A derrota republicana nos EUA repercutiu globalmente e foi vista por líderes progressistas da Espanha e da França como um sinal de enfraquecimento da extrema direita mundial. Enquanto o Irã e analistas atribuíram o revés eleitoral ao impacto econômico da guerra e à política externa de Trump, a China tratou o pleito como assunto interno. O cenário gerou cautela e quedas nos mercados asiáticos, ao mesmo tempo em que reavivou o debate internacional sobre o declínio de movimentos ultraconservadores.
No Irã, a derrota republicana foi associada diretamente ao conflito entre Washington e Teerã. Em uma mensagem publicada na rede X, Mohammad Ghalibaf, principal negociador iraniano nas conversas com os Estados Unidos, afirmou que os americanos disseram "não à guerra". Segundo ele, seja por convicção ou pelo impacto do aumento do custo de vida, os eleitores rejeitaram a política externa adotada por Trump. O próprio presidente americano reconheceu, em entrevista à Fox News, que a guerra contra o Irã foi parcialmente responsável pelo revés eleitoral de seu partido.
Na Espanha, o primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez comemorou o resultado e o vinculou à disputa política em seu próprio país, que se prepara para eleições legislativas antecipadas no fim do mês. Para Sánchez, os eleitores americanos rejeitaram políticas associadas ao empobrecimento, ao negacionismo climático e ao avanço da extrema direita. Segundo ele, a chamada "onda ultraconservadora" estaria perdendo força em diferentes partes do mundo.
Assunto interno
A China adotou um tom mais cauteloso. O Ministério das Relações Exteriores classificou as eleições americanas como um "assunto interno" dos Estados Unidos e evitou comentários sobre o resultado. Mesmo assim, Pequim afirmou que pretende continuar trabalhando com Washington para administrar divergências e ampliar a cooperação em temas de interesse comum.
Os mercados asiáticos reagiram de forma negativa ao novo cenário político em Washington. Investidores temem um período de impasses entre a Casa Branca e o Congresso, além de possíveis mudanças na política de apoio ao setor de inteligência artificial. O dólar recuou frente ao iene japonês e as principais bolsas da região fecharam em queda, entre elas Tóquio, Taipei e Sydney.
Alerta para os franceses
Na França, a esquerda celebrou o resultado como uma demonstração de que o avanço da extrema direita não é inevitável. A líder ecologista Marine Tondelier classificou a derrota de Trump como histórica e afirmou que a experiência americana deve servir de alerta para os franceses. O eurodeputado social-democrata Raphaël Glucksmann falou em uma "vitória da democracia e da decência", enquanto o senador ecologista Yannick Jadot avaliou o resultado como motivo de alívio.
Lideranças da esquerda francesa também associaram a vitória democrata à recente reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, vendo nos dois episódios sinais de um movimento de fortalecimento das forças progressistas. Manuel Bompard, coordenador do partido A França Insubmissa, afirmou que a mobilização popular tem permitido o recuo da extrema direita em diferentes países.
Já o presidente do partido Reunião Nacional (RN), Jordan Bardella, descartou qualquer paralelo entre a situação americana e a política francesa. Segundo ele, o resultado das eleições nos Estados Unidos deve ser respeitado, mas não tem relação com a futura disputa presidencial na França. Ainda assim, Bardella reconheceu que a guerra contra o Irã pode ter desempenhado um papel importante na derrota republicana, especialmente pelos impactos econômicos sentidos pelos eleitores.
Para muitos observadores, o resultado das eleições americanas ultrapassa as fronteiras dos Estados Unidos e alimenta um debate global sobre o futuro dos movimentos populistas e nacionalistas que ganharam força na última década.
RFI com agências