Democratas conquistam Senado e Câmara e impõem derrota histórica a Trump nos EUA

Onda azul avança sobre redutos republicanos, como Texas e Kansas, e impõe derrota a Donald Trump; presidente promete governar por meio de vetos nos dois últimos anos de mandato

4 nov 2026 - 05h09
Resumo
O Partido Democrata obteve uma vitória histórica ao conquistar o Senado e a Câmara dos EUA, revertendo resultados até em redutos republicanos como Texas e Kansas. Impulsionada pelo custo de vida, a guerra com o Irã e a impopularidade de Donald Trump (32% de aprovação), a oposição ganha o poder de investigar o governo e travar o orçamento. Frente ao revés, o presidente anunciou que usará vetos para barrar propostas, projetando um cenário de forte confronto legislativo até 2028.

Patrícia Vasconcellos, de Washington, especial para a RFI

Apoiadores comemoram enquanto acompanham os primeiros resultados durante um comício eleitoral do candidato democrata ao Senado dos Estados Unidos e deputado estadual do Texas, James Talarico, nas eleições legislativas americanas, em Austin, no Texas, em 3 de novembro de 2026.
Apoiadores comemoram enquanto acompanham os primeiros resultados durante um comício eleitoral do candidato democrata ao Senado dos Estados Unidos e deputado estadual do Texas, James Talarico, nas eleições legislativas americanas, em Austin, no Texas, em 3 de novembro de 2026.
Foto: © Mike Segar/ Reuters / RFI

O Partido Democrata conquistou a maioria no Senado e na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos nas eleições legislativas de terça-feira (3), impondo uma derrota estrondosa ao presidente Donald Trump. A chamada onda azul avançou sobre estados tradicionalmente republicanos, como Texas, Kansas e Carolina do Sul, e mudou o equilíbrio de poder em Washington para os dois últimos anos do mandato presidencial.

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A vitória democrata foi confirmada durante a madrugada desta quarta-feira (4), depois de uma sequência de resultados surpreendentes em estados que haviam votado em Trump na eleição presidencial de 2024. Com o controle das duas casas do Congresso, os democratas poderão bloquear projetos do governo, fiscalizar gastos públicos e abrir investigações sobre a administração republicana.

Uma das maiores surpresas aconteceu no Texas, onde o democrata James Talarico, de 37 anos, derrotou o procurador-geral Ken Paxton, apoiado por Trump. É a primeira vez desde 1988 que o estado elege um senador democrata. Há dois anos, Trump havia vencido no Texas por quase 14 pontos percentuais.

Ex-professor de escola pública e deputado estadual, Talarico estudou em um seminário presbiteriano e se apresenta como um cristão progressista. Sua campanha combinou referências religiosas, defesa da educação pública, combate à corrupção e críticas ao alto custo de vida. O candidato buscou ampliar o apoio democrata entre eleitores independentes e religiosos, tradicionalmente mais próximos dos republicanos.

O Texas também elegeu a democrata Gina Hinojosa para o governo estadual, derrotando o republicano Greg Abbott. As duas vitórias encerram uma longa sequência de derrotas democratas nas disputas estaduais texanas.

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No Kansas, outro estado conservador, o pastor metodista democrata Adam Hamilton derrotou o senador republicano Roger Marshall. O resultado é histórico: o Kansas não elegia um democrata para o Senado americano desde 1932, há 94 anos.

Na Carolina do Sul, Annie Andrews conquistou uma cadeira para os democratas, derrotando Darline Graham, apoiada por Trump. O presidente republicano havia vencido no estado por quase 18 pontos percentuais na eleição presidencial de 2024.

Os democratas também conquistaram cadeiras anteriormente ocupadas pelos republicanos em Iowa, Ohio, Maine e Carolina do Norte. Na Geórgia, o senador democrata Jon Ossoff garantiu a reeleição, derrotando Mike Collins, apoiado pelo presidente.

Economia e impopularidade de Trump pesaram na eleição

A economia, o custo de vida e a guerra com o Irã estiveram entre os principais temas da campanha. A insatisfação com os preços e com a situação financeira das famílias contribuiu para o avanço democrata, inclusive entre eleitores que haviam apoiado Trump dois anos antes.

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Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na segunda-feira (2), véspera da votação, mostrou que a aprovação do presidente havia caído para 32%, próxima do menor índice de sua carreira política, de 31%.

Segundo o levantamento, 48% dos eleitores registrados apontaram o custo de vida como a principal preocupação na hora de decidir o voto. Outros 26% citaram a defesa das instituições democráticas, enquanto 13% mencionaram a imigração.

A pesquisa também revelou que 49% dos entrevistados consideravam que a situação financeira de suas famílias havia piorado desde janeiro de 2025, quando Trump voltou à Casa Branca. Apenas 13% disseram que havia melhorado.

Trump participou de comícios, apoiou candidatos republicanos e procurou mobilizar sua base eleitoral. Mas a insatisfação com a economia e os efeitos da guerra com o Irã acabaram se refletindo nas urnas.

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Trump promete governar por meio de vetos

Diante da derrota, Donald Trump tentou se distanciar dos resultados. Em uma publicação nas redes sociais, afirmou que não estava na cédula eleitoral e que, se estivesse, teria vencido por uma margem esmagadora.

Em entrevista à CBS News, o presidente também antecipou como pretende lidar com a nova maioria democrata no Congresso: utilizando o poder de veto. Trump chegou a afirmar que poderia ser chamado de "Senhor Veto".

Pela Constituição americana, o presidente pode rejeitar projetos de lei aprovados pelo Congresso. Para derrubar um veto presidencial, deputados e senadores precisam reunir uma maioria de dois terços em cada uma das casas, um patamar difícil de alcançar.

O veto, porém, é um instrumento de bloqueio. Embora Trump possa impedir que determinadas leis entrem em vigor, não poderá obrigar os parlamentares a aprovar sua agenda.

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O novo Congresso, que toma posse em janeiro de 2027, também poderá convocar integrantes do governo para prestar depoimentos, investigar decisões da administração e exercer maior controle sobre o orçamento federal.

Política externa continuará sob influência de Trump

Apesar da derrota republicana, Donald Trump continuará exercendo amplos poderes na condução da política externa dos Estados Unidos.

Como presidente e comandante-em-chefe das Forças Armadas, ele mantém autoridade para conduzir negociações diplomáticas, definir prioridades de segurança nacional e orientar as relações com países como China e Rússia, além de atuar diretamente em questões relacionadas ao Oriente Médio e à América Latina.

Trump também poderá continuar utilizando decretos presidenciais, dentro dos limites legais, em áreas como imigração, comércio internacional e administração federal.

A autonomia presidencial, entretanto, não é absoluta. O Congresso controla a aprovação de recursos federais, pode estabelecer restrições legais às ações do Executivo e fiscalizar a política externa. O Senado também precisa confirmar diversas autoridades indicadas pelo presidente e aprovar tratados internacionais por uma maioria de dois terços.

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Na área militar, embora o presidente comande as Forças Armadas, o Congresso possui poderes constitucionais relacionados à declaração de guerra e ao financiamento das operações.

A nova composição do Legislativo poderá, portanto, dificultar iniciativas da Casa Branca que dependam de recursos financeiros ou de autorização parlamentar.

Resultado já repercute na corrida presidencial de 2028

A conquista das duas casas do Congresso representa uma mudança significativa para a segunda metade do mandato de Trump. O presidente começou seu governo com os republicanos controlando a Casa Branca, o Senado e a Câmara dos Representantes. Agora, terá de negociar com uma oposição fortalecida.

As vitórias em estados conservadores também projetam novas lideranças democratas, como James Talarico, e abrem um debate dentro do Partido Republicano sobre a influência de Trump e os rumos da legenda.

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O resultado pode antecipar as disputas políticas de 2028, quando os americanos escolherão o sucessor de Trump. A Constituição impede que o presidente seja eleito para um terceiro mandato.

Até lá, Washington deverá enfrentar um período de maior confronto entre o Executivo republicano e o Congresso democrata, com possíveis impasses legislativos, investigações parlamentares e negociações sobre o orçamento federal.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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