Com informações de Gabriela Orozco, correspondente da RFI em La Paz, e da AFP
A capital La Paz voltou a ser palco de um grande protesto contra o governo, mas também de confrontos. De um lado, camponeses, mineiros e operários e, de outro, a polícia. As violências foram registradas apesar de uma iniciativa de Paz de apaziguar os ânimos.
Na segunda-feira (25), durante a comemoração do aniversário de 217 anos da Revolução de Chuquisaca — considerado o primeiro levante do continente americano contra o domínio colonial espanhol — o presidente boliviano fez uma autocrítica. "Digo isso com a maior humildade: talvez tenhamos nos descuidado em compreender que deveria ser um governo amplo. Não tenho medo de dizer que nos faltou espaço e de incluir essa diferença na unidade da pátria e do governo", afirmou.
Paz também anunciou que ele e seus ministros reduzirão seus salários em 50% e que impulsionarão uma lei de isenção de impostos para os setores mais afetados pela crise econômica. A medida é quase simbólica: a renda mensal do chefe de Estado é de cerca de 24.000 bolivianos (R$ 17.262) e sua redução não está entre as reivindicações dos manifestantes.
O presidente boliviano ainda renovou seu chamado ao diálogo com as organizações que lideram os protestos, mas descartou conversar com quem recorre à violência. No entanto, aqueles que estão nas ruas acreditam que a medida é insuficiente.
"Vimos que estão reduzindo salários, mas o povo já não confia mais. O único pedido do povo é a renúncia", explicou um manifestante à RFI.
Confrontos em La Paz
O presidente de centro-direita Rodrigo Paz, que assumiu o poder há apenas seis meses, enfrenta uma onda de manifestações que exigem sua renúncia diante da crise econômica que o país andino enfrenta, a maior das últimas quatro décadas. Os manifestantes rejeitam sua política econômica liberal, exigem aumentos salariais e o culpam pela distribuição de gasolina de má qualidade que danificou milhares de veículos.
Na segunda-feira, depois de chegar ao centro de La Paz, grupos tentaram invadir a praça Murillo, onde o líder boliviano tem seus escritórios e cujos acessos estavam cercados por centenas de policiais. Os participantes do ato foram repelidos com gás lacrimogêneo.
Muitos manifestantes responderam atirando pedras, paus e fogos de artifício contra as forças de segurança. Cerca de dez pessoas foram detidas.
"Assassinos!", gritavam, para denunciar a morte de uma pessoa em outros confrontos com policiais e militares no sábado. Embora tenha negado inicialmente, o governo confirmou a tragédia ocorrida no fim de semana.
Evo Morales é acusado de impulsionar protestos
Paz e seus ministros acusam o ex-presidente Evo Morales (2006-2019), foragido por um caso de suposta exploração de uma menor, de estar por trás dos protestos. O líder cocaleiro desafiou o governo a convocar novas eleições em 90 dias.
O governo de centro-direita denunciou que essas mobilizações buscam "alterar a ordem democrática". Os Estados Unidos e outros países da América Latina manifestaram seu apoio ao presidente boliviano.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antigo aliado do ex-presidente socialista Evo Morales, falou por telefone com Paz para expressar seu apoio à democracia boliviana e ao diálogo. De acordo com um comunicado do governo brasileiro, "Lula determinou o envio de ajuda humanitária à Bolívia".
A escassez de alimentos, remédios e gasolina afeta principalmente a capital La Paz e sua vizinha El Alto. Em outras cidades, como Oruro (oeste), Potosí (sudoeste) e Cochabamba (centro), o problema é menor.