Mais do que convergências, a Cúpula dos Brics ocorrida no Rio de Janeiro nos dias 6 e 7 de julho exibiu "as fraturas internas do grupo" e resultou em um documento pouco conclusivo. Essa é a avaliação do correspondente do jornal Le Monde no Brasil que acompanhou o encontro de líderes das chamadas grandes potências do Sul global, solidárias frente ao unilateralismo americano.
Sobre a guerra na Ucrânia, o grupo se contentou em reafirmar "a diversidade de posições" de cada país, sendo a agressão russa sequer citada, muito menos condenada. Sobre o Oriente Médio, o documento final reprova os ataques militares contra o Irã, sem denunciar diretamente os Estados Unidos. O grupo se mostra mais coeso ao condenar os ataques na Faixa de Gaza por parte de Israel e ao defender uma solução com dois Estados.
Nenhum avanço importante foi registrado, contudo, em relação à reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas ou sobre a substituição do dólar na economia mundial. Um único consenso foi a defesa da regulamentação da inteligência artificial e de uma concorrência justa nessa área entre os países do Norte e do Sul, explica reportagem do jornal Le Monde desta quarta-feira (9).
Nenhuma medida concreta de represália contra a "proliferação de medidas restritivas ao comércio internacional" foi anunciada, resultado da pressão exercida pelos aliados dos Estados Unidos no grupo, como os países do Golfo.
Para alguns analistas, a Cúpula carioca pode ser interpretada até mesmo como "o início da morte dos Brics", cita o correspondente Bruno Meyerfield. Outros falam de uma transição do bloco, na qual o Brasil tem um papel de peso para evitar que "os Brics se transformem em uma aliança antiocidental, como desejam Pequim e Moscou".
Enquanto os líderes estavam reunidos diante da Baía de Guanabara, Donald Trump ameaçava, através de sua rede social, qualquer país que se alinhasse a políticas antiamericanas com uma taxa adicional de 10% sobre a importação de seus produtos nos Estados Unidos.