O primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República, promovido pela Band em parceria com o Estadão no domingo, 23, foi marcado mais pelas ausências e pelos ataques do que pelo confronto entre os principais nomes da corrida eleitoral. Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) não participaram do encontro, enquanto Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) protagonizaram 1h40 de discussões com diferentes estratégias. Entre críticas aos ausentes, ameaça de boicote e momentos de tensão, cinco pontos resumem o debate.
Momento da Decisão vai colocar frente a frente os principais candidatos à Presidência no dia 14 de setembro, às 22h, em debate promovido pelo Terra e outros 10 veículos
Desistências: Lula, Flávio e Zema
Lula decidiu não participar após criticar a presença de Zema e Renan Santos no encontro. A legislação eleitoral, porém, não obriga as emissoras a convidarem todos os candidatos: a regra prevê a participação de postulantes cujos partidos tenham pelo menos cinco representantes no Congresso Nacional, considerando a composição eleita em 2022.
Flávio também não compareceu. O candidato do PL havia afirmado que não participaria de um debate sem a presença de Lula, com quem aparece tecnicamente empatado em um eventual segundo turno na última pesquisa Datafolha, divulgada na sexta-feira, 21.
As ausências acabaram transformando os dois principais nomes da disputa nos principais alvos dos candidatos presentes. Ao longo do encontro, Lula e Flávio foram citados com ênfase por Renan, e timidamente por Caiado e Cury.
Ameaça de boicote: Augusto Cury
Antes do debate, Augusto Cury protagonizou um dos momentos mais inesperados da noite. O candidato inicialmente decidiu não entrar na Band e fez uma transmissão do lado de fora da emissora, em protesto contra a entrevista de Lula à Record no mesmo horário do debate.
“Estou magoado com essa polarização, que adoeceu o Brasil”, afirmou Cury durante a transmissão. O empresário Pablo Marçal chegou a participar do vídeo e criticou a decisão da Record de exibir a entrevista de Lula simultaneamente ao debate.
Pouco antes do início do encontro, porém, Cury mudou de ideia e entrou nos estúdios da Band. Ao explicar posteriormente sua decisão, afirmou que o gesto havia sido motivado por “respeito ao jornalismo” e classificou a situação como um “gesto de dor”.
Tom assustador: Renan Santos
Renan Santos foi quem adotou o tom mais agressivo durante o debate. O candidato do Missão concentrou boa parte de suas falas em ataques a Lula e Flávio, que não estavam no estúdio, e chegou a chamar os dois de “covardes” e “canalhas”.
Em um dos momentos mais duros, Renan também criticou eleitores de Lula e afirmou que não queria o voto de parte deles. A postura provocou a reação de Augusto Cury, que disse ter ficado “assombrado” com a agressividade do adversário e defendeu que críticas fossem direcionadas às ideias, e não às pessoas.
Fora do debate, Renan também havia levado uma fralda com os nomes de Lula e Flávio para provocar os dois candidatos ausentes. Na chegada à Band, chamou os adversários de “dois fracassados, dois medrosos”.
Denúncias contra bancos: Master e Digimais
Um dos momentos mais duros contra os ausentes ocorreu quando Renan Santos aproveitou o debate para atacar a Record, que exibia simultaneamente uma entrevista de Lula. “A Record está se comportando como moleque, se entregando ao Lula porque, aparentemente, está envolvida no escândalo do Digimais”, afirmou.
O candidato fez referência às investigações da Polícia Federal (PF) sobre o Banco Digimais, controlado por Edir Macedo. A Operação Miragem, deflagrada em junho de 2026, apura suspeitas de fraudes financeiras, maquiagem de balanços e ocultação de dívidas envolvendo a instituição.
O episódio também foi um dos poucos momentos em que Caiado abandonou o tom mais institucional adotado durante boa parte do debate e elevou as críticas aos candidatos ausentes. Ao questionar por que Lula e Flávio não haviam comparecido, o candidato do PSD afirmou que os dois não queriam discutir as denúncias que os atingem. Em uma referência aos adversários, citou o “Dark Horse” de Flávio e o “Dark Lobby” de Lula, em referência ao filho mais velho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, investigado por suspeitas de tráfico de influência.
Críticas a Lula e Flávio
A ausência dos dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas acabou dominando boa parte do debate. Caiado afirmou que Lula e Flávio “deram um tiro no pé” ao não comparecerