Facções criminosas brasileiras expandem influência e violência nas fronteiras da Bolívia

Às margens do rio Mamoré, que marca parte da fronteira entre Bolívia e Brasil, dezenas de viajantes embarcam e desembarcam diariamente sem passar por controles migratórios. A cidade de Guayaramerín se tornou uma das principais portas de entrada para a atuação de facções criminosas brasileiras, que vêm ampliando sua presença e sua violência em território boliviano.

27 ago 2026 - 16h07
Resumo
A expansão das facções brasileiras PCC e Comando Vermelho na fronteira com a Bolívia gerou uma onda inédita de violência, com homicídios mais que dobrando em 2025 devido à disputa por rotas do tráfico de cocaína. Cidades como Guayaramerín sofrem com assassinatos brutais e assaltos. Em resposta, o presidente Rodrigo Paz reforçou o policiamento fronteiriço e a cooperação com o Brasil, enquanto especialistas cobram ações focadas no combate à lavagem de dinheiro do crime organizado.

Com cerca de 40 mil habitantes, Guayaramerín aparenta tranquilidade. As ruas de terra avermelhada contrastam com o verde da floresta amazônica ao redor. Mas os moradores relatam um aumento da criminalidade e da sensação de insegurança. 

Em 11 de agosto de 2026, pessoas chegam de barco pelo rio Mamoré em Guayaramerín, na fronteira entre a Bolívia e o Brasil, no departamento de El Beni, na Bolívia.
Em 11 de agosto de 2026, pessoas chegam de barco pelo rio Mamoré em Guayaramerín, na fronteira entre a Bolívia e o Brasil, no departamento de El Beni, na Bolívia.
Foto: © AIZAR RALDES / AFP / RFI

"Nunca ninguém fiscaliza os passageiros", afirma Donald Somoza, pedreiro aposentado de 75 anos, nas proximidades do pequeno porto amazônico que vive do comércio com o Brasil. 

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Segundo o governo boliviano, Guayaramerín e outras cidades da faixa de fronteira se tornaram refúgio de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), facções brasileiras que disputam rotas de tráfico de cocaína rumo ao Oceano Atlântico. 

Nas últimas semanas, uma série de crimes atribuídos a esses grupos chocou o país. Entre os casos estão o assassinato de uma família inteira, a descoberta de corpos decapitados e a morte de um policial. Esse tipo de violência era até então incomum na Bolívia. 

Somoza afirma ter testemunhado um dos crimes mais impactantes ocorridos recentemente na cidade. Um estrangeiro foi executado com mais de 80 tiros em plena praça central, em um suposto acerto de contas relacionado ao narcotráfico. 

Para o pesquisador Joaquín Chacín, especialista em crime organizado, trata-se de "um fenômeno relativamente novo na Bolívia", um país que, segundo ele, era considerado muito seguro até poucos anos atrás. 

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De acordo com Chacín, as organizações criminosas operavam anteriormente com certa tolerância do Estado, que evitava enfrentá-las para não desencadear uma escalada de violência. Ao mesmo tempo, existia entre elas uma espécie de "paz mafiosa". Esse equilíbrio, explica, foi rompido. 

Crimes mais frequentes 

A professora Ariana Roca, de 35 anos, retorna com sacolas de compras após atravessar o rio Mamoré. Ela vem de Guajará-Mirim, cidade brasileira visível da margem boliviana. Segundo ela, os crimes passaram a ocorrer com mais frequência e, em alguns casos, "acontecem até diante dos policiais". 

Dados do Ministério do Governo da Bolívia mostram que, entre janeiro e setembro de 2025, foram registrados 774 homicídios, contra 325 no mesmo período do ano anterior. Também aumentaram os relatos de assaltos à mão armada, sequestros e outros atos violentos. 

O cambista Adhemar Zapata conta que foi vítima de dois assaltos recentemente. O último ocorreu no início de agosto. Segundo as investigações, um dos suspeitos era brasileiro. 

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O governo do presidente de centro-direita Rodrigo Paz, que sucedeu duas décadas de administrações ligadas à esquerda sob Evo Morales (2006-2019) e Luis Arce (2020-2025), acusa os governos anteriores de terem permitido o avanço da criminalidade organizada. 

O Ministério do Governo afirma que, desde novembro, quando Paz assumiu o cargo, 17 chefes de organizações criminosas internacionais foram presos. 

Reforço policial 

Na semana passada, Rodrigo Paz lançou em Guayaramerín um plano de segurança para reforçar o efetivo policial nas regiões de fronteira, ampliar o intercâmbio de informações de inteligência com o Brasil e intensificar a captura de foragidos nos dois lados da fronteira. 

Para Chacín, a presença de mais policiais pode ajudar a conter a violência, mas o combate ao crime organizado precisa atingir sua estrutura financeira. Segundo ele, é fundamental investigar os mecanismos de lavagem de dinheiro e identificar quem lucra com essas atividades. "Falta um plano sério, e não parece haver um trabalho consistente nessa direção", afirma. 

Paz também anunciou a construção de uma ponte ligando Guayaramerín a Guajará-Mirim. A obra fará parte de um corredor rodoviário que conectará o Brasil ao Oceano Pacífico, por meio do Peru. 

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Embora muitos moradores apoiem a iniciativa por seu potencial de impulsionar o comércio local, o projeto também desperta preocupações. "As quadrilhas e as gangues de assaltantes poderão atravessar com mais facilidade", teme Yestin Durán, comerciante de bebidas tropicais de 31 anos.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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