A guerra comercial entre EUA e Canadá se intensificou após Donald Trump ameaçar impor tarifas de até 50% a produtos canadenses. Em retaliação, o Canadá aplicará taxas recíprocas a partir de setembro e acenou com cortes no fornecimento de energia. Com as negociações paralisadas e tensões políticas em alta, a disputa ameaça encarecer itens como carros, materiais de construção e combustíveis, trazendo fortes impactos econômicos para os consumidores de ambos os lados da fronteira.
Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York
Trump também ameaçou ampliar a disputa. A partir de janeiro, o presidente americano pretende elevar para 50% as tarifas sobre carros, caminhões, autopeças e produtos de aço importados do Canadá.
Em resposta, o governo canadense anunciou que vai impor taxas equivalentes sobre produtos americanos, aumentando a tensão comercial entre dois países que mantêm uma das relações econômicas mais importantes do mundo.
Canadá promete responder "dólar por dólar"
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, anunciou tarifas de reciprocidade que entram em vigor no dia 8 de setembro. As medidas vão atingir principalmente setores como aço, laticínios, eletrodomésticos, máquinas agrícolas, papel e celulose e produtos eletrônicos.
Carney justificou a decisão afirmando que as condições apresentadas pelos Estados Unidos durante as negociações eram injustas e economicamente desfavoráveis para o Canadá.
"Eles pediram demais e ofereceram muito pouco", afirmou o primeiro-ministro.
O governo canadense também deixou claro que a escolha dos produtos americanos atingidos pelas tarifas não foi feita por acaso. A ministra canadense da Indústria, Mélanie Joly, afirmou que Ottawa selecionou estrategicamente mercadorias produzidas em determinados estados americanos numa tentativa de aumentar a pressão política sobre o governo Trump.
Trump muda nome do Lago Ontário para "Lago América"
A disputa entre os dois vizinhos ganhou também um capítulo simbólico. Nesta quinta-feira (27), Donald Trump assinou uma ordem executiva determinando que o Lago Ontário passe a ser chamado de "Lago América" nos Estados Unidos.
O lago faz parte da fronteira entre os dois países. Ao norte está a província canadense de Ontário e, ao sul, o estado americano de Nova York.
A ordem executiva determina que o Departamento do Interior atualize, dentro de 30 dias, o nome usado nos registros geográficos dos Estados Unidos. A decisão, no entanto, não tem efeito sobre o território canadense e Trump não pode obrigar o Canadá a adotar a nova denominação.
Carney reagiu lembrando que o nome Ontário tem raízes indígenas e é anterior tanto à Confederação Canadense quanto à Declaração de Independência dos Estados Unidos.
"Para os canadenses, é Lago Ontário. Antes, agora e sempre", afirmou.
A mudança de nome ocorre em meio a uma série de provocações de Trump contra o país vizinho. Desde que retornou à Casa Branca, o presidente americano já sugeriu diversas vezes que o Canadá deveria ser incorporado aos Estados Unidos como o 51º estado.
Negociações estão paralisadas
Apesar de as tarifas canadenses só entrarem em vigor em 8 de setembro, por enquanto não há sinais de que Washington e Ottawa pretendam retomar as negociações.
O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que não há novas conversas previstas e resumiu a posição de Washington dizendo que os americanos "já falaram o suficiente".
A dimensão da disputa preocupa porque o Canadá é um dos maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos, atrás apenas do México.
O impacto imediato das novas tarifas americanas, porém, deve ser mais limitado do que a alíquota de 50% pode sugerir. Por causa das exceções previstas, as novas taxas atingem cerca de 5% dos US$ 382 bilhões em produtos canadenses importados pelos Estados Unidos em 2025.
De carros a papel higiênico: o que pode ficar mais caro
Centenas de produtos canadenses sujeitos às novas tarifas podem ficar mais caros para os consumidores americanos. A lista inclui desde flores, mel, equipamentos de hóquei e câmeras até materiais utilizados na construção civil.
Este último setor está entre os que mais preocupam. Construtoras americanas historicamente dependem do Canadá para o fornecimento de materiais como madeira e compensado. Economistas avaliam, por isso, que as tarifas podem aumentar o custo tanto da construção de novas casas quanto de reformas nos Estados Unidos.
A indústria automobilística também pode ser fortemente afetada se Trump cumprir a ameaça de elevar para 50% as tarifas sobre veículos e autopeças canadenses a partir de janeiro.
As cadeias produtivas dos dois países são profundamente integradas e mesmo automóveis montados nos Estados Unidos utilizam componentes importados. Uma transferência rápida de toda essa produção para território americano é considerada inviável devido à complexidade e aos longos ciclos de produção da indústria.
Do lado canadense, os consumidores também podem sentir os efeitos da retaliação. Produtos americanos como móveis, roupas e determinados produtos de aço e alumínio enfrentarão tarifas de até 50%. Eletrodomésticos, queijos, pescados e frutos do mar estão entre as mercadorias sujeitas a taxas de 25%.
Até o papel higiênico entrou na guerra comercial. Produtos de papel estão entre os setores americanos que podem enfrentar tarifas canadenses de até 50%.
Canadá ameaça usar energia como instrumento de pressão
A escalada comercial também pode chegar aos postos de gasolina dos Estados Unidos.
Carney sinalizou que o Canadá poderia reduzir ou até interromper o fornecimento de energia para o vizinho caso a disputa continue se agravando.
A dependência americana da energia canadense é significativa. Segundo o primeiro-ministro, o Canadá fornece 99% do gás natural importado pelos Estados Unidos, 85% da eletricidade importada e 60% do petróleo bruto comprado pelo país no exterior.
"Não acho que eles queiram que a gente pare de enviar essa energia", afirmou Carney, em um recado direto ao governo Trump.
Uma eventual redução das exportações canadenses de petróleo diminuiria a oferta disponível nos Estados Unidos e poderia exercer ainda mais pressão sobre o preço da gasolina para os consumidores americanos.