250 anos dos EUA: Trump recria os 'Pais Fundadores' com IA e apaga o lado sombrio da história americana

Às vésperas das comemorações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, o presidente Donald Trump lançou um museu virtual dedicado às grandes figuras da história americana. No centro desse projeto memorial, os chamados "Pais Fundadores" ganham vida por meio da inteligência artificial e contam suas próprias histórias sob uma ótica elogiosa, ainda que isso implique minimizar aspectos controversos do passado.

2 jul 2026 - 15h28
(atualizado em 3/7/2026 às 02h55)

Jean-Baptiste Breen, da RFI

Em 4 de julho, os Estados Unidos celebrarão os 250 anos de sua independência. Além de corridas de automóveis e jogos patrióticos, Donald Trump, idealizador dessa grande celebração, criou também a Freedom 250, organização encarregada de moldar as festividades à sua imagem.

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Um dos projetos menos divulgados da entidade, fundada em dezembro de 2025, promete contar a "história extraordinária" da fundação dos Estados Unidos. "Descubra como a geração fundadora transformou uma ideia ousada em uma nação", convida a seção História do site da Freedom 250.

Entre videoaulas sobre a Guerra da Independência, apresentadas em parte por Larry P. Arnn, acadêmico ligado ao think tank conservador Heritage Foundation, o portal também abriga o Museu dos Fundadores. A galeria inteiramente virtual foi criada pela PragerU, grupo de comunicação ultraconservador que desempenha papel importante na preparação das comemorações deste ano. A exposição reúne retratos de figuras, quase exclusivamente masculinas, associadas à independência americana.

Essas personalidades históricas são animadas por inteligência artificial e apresentam breves relatos de suas trajetórias. Mas, nessa reencarnação digital, os "Pais Fundadores" evitam entrar em detalhes sobre os aspectos mais sombrios de suas vidas.

O museu virtual dos Pais Fundadores.
O museu virtual dos Pais Fundadores.
Foto: RFI

"Todos os homens são iguais"

Ao visitar o museu online, o visitante encontra sessenta nomes, mas apenas quatro são destacados como "Pais Fundadores". Os demais aparecem apenas como signatários da Declaração de Independência, ratificada em 1776. Embora o termo tenha surgido apenas no século XX, nem sempre designa as mesmas figuras. No universo da Freedom 250, o círculo restrito é composto por Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, Samuel Adams e seu primo John Adams.

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"São quatro personagens que tiveram papel central durante o período revolucionário e participaram da elaboração da Declaração de Independência", explica Agnès Delahaye, professora de história e civilização americana da Universidade Lumière Lyon 2 e autora de Quem é o dono do 4 de julho? A Independência Americana e sua Memória. A pesquisadora se diz surpresa com a ausência de George Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos, e acredita que a escolha tenha privilegiado figuras mais conhecidas do público. Samuel Adams, por exemplo, deu nome a uma famosa marca de cerveja.

No memorial virtual, o avatar de Benjamin Franklin apresenta-se como um "tipógrafo de profissão e filósofo por inclinação" que criou uma gráfica "para o homem comum". Proprietário do Pennsylvania Gazette, Franklin foi de fato uma figura importante do jornalismo americano do século XVIII.

No entanto, a breve autobiografia gerada por inteligência artificial omite que essa atividade, além de contribuir para a causa da independência, também lhe rendeu lucros vinculados ao sistema escravagista.

Seu jornal publicava anúncios de venda de pessoas escravizadas e avisos de fuga. E, embora a história destaque seu engajamento abolicionista nos últimos anos de vida, Franklin também foi proprietário de escravos. Segundo o museu londrino dedicado a sua memória, a família Franklin manteve pessoas escravizadas entre 1735 e 1790 e teria adquirido pelo menos sete indivíduos: Joseph, Jemima, Peter, King, Othello, George e Bob.

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Esse aspecto relevante de sua trajetória é completamente ignorado pela exposição. O fantasma digital de Franklin afirma ainda que nada foi mais marcante em sua vida do que assinar a Declaração de Independência, documento que proclama que "todos os homens são criados iguais" e possuem três direitos fundamentais: "vida, liberdade e busca da felicidade".

Cenas de Thomas Jefferson redigindo a Declaração da Independência.
Foto: RFI

Racismo profundamente enraizado 

O texto, atribuído quase exclusivamente a Thomas Jefferson na galeria Freedom 250, baseia-se na realidade em documentos anteriores, especialmente a Declaração de Direitos da Virgínia.

"Quando a tinta secou, o mundo mudou", afirma o avatar digital do terceiro presidente dos Estados Unidos. Na narrativa apresentada pelo museu, cada palavra teria se transformado em uma "tocha para a posteridade". Jefferson exalta uma nova nação próspera e livre, que imaginava transformar em um "império da liberdade".

Essa visão idealizada da América do século XVIII, porém, apaga a realidade dos cerca de 460 mil escravizados para os quais a Declaração de Independência não trouxe qualquer mudança concreta. A população escravizada representava quase 20% dos habitantes das treze colônias. O próprio Jefferson, apesar das frequentes declarações contra o tráfico de escravos, era um grande proprietário pertencente à elite agrária da Virgínia. Ao longo da vida, estima-se que tenha possuído mais de 600 pessoas escravizadas.

