nos últimos anos.

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Guterres deve se reunir com vítimas da violência, em um movimento que, segundo analistas, busca dar maior visibilidade à dimensão humana da crise. Trata-se da segunda viagem do secretário-geral ao país — a anterior ocorreu em 2023 —, mas esta inclui contatos diretos com a população afetada.

A situação no Haiti combina múltiplas frentes de instabilidade. Além da insegurança generalizada, o país enfrenta colapso político e dificuldades institucionais prolongadas, após anos sem eleições regulares e com autoridades enfraquecidas. O cenário compromete a capacidade do Estado de responder à crise.

Segundo avaliação de especialistas, a presença das gangues se ampliou de forma significativa. Grupos armados passaram a controlar a maior parte da capital, Porto Príncipe, e avançaram para áreas onde antes não tinham atuação relevante.

Esse avanço territorial contribuiu para o aumento do deslocamento interno. Estimativas indicam que cerca de 1,5 milhão de pessoas foram forçadas a deixar suas casas, pressionadas pela violência e pela perda de controle estatal em diversas regiões.

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A crise humanitária também é marcada pela falta de recursos internacionais. O plano de ajuda das Nações Unidas para 2026, orçado em US$ 880 milhões, recebeu até agora menos de um quarto do financiamento necessário, em um momento em que se aproxima a temporada de furacões no Caribe.

Expansão das gangues agrava crise humanitária

De acordo com análises na área de segurança regional, as gangues já dominam aproximadamente 90% da capital haitiana, consolidando um controle de fato sobre bairros estratégicos. A expansão para outras regiões evidencia a fragilidade das forças de segurança locais.

A crise humanitária é considerada a dimensão mais visível do colapso. A combinação de deslocamento em massa, falta de acesso a serviços básicos e insegurança alimentar afeta amplas parcelas da população.

O agravamento da crise levou o Conselho de Segurança da ONU a decidir, em setembro, pela substituição da atual Missão Multinacional de Apoio à Segurança, liderada pelo Quênia, considerada insuficientemente equipada e alvo de críticas.

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No lugar, foi autorizada a criação de uma nova Força de Repressão às Gangues, com perfil mais robusto e previsão de até 5.500 integrantes uniformizados, entre policiais e militares — uma diferença relevante em relação à missão anterior. A nova força, que não é formalmente uma operação de manutenção da paz da ONU, contará com suporte logístico de um escritório específico da organização, estrutura que também integra a agenda da visita de Guterres ao país.

Enquanto a nova missão é implementada, operações recentes têm buscado conter o avanço do crime organizado. A polícia haitiana, com apoio de ataques com drones conduzidos por empresas privadas estrangeiras e pela atuação de grupos de autodefesa, conseguiu frear parcialmente a expansão dessas gangues.

Apesar disso, as organizações criminosas ainda controlam cerca de 90% da capital, Porto Príncipe, segundo relatório de especialistas apresentado ao Conselho de Segurança em abril. Dados mais detalhados da ONU indicam que, além das 2.300 mortes registradas neste ano, a violência deixou ao menos 1.100 feridos e resultou em 99 sequestros no mesmo período, ilustrando o nível de insegurança.

O Haiti, historicamente o país mais pobre das Américas, enfrenta limitações estruturais profundas que ampliam o impacto da violência. A ausência de instituições estáveis e recursos limita a capacidade de reação interna.

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Críticas ao papel da ONU no Haiti

Apesar da nova mobilização internacional, a atuação da ONU no Haiti é alvo de críticas recorrentes, tanto dentro do país quanto entre comunidades haitianas no exterior. Analistas e acadêmicos apontam que missões anteriores contribuíram para o enfraquecimento das instituições locais, ao não conseguirem consolidar estruturas duradouras de governança e segurança.

Também pesam denúncias de violações de direitos humanos associadas à presença de forças internacionais no passado. Um dos episódios mais citados é a introdução da cólera no país por militares estrangeiros ligados à ONU, o que agravou uma crise sanitária de grandes proporções.

O histórico faz com que a organização enfrente forte rejeição em parte da sociedade haitiana, apesar da necessidade atual de apoio externo para conter a violência. Mesmo diante desse ambiente adverso, a visita de Guterres busca reafirmar o compromisso internacional com o país e sinalizar apoio às vítimas, em um momento em que a crise atinge níveis considerados críticos.

A eficácia dessa estratégia, no entanto, dependerá da capacidade de articular ações concretas de segurança e reconstrução institucional, além de restaurar a confiança da população nas intervenções externas.

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RFI com AFP

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