O apoio do ex-presidente Michel Temer (MDB) a Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial passou a ser interpretado por integrantes do PT e aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como parte de uma possível articulação envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O grupo acredita que Temer teria negociado uma alternativa para evitar um eventual processo de impeachment contra Moraes caso Flávio seja eleito presidente da República.
O Terra entrou em contato com a assessoria de Michel Temer, mas não obteve retorno sobre o assunto.
Temer foi responsável pela indicação de Moraes ao STF, em 2017. O ex-presidente anunciou o apoio a Flávio na segunda-feira, 5, em um vídeo publicado nas redes sociais, no qual afirmou que o eleitorado demonstrou nas urnas o desejo de “mudança”.
O advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha de Lula, defende que, na avaliação dele, uma declaração pública de Temer não teria ocorrido sem uma negociação política.
"O Temer nunca fez absolutamente nada de graça na vida. Ele é um 'velhaco' da política e uma das figuras mais sinistras da política brasileira. A história nos mostra exatamente isso. Quem conhece ele, sabe que ele jamais, em nenhuma circunstância, faria uma declaração como essa, sem negociar as circunstâncias dessa declaração. Vamos lembrar que o Alexandre de Moraes foi indicado por ele ao STF", disse em contato com a reportagem.
Um integrante da comunicação do PT preferiu não comentar o que poderia ter motivado o apoio de Temer a Flávio, mas afirmou que o segundo turno deve deixar mais claras as posições dos candidatos e seus objetivos na disputa.
"No segundo turno as máscaras caem e a real intenção dos candidatos se revelam. A sociedade vai percebendo quem realmente quer que se investigue tudo e a todos, doa a quem doer", afirmou. "E quem quer vencer as eleições para se blindar, salvar a própria pele e impedir investigação sobre os amigos avance."
Gutierres Barbosa, coordenador inter-religioso do PT, também preferiu não apontar especificamente a possibilidade de uma negociação entre Temer e Flávio. Ele afirmou, porém, que o apoio do ex-presidente ao candidato do PL não é uma surpresa e avaliou que os dois compartilham os mesmos ideais. "Agora é evidente que cada candidatura procure seus apoios. Não é novidade que Temer apoie Flávio Bolsonaro", avaliou. "Não dá para se esperar nada deles, são farinha do mesmo saco. Mas sobre a motivação é melhor saber dele."
Especialista avalia hipótese de aproximação
Para a especialista em Direito Constitucional Vera Chemim, o movimento de Temer pode ser compreendido como uma tentativa de estabelecer diálogo com Flávio e seu entorno diante do cenário eleitoral.
"Temer é conhecido por tentar apagar qualquer sinal de incêndio, antes que ele se propague e se torne irreversível. Nesse caso, Temer enquanto 'raposa velha da política' já sabe que Flávio Bolsonaro tem todas as possibilidades de se tornar o próximo presidente da República e já entabula um diálogo com Flávio e o seu entorno, visando negociar temas de seu interesse político, utilizando a sua capacidade de retórica e de persuasão para acomodar os ânimos acirrados pelo PT e, principalmente por seu discípulo, Alexandre de Moraes", analisou.
Segundo Chemim, a aproximação também pode ser analisada a partir da relação entre o bolsonarismo e o STF, especialmente diante dos conflitos envolvendo Moraes. Nesse sentido, ela avalia que o apoio pode funcionar como uma tentativa de reduzir as tensões entre os dois grupos.
"De outro [lado], há que se reconhecer aquela aproximação como uma forma de minimizar os conflitos entre o bolsonarismo e o STF, especificamente, os que remetem ao protagonismo de Moraes."
A especialista avalia ainda que, em um eventual governo de Flávio, a possibilidade de um processo de impeachment contra Moraes não deixaria de estar em discussão. Para Chemim, um eventual acordo político em torno do ministro poderia afetar a "credibilidade" de Flávio perante os eleitores.
"A única possibilidade de Moraes escapar de um processo de impeachment seria a de renunciar ao seu cargo no STF, antes ou logo após a posse de Flávio Bolsonaro e dos senadores, a ser concretizada em 2027", argumentou Chemim, ao considerar um possível cenário de vitória do candidato do PL, que neste ano ampliou sua bancada no Congresso, especialmente no Senado.
Moraes e o elo com o Banco Master
O nome de Moraes voltou ao centro do debate político nos últimos meses por causa das investigações sobre o Banco Master. A Polícia Federal encontrou, durante a quebra do sigilo do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, mensagens enviadas a um contato atribuído ao ministro do STF. O relatório da PF apontou dezenas de mensagens que teriam sido enviadas por Vorcaro a Moraes e indicou uma relação de proximidade entre os dois.
Em uma das mensagens recuperadas, Vorcaro teria pedido a Moraes que interviesse com a PF e com a Procuradoria-Geral da República (PGR) para travar as investigações acerca do banco Master. Em outro trecho, segundo o relatório, o ex-banqueiro teria buscado informações sobre uma operação que poderia resultar em sua prisão. O material também menciona um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.
A divulgação das mensagens provocou uma crise interna no STF e levou o plenário da Corte a analisar se Moraes poderia ser investigado por sua suposta relação com Vorcaro. A PGR questionou a forma como a apuração foi conduzida, enquanto o presidente do STF, Edson Fachin, afirmou que os fatos deveriam ser analisados dentro dos procedimentos institucionais.
Relação entre Temer e Moraes
A relação entre os dois nomes remonta à indicação de Moraes para o STF. Em fevereiro de 2017, quando Temer ocupava a Presidência da República, ele indicou o então ministro da Justiça para a vaga aberta após a morte de Teori Zavascki. O nome foi posteriormente votado e aprovado pelo Senado.
Em setembro de 2021, Temer afirmou, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, que não se arrependia de ter votado em Jair Bolsonaro (PL) na eleição de 2018. "Eu não me arrependo, eu nunca me arrependo do que faço", disse na ocasião.
Já em 2024, Temer afirmou que a Polícia Federal havia "levantado indícios fortíssimos" nas investigações sobre os atos golpistas após a eleição de 2022. Bolsonaro acabou condenado posteriormente pelo STF por tentativa de golpe de Estado. Neste ano, no entanto, ele anunciou apoio a Flávio Bolsonaro.