Sistema que protege contra ataques do Norte está sendo transferido para o Oriente Médio, segundo imprensa dos EUA. Especialistas veem pressão para que Seul atue por conta própria.Em meio à guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, a Coreia do Sul corre o risco de se ver descoberta da proteção antimísseis contra a o regime norte-coreano. Enquanto a imprensa cita indícios de que os EUA estão retirando seu sistema de defesa para reforçar capacidades no Oriente Médio, a Coreia do Norte lança novos ataques sobre o Mar do Japão.
No sábado (14/03), o Norte lançou uma salva de dez mísseis sob a vigilância do líder Kim Jong-un, coincidindo com o início de grandes exercícios militares conjuntos entre EUA e Coreia do Sul.
Citando autoridades norte-americanas, o jornal americano The Washington Post reportara dias antes que o Pentágono vinha transferindo baterias antimísseis Patriot e THAAD (Terminal High-Altitude Area Defense, na sigla em inglês) das Forças dos EUA na Coreia (USFK) para o Oriente Médio.
Também a mídia sul-coreana relatou um número incomum de voos de aviões de transporte militar dos Estados Unidos na Base Aérea de Osan, embora Washington mantenha sigilo sobre suas ações.
"O USFK pode enviar alguns sistemas de defesa aérea para o exterior de acordo com as próprias necessidades militares", disse o presidente Lee Jae-myung em 10 de março. "Embora tenhamos expressado nossa oposição, a realidade é que não podemos impor totalmente nossa posição."
Defesa aérea voltará à Coreia?
Em editorial publicado na quarta-feira, o Korea Herald afirmou: "As baterias Patriot e THAAD são centrais para o escudo EUA-Coreia do Sul contra mísseis balísticos norte-coreanos, portanto sua retirada teria sérias implicações de segurança para Seul."
Outra preocupação é que estes sistemas talvez não retornem à Coreia do Sul quando a crise no Oriente Médio diminuir, já que o governo do presidente Donald Trump pressiona aliados a assumir mais responsabilidade pela própria defesa. Os EUA implantaram baterias THAAD na Coreia do Sul em 2017, citando a ameaça do Norte.
"É um problema, e parece haver pouco que o governo possa fazer", afirmou Choo Jae-woo, professor de política externa da Universidade Kyung Hee, em Seul. "No passado, tínhamos confiança de que a Coreia do Sul estava em boas mãos quando se tratava de nos defendermos do Norte. Mas hoje sabemos que o Norte tem mísseis melhores e em maior número, e as defesas dos EUA desapareceram, então as pessoas estão ansiosas."
Considerando o estilo de Trump para a política internacional, Choo acredita que não devolver os sistemas de defesa aérea após a crise no Oriente Médio poderia servir como mecanismo de pressão sobre Seul. A Casa Branca poderia, assim, ter maior vantagem para conseguir o que deseja em questões comerciais ou investimentos sul-coreanos nos EUA.
Trump pede apoio no Irã
Os relatos sobre a redistribuição das baterias de mísseis surgem enquanto o conflito no Oriente Médio mostra poucos sinais de arrefecimento. Trump pediu a aliados, incluindo a Coreia do Sul, ajuda para proteger embarcações no estratégico Estreito de Ormuz contra ataques iranianos.
Apesar de o americano afirmar que os EUA "destruíram 100% da capacidade militar do Irã", Teerã ainda pode atingir petroleiros de movimento lento no estreito com drones, barcos não tripulados e outros projéteis.
"Espero que China, França, Japão, Coreia do Sul, Reino Unido e outros, que são afetados por essa restrição artificial, enviem navios para a área, para que o Estreito de Ormuz deixe de ser uma ameaça por parte de uma nação totalmente decapitada", escreveu Trump na própria rede social.
Para Lim Eun-jung, professora de estudos internacionais na Universidade Nacional de Kongju, há pouca disposição para enviar militares sul-coreanos ao conflito.
"Esse pedido está deixando as pessoas muito desconfortáveis", afirmou. "O que está acontecendo no Oriente Médio não é irrelevante para nós, porque recebemos grande parte de nossa energia da região, mas ninguém aqui quer ser arrastado para esse conflito."
Sul em defesa própria
As Forças Armadas sul-coreanas têm avançado na defesa própria contra ameaças do Norte, destaca Lim. Isso inclui o sistema de defesa aérea Cheongung-II, desenvolvido domesticamente e vendido aos Emirados Árabes Unidos, que tem tido bom desempenho ao interceptar mísseis e drones iranianos.
"O Cheongung é frequentemente descrito como o sistema Patriot da Coreia do Sul, e tem operado com 95% de precisão nos Emirados, o que me dá confiança, porque ele também está implantado em nossas linhas de frente", disse ela.
Mesmo assim, a analista ressaltou que os sistemas dos EUA adicionam camadas importantes de profundidade defensiva.
Embora o presidente dos EUA seja "imprevisível", Lim continua confiante de que os sistemas Patriot e THAAD serão enviados de volta à Coreia do Sul no futuro. Eles servem "para garantir o equilíbrio de poder na região" e "assegurar que a Coreia do Norte não tome uma decisão equivocada e que a China não pressione demais."
Oficialmente, o gabinete presidencial da Coreia do Sul diz estar "deliberando cuidadosamente" uma resposta ao pedido de Trump por ajuda no Estreito de Ormuz.