Eleição presidencial no Brasil se tornou um 'duelo de rejeições', diz cientista político

As eleições de 4 de outubro no Brasil serão acompanhadas não apenas como uma disputa pelo comando do país, mas também como um importante termômetro da relação dos brasileiros com os partidos políticos, as instituições e a própria democracia. Em um ambiente marcado pela polarização e pela desconfiança em relação ao sistema político, o comportamento do eleitorado poderá indicar os rumos da política nacional nos próximos anos.

16 set 2026 - 15h57
Resumo
Segundo o cientista político Carlos Ranulfo, a eleição presidencial virou um duelo de rejeições entre Lula e Flávio Bolsonaro, ambos com desaprovação acima de 50%, gerando espaço para outsiders. O pleito mantém o país polarizado e diante de um Congresso conservador e fortalecido por emendas orçamentárias, onde o Centrão seguirá decisivo para a governabilidade. Apesar das tensões e do desgaste institucional, avalia-se que a democracia corre menos riscos de rupturas do que em 2022.

Maria Paula Carvalho, da RFI

Carlos Ranulfo Félix de Melo é cientista político da UFMG.
Carlos Ranulfo Félix de Melo é cientista político da UFMG.
Foto: © Arquivo pessoal / RFI

Em entrevista à RFI, o cientista político Carlos Ranulfo Félix de Mello, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), afirma que o pleito atual apresenta características singulares. Segundo ele, os dois candidatos que lideram as pesquisas carregam índices elevados de rejeição. 

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"É um duelo de rejeições", resume o professor. "Tanto Luiz Inácio Lula da Silva quanto Flávio Bolsonaro têm rejeição acima de 50%. Isso por si só é complicado porque, ganhe quem ganhar, a outra metade do país estará insatisfeita." 

Na avaliação de Ranulfo, o Brasil permanece preso à polarização iniciada em 2018. "O país está cristalizado numa disputa que se inicia em 2018 e vai até hoje. Isso não é bom. Quem assumir continuará governando em meio a uma guerra política na qual a verdade acaba ficando de lado", afirma. 

O cientista político também vê no crescimento recente de candidatos fora do eixo petismo-bolsonarismo um sintoma do desgaste dessa polarização. Segundo ele, parte do eleitorado demonstra estar em busca de uma alternativa às duas correntes que dominam a cena política brasileira há mais de uma década. 

"Vemos um súbito crescimento de um outsider. Nas pesquisas, um escritor de autoajuda [Augusto Cury, candidato pelo partido Avante] tem se destacado", diz. "Mas o negócio dele é autoajuda, ele não entende absolutamente nada de eleições, de política ou de governo, mas está subindo na preferência do eleitorado", completa. "Ele começou a subir feito foguete porque as pessoas estão procurando uma alternativa ao petismo ou bolsonarismo", conclui. 

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PT enfrenta dificuldade para renovar lideranças 

Questionado sobre a capacidade do Partido dos Trabalhadores (PT) de construir novas lideranças além de Lula, Ranulfo avalia que o partido enfrenta dificuldades para promover uma renovação interna. 

"O Lula tem claramente uma fadiga de material. Ser presidente quatro vezes facilita o discurso de quem defende uma mudança", afirma. Segundo ele, embora novas lideranças tenham surgido, "a força do Lula é tão grande que não há espaço para lideranças novas". 

Do outro lado do espectro político, o pesquisador observa que a derrota de Bolsonaro em 2022 não enfraqueceu seu movimento político. 

"O bolsonarismo hoje é uma força muito enraizada no Brasil", avalia. Para ele, um eventual enfraquecimento desse campo político dependerá do desempenho eleitoral de seus principais representantes. Ao mesmo tempo, destaca que setores da direita tradicional também demonstram resistência à influência bolsonarista. 

Centrão seguirá decisivo 

Independentemente do resultado das urnas, Carlos Ranulfo Félix de Mello acredita que o Centrão continuará ocupando posição estratégica na sustentação do próximo governo. 

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Segundo ele, tanto o lulismo quanto o bolsonarismo contam com núcleos relativamente fiéis no Congresso, enquanto a maior parte dos parlamentares se concentra em partidos do chamado Centrão. 

"O Congresso vai continuar sendo predominantemente de direita e conservador", afirma. Para o cientista político, a principal disputa deverá ocorrer no Senado, envolvendo a direita tradicional e o bolsonarismo. 

Embora avalie que o bolsonarismo deverá ampliar sua presença na Casa, Ranulfo considera improvável que conquiste maioria absoluta. 

Governabilidade dependerá da composição política 

Sobre a relação entre Executivo e Legislativo, o professor destaca que o cenário será distinto conforme o vencedor da eleição

"Flávio Bolsonaro conseguiria maioria mais facilmente. Ideologicamente, o Centrão é muito mais próximo dos Bolsonaros do que de Lula", afirma. 

Para ele, um eventual quarto mandato de Lula encontraria dificuldades maiores que as enfrentadas no terceiro governo. O cientista político associa esse quadro à longa crise de representação vivida pelo país e à transformação do sistema partidário brasileiro. 

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Segundo Ranulfo, partidos que anteriormente estruturavam o centro político, como PSDB, PFL e Democratas, perderam protagonismo ao longo dos últimos anos. "A pá de cal nesse sistema foi a vitória de Jair Bolsonaro, que desarticulou completamente o centro e fortaleceu o bolsonarismo", avalia. 

Ampliação do poder do Congresso preocupa 

Outro ponto destacado pelo pesquisador é o fortalecimento do Congresso Nacional, impulsionado pelo crescimento das emendas parlamentares. Segundo ele, a mudança constitucional que tornou obrigatória a execução dessas emendas alterou profundamente o equilíbrio entre os poderes da República. 

"Hoje o Congresso está executando cerca de R$ 50 bilhões por ano. É muito dinheiro", afirma. 

Ranulfo faz críticas ao modelo atual e sustenta que a situação é incomum em comparação com outras democracias. "Isso não existe em lugar nenhum do mundo. Um Legislativo que ordena despesas do orçamento é uma jabuticaba que só tem no Brasil", declara. 

Democracia corre menos riscos do que em 2022 

Apesar da polarização persistente, o cientista político acredita que o resultado das urnas será mais amplamente aceito desta vez. 

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"Essa eleição não terá as turbulências da eleição passada", afirma. Segundo ele, lideranças da extrema direita compreenderam que não há espaço para rupturas institucionais ou aventuras golpistas. 

"Seja qual for o resultado, ele será respeitado", avalia. 

Ainda assim, o professor alerta para desafios que permanecerão após o encerramento da disputa eleitoral. Entre eles, destaca o avanço do conservadorismo na sociedade brasileira e as tensões envolvendo o Supremo Tribunal Federal. 

"A democracia não corre tanto risco como corria na eleição passada porque a extrema direita aprendeu que não há espaço para golpe de Estado. Mas temos uma crise séria no STF que não se resolve pelas eleições", conclui. 

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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