Cepa rara, vacina, médico infectado e reunião de emergência da OMS: tudo sobre o surto de ebola

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou nesta terça‑feira (19) que avalia o uso de vacinas candidatas e tratamentos já disponíveis para conter a epidemia de ebola na República Democrática do Congo (RDC). A doença, causada pela cepa Bundibugyo, ausente há 14 anos, já está associada a 131 mortes. O vírus avança pelo leste do país, com novos focos e a infecção de um médico norte‑americano, enquanto autoridades reforçam medidas de prevenção e governos estrangeiros ampliam controles sanitários.

19 mai 2026 - 09h27

Com informações de Paulina Zidi e Pascal Mulegwa, correspondentes da RFI em Kinshasa, e AFP

Um agente de saúde de fronteira no posto de travessia de Busunga, entre Uganda e a República Democrática do Congo, verifica a temperatura de um viajante usando um termômetro infravermelho sem contato em Bundibugyo, em 18 de maio de 2026.
Um agente de saúde de fronteira no posto de travessia de Busunga, entre Uganda e a República Democrática do Congo, verifica a temperatura de um viajante usando um termômetro infravermelho sem contato em Bundibugyo, em 18 de maio de 2026.
Foto: © BADRU KATUMBA / AFP / RFI

A doença se espalha sobretudo na província de Ituri, no nordeste da RDC, na fronteira com Uganda. A representante da OMS no país, Anne Ancia, afirmou em videoconferência a partir de Bunia que um grupo consultivo técnico se reuniria ainda hoje para formular novas recomendações sobre o uso de imunizantes e terapias experimentais.

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O Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica (INRB), em Kinshasa, sequenciou o vírus e confirmou a cepa Bundibugyo. A análise também indica que o surto de 2026 não tem ligação com os registrados em 2007 e 2012. Segundo o instituto, a doença voltou a atravessar a barreira entre espécies, com uma nova transmissão de animal para humano - dinâmica que historicamente marca o comportamento do ebola.

O professor Jean‑Jacques Muyembe, diretor do INRB e codescobridor do vírus, afirmou que ainda não foi identificado o reservatório animal responsável pela transmissão inicial. "Para o momento, não colocamos realmente a mão no reservatório animal", disse. Ele lembrou que morcegos continuam sendo os principais suspeitos. "Como aqui na RDC se consome muito morcego, isso pode ser a causa desta epidemia", sublinhou.

Muyembe destacou que, apesar da ausência de tratamento ou vacina específica para a cepa Bundibugyo, há caminhos possíveis. "Vamos implementar protocolos para testar candidatos a vacina e ver se podemos obter proteção cruzada."

O pesquisador explicou que a estratégia é utilizar ferramentas já eficazes contra outras variantes do ebola para avaliar seu impacto sobre as novas contaminações. A cepa Bundibugyo não era registrada em uma epidemia havia 14 anos, o que torna as pesquisas ainda mais urgentes. A OMS reforça que a análise de vacinas candidatas deve considerar segurança, disponibilidade e logística de aplicação em áreas remotas.

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Dois novos focos e avanço da epidemia 

Segundo dados do Ministério da Saúde da RDC, há 435 casos suspeitos e 116 mortes prováveis pela doença, causada por vírus transmitido por contato direto com fluidos corporais. A epidemia avança nas províncias de Ituri e do Norte‑Kivu, no leste do país, com novos focos identificados nesta semana. Em Ituri, a infecção de um médico norte‑americano após atendimento a pacientes levou à quarentena de familiares e ampliou a preocupação internacional.

Após solicitação de autoridades dos Estados Unidos, o governo alemão confirmou nesta terça‑feira (19) que aceitou receber e tratar o paciente. As providências para o traslado estão em curso, embora o local de internação e a data da transferência não tenham sido divulgados. Outras seis pessoas também devem ser evacuadas da região, segundo o site especializado Stat, possivelmente cidadãos norte‑americanos.

Na ausência de vacina ou tratamento homologado para a cepa Bundibugyo, as autoridades congolesas reforçam medidas de prevenção. "Sem pânico. Incentivamos a observar as medidas para impedir a propagação e o contágio", declarou o porta‑voz do governo, Patrick Muyaya. Ele pediu que a população evite contatos físicos, inclusive com mortos em rituais tradicionais, e reduza aglomerações.

Caso leva EUA a reforçar restrições

Em reação ao surto, Washington anunciou na segunda‑feira (18) o reforço de controles sanitários. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) determinaram restrições de entrada para estrangeiros que tenham viajado nos últimos 21 dias pela RDC, Uganda ou Sudão do Sul, as principais áreas afetadas pela epidemia.

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A decisão reacende o debate sobre protocolos de contenção internacional em surtos de ebola, sobretudo diante do risco de exportação de casos. Em epidemias anteriores, medidas semelhantes foram adotadas para conter a disseminação do vírus, embora especialistas ressaltem que o risco de transmissão aérea é extremamente baixo e que o controle depende principalmente da resposta local.

OMS avalia vacinas candidatas

A OMS afirma que está examinando quais vacinas candidatas poderiam ser utilizadas nesta epidemia. A organização já dispõe de experiência acumulada com imunizantes usados em surtos anteriores, como o rVSV‑ZEBOV, eficaz contra a cepa Zaire, mas cuja proteção contra Bundibugyo ainda precisa ser avaliada. A possibilidade de proteção cruzada é vista como uma das poucas alternativas imediatas.

A vigilância epidemiológica também foi reforçada nas zonas de mineração de Mongwalu, ao norte de Bunia, onde há intensa circulação de trabalhadores e risco elevado de disseminação. Autoridades tentam rastrear contatos, isolar casos suspeitos e ampliar campanhas de informação, mas enfrentam desafios logísticos, estradas precárias e desconfiança de parte da população.

A OMS alerta que a evolução da epidemia dependerá da rapidez na identificação de casos e da adesão às medidas de prevenção. A presença de profissionais estrangeiros infectados aumenta a pressão internacional por respostas coordenadas e acelera discussões sobre o uso emergencial de vacinas experimentais.

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