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Embora essa visão não fosse compartilhada por todos os signatários da Declaração de Independência, que discutiam a legitimidade da escravidão, a postura dos "Pais Fundadores" ligados ao sul americano, uma região escravagista, revela muito sobre a forma como concebiam a liberdade.

"Não podemos esquecer que o racismo, ou seja, a crença na inferioridade fundamental de homens e mulheres negros, estava profundamente enraizado em sua mentalidade", observa Agnès Delahaye. "Para eles, não havia contradição em defender um universalismo que excluía os negros, assim como excluía as mulheres."

Ao longo do século XIX, negros livres, libertos e descendentes de pessoas escravizadas contestaram esse discurso, no qual não se viam representados. Um dos exemplos mais conhecidos é David Walker, filho de mãe livre e pai escravizado, autor do Apelo aos Cidadãos Negros do Mundo. Após citar a Declaração de Independência, Walker dirigiu-se aos americanos brancos: "Comparem suas próprias palavras às crueldades e aos assassinatos que seus pais, cruéis e impiedosos, e vocês mesmos impuseram aos nossos pais e a nós."

Povos indígenas considerados "sem fé nem humanidade"

Esse panfleto integra uma produção intelectual mais ampla que denunciava as injustiças associadas aos "Pais Fundadores". Embora alguns deles tenham demonstrado preocupação com a situação dos escravizados, "eram homens de seu tempo, convencidos de que os direitos políticos e a liberdade deveriam pertencer apenas àqueles considerados aptos a exercê-los. E os negros não faziam parte desse grupo", afirma Delahaye.

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Jefferson, por exemplo, defendia uma abolição gradual da escravidão. "Ele se perguntava o que aconteceria com os negros após a libertação e imaginava como solução um projeto de colonização que consistia em enviá-los de volta à África", explica a pesquisadora. "Não havia qualquer intenção de promover integração."

Situação semelhante atingia outro grupo praticamente ausente no museu virtual: os povos indígenas. Dizimados por doenças trazidas pelos colonizadores europeus, privados de suas terras e constantemente deslocados, eles também foram vítimas da visão racializada compartilhada por muitos dos chamados "Pais Fundadores".

"No caso dos povos indígenas, coexistiam inicialmente as figuras do 'bom selvagem' e do 'selvagem bárbaro', para usar os termos de Rousseau", explica Delahaye. "Durante o período revolucionário, essa visão racializada se fortaleceu e aparece claramente na própria Declaração de Independência."

No documento, os signatários acusam o rei da Inglaterra de incentivar "os selvagens indígenas impiedosos" a atacar as fronteiras das colônias, descrevendo suas práticas de guerra como destruição indiscriminada de pessoas de todas as idades e condições.

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Os líderes revolucionários temiam particularmente que britânicos e franceses utilizassem nações indígenas contra suas tropas. Em carta de 7 de junho de 1775, John Adams descreveu os indígenas como homens que conduziam guerras "sem fé ou humanidade", comparando-os a "cães de caça" que "escalpelavam homens e massacravam mulheres e crianças".

Essa visão desumanizadora somava-se à obsessão expansionista de muitos "Pais Fundadores". Em 1803, Jefferson comprou a Luisiana de Napoleão Bonaparte, episódio celebrado por seu avatar virtual: "A expansão para o Oeste era vital para a saúde e a prosperidade desta nação."

No mesmo ano, em carta ao governador do Território de Indiana, William Henry Harrison, Jefferson defendia o uso do comércio como forma de levar os povos indígenas ao endividamento. "Observamos que, quando essas dívidas ultrapassam a capacidade de pagamento, eles acabam dispostos a quitá-las por meio da cessão de terras", escreveu.

A narrativa apresentada pelo museu ignora ainda os incêndios, saques, massacres, deslocamentos forçados e outras consequências das guerras de expansão territorial que afetaram centenas de milhares de indígenas.

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Uma história sem contexto

"O museu virtual de Trump não tem rigor histórico. Sua lógica é construir uma narrativa nacional higienizada e sem contexto", analisa Agnès Delahaye.

Segundo a pesquisadora, ao fazer de 1776 o ponto de partida absoluto da história americana, a iniciativa apaga séculos de história colonial. Essa visão ignora décadas de pesquisas que buscaram revisar e complexificar tanto a cronologia da fundação dos Estados Unidos quanto a trajetória das personalidades envolvidas nesse processo.

"Aqueles que a narrativa nacional transformou em 'Pais Fundadores' também sabiam promover sua própria imagem", observa. Benjamin Franklin, por exemplo, foi durante sua permanência na França o americano mais famoso do país e chegou a mandar cunhar medalhas com seu retrato para aumentar sua popularidade.

Para Delahaye, o museu digital é mais um capítulo da ofensiva de Donald Trump contra o que ele chama de "wokismo". Em março de 2025, o New York Times revelou uma lista de termos que diversas agências federais deveriam evitar, entre eles "negros", "nativos americanos", "opressão", "mulheres" e "discriminação".

Com esse espetáculo memorial, Donald Trump não cria uma nova versão romantizada da história americana. O que faz é desmontar décadas de pesquisa acadêmica que procuraram questionar e estudar uma herança nacional frequentemente idealizada, substituindo esse debate por um discurso identitário cada vez mais explícito.

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