O difícil e longo trabalho de apoio às crianças traumatizadas pelos terremotos na Venezuela

Um estádio transformado em abrigo para vítimas: em La Guaira, a ONU administra um acampamento para pessoas deslocadas pelos terremotos que atingiram a Venezuela, onde muitas famílias com crianças estão aglomeradas desde 24 de junho. Além da ajuda material, uma das prioridades das organizações humanitárias agora é oferecer apoio psicológico às crianças afetadas pela tragédia.

3 jul 2026 - 11h13

Melissa Barra e Jad El Khoury, enviadas especiais da RFI a La Guaira

Criança sobrevivente é examinada em hospital de campanha em La Guaira. (02/07/2026)
Criança sobrevivente é examinada em hospital de campanha em La Guaira. (02/07/2026)
Foto: © Adriano Machado / REUTERS / RFI

Andreina, mãe de três filhos, observa a caçula de cinco anos, entretida com cordas que encontrou. "Ontem, ela caiu no choro. Ela me disse que estava aliviada por ainda me ter. Ela conheceu uma menina aqui que perdeu a mãe o pai", conta ela, à reportagem da RFI. "É muito difícil. Soube que meus sobrinhos morreram, mas não tenho coragem de contar à minha filha. O choque seria forte demais para ela suportar agora", completa Andreina.

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À sombra de um grande galpão, dezenas de crianças jogam futebol, desenham ou participam de jogos em grupo. Elas são supervisionadas por profissionais da infância, sob a coordenação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A entidade estima em 680 mil o número de crianças que precisam de ajuda humanitária no país.

"Há trauma, sim. Percebemos isso nos desenhos delas", explica Johana Gando, psicóloga da ONG venezuelana Fundainil. "Elas desenham famílias e casas. Algumas crianças desabam emocionalmente enquanto desenham, porque o evento traumático vem à tona", indica a profissional.

A psicóloga diz que a equipe evita fazer perguntas sobre o que aconteceu ou se as crianças perderam familiares. "Nosso trabalho é apoiá-las e oferecer ferramentas para que lidem com suas emoções."

Crianças 'não compreendem o que aconteceu'

Roberto Benes, diretor regional do Unicef para a América Latina, salienta que a ocorrência de dois tremores de terra, a intervalos curtos de tempo, fez disparar a necessidade urgente de apoio. "Há uma necessidade imediata de acesso à assistência médica e apoio psicossocial, mas, acima de tudo, de acesso à água potável, que é absolutamente fundamental. Em segundo lugar, observei que as crianças estão reunidas, sendo cuidadas por profissionais de assistência social e em processo de recuperação. No entanto, o impacto do trauma causado pelo terremoto é significativo e não deve ser subestimado", ressalta.

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Segundo Claudia Gonzalez Pacheco, chefe de Relações Externas da ONG World Vision Venezuela, "essas crianças não entendem o que aconteceu, mas estão aterrorizadas". "Qualquer movimento ou ruído repentino as deixa em estado de alerta máximo e as apavora", explica.

"Ontem, houve uma tempestade aqui na Venezuela, e meu neto de dois anos começou a tremer todo por causa dos trovões. Esse duplo terremoto teve um impacto emocional devastador", ressalta Claudia Gonzalez Pacheco. "O trauma se manifesta tanto de imediato quanto a longo prazo - ainda mais se pensamos que a Venezuela não se recuperará dessa tragédia em questão de semanas, mas sim meses ou até anos."

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