A rejeição entre o eleitorado brasileiro se tornou fator-chave para definir o candidato a presidente que vai vencer a eleição no segundo turno, avaliam especialistas consultados pelo Terra. O pleito, marcado para o último domingo do mês, dia 25 de outubro, é disputado por Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A pesquisa Datafolha, divulgada em 8 de outubro, mostra Lula com 46% de rejeição, enquanto Flávio registra 43%. Outros 3% disseram rejeitar ambos os candidatos, enquanto 8% afirmaram não rejeitar nenhum dos dois. No levantamento anterior, de 24 de setembro, ambos os candidatos apareceram com 45%. O cenário é de empate técnico.
Já na Indexa/Broadcast, de 30 de setembro, antes do primeiro turno das eleições, Flávio tinha 51% de rejeição e Lula, 50%. A Quaest, de 28 de setembro, apontou Flávio com 56%, já Lula com 54% de eleitores que afirmaram não votar nele de jeito nenhum.
"A rejeição será um dos fatores importantes desta reta final, mas não deve ser analisada isoladamente. O dado mais significativo das pesquisas recentes é que tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro apresentam níveis elevados de rejeição. Ou seja, existe um eleitorado expressivo que manifesta resistência a ambos os candidatos. No segundo turno, portanto, a disputa tende a ser também uma disputa pela redução da rejeição", afirma Luciano Gomes dos Santos, professor de Ciências Sociais do Centro Universitário Arnaldo Janssen, de Belo Horizonte.
Segundo o especialista, para o segundo turno, cada campanha terá o desafio de ampliar sua capacidade de diálogo com eleitores que não estão plenamente identificados com nenhum dos dois projetos. "Isso significa que o voto pode ser definido tanto pela preferência por um candidato quanto pela intenção de evitar a eleição do outro."
A pesquisa Indexa/Broadcast mostra essa dinâmica, de acordo com Santos: 38% dos entrevistados dizem escolher o candidato de sua preferência, enquanto 22% afirmam votar para evitar que o outro seja eleito. Outros 32% consideram os dois motivos igualmente importantes.
Luciano ainda detalha que a rejeição funciona como um teto potencial para o crescimento eleitoral, mas também pode ser mobilizada pelas campanhas por meio do chamado voto negativo ou voto útil. "Em uma eleição tão equilibrada, a capacidade de cada candidatura de conquistar os eleitores que votaram em outros candidatos no primeiro turno, além daqueles que podem optar pelo branco, nulo ou pela abstenção, será fundamental."
A doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) Mariana Chaise lembra que a alta rejeição dos candidatos esteve presente em pleitos anteriores, como em 2018 e 2022, mas a novidade desta vez gira em torno da simetria da rejeição entre Flávio e Lula. "Por isso que a eleição talvez seja decidida, em certo sentido, por aquele que for bem sucedido em aumentar a rejeição do oponente nas próximas semanas."
Beny Fard, analista geopolítico e macroeconômico e sócio da Segundo Minuto, também destaca que agora a estratégia "deixa de ser propositiva e vira de atrito, com cada lado trabalhando para elevar a rejeição do outro", mas ressalta o risco democrático disso.
"Campanha movida a rejeição produz governo sem mandato programático, ou seja, quem vencer chega ao Planalto eleito contra alguém e não eleito para fazer algo. E um governo assim nasce com baixa capacidade de aprovar reformas difíceis, justamente num País que precisa enfrentar a questão fiscal, a reforma administrativa e a segurança jurídica", pontua Fard.
Outros elementos também podem impactar
Conforme especialistas, outros fatores também podem influenciar o resultado final da disputa presidencial. Mayra Goulart, coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (LAPPCOM) e professora de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca a abstenção.
O primeiro turno das eleições registrou abstenção de 21,08%, segundo os dados divulgados após a votação pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). "A abstenção é um fator que sempre pode impactar nesse momento. Historicamente, afeta mais as classes populares, portanto preferencialmente o eleitor de Lula, mas é possível reverter isso com maior engajamento", comenta Mayra.
Na avaliação de Mariana Chaise, é possível que as campanhas se concentrem na tentativa de organizar esse eleitorado que se absteve de votar. "Para essa população, talvez as retóricas do medo da vitória eventual de um ou outro funcione como um estímulo de mobilização, ou as campanhas se concentrando menos em ataques ao adversário e mais em propostas substantivas também seja um eventual elemento de mobilização desse eleitorado que não votou."
Para Luciano Gomes dos Santos, a transferência dos votos dos candidatos derrotados no primeiro turno também pode ser decisiva. "Esses eleitores não necessariamente seguirão automaticamente as orientações de seus antigos candidatos ou partidos. Haverá uma disputa pela adesão de um eleitorado que pode estar menos ideologicamente comprometido e mais interessado em questões específicas", afirma.
Além desses, o professor cita outros fatores importantes nesta segunda etapa: a avaliação do governo Lula e a capacidade de Flávio de apresentar uma alternativa política; a formação das alianças políticas; e a campanha eleitoral, ou seja, debates, propaganda de rádio e televisão, redes sociais, comunicação digital e a capacidade de responder rapidamente a ataques e fatos novos.
"O segundo turno tende a ser uma disputa de consolidação, expansão e mobilização. Não basta manter o eleitorado já conquistado. Cada candidatura precisará preservar sua base, buscar os votos dos candidatos que ficaram pelo caminho, dialogar com eleitores menos alinhados e, ao mesmo tempo, administrar seus elevados índices de rejeição. As pesquisas mais recentes mostram um cenário muito próximo, razão pela qual pequenas mudanças no comportamento dos eleitores podem alterar significativamente as intenções de voto ao longo das próximas semanas", analisa Santos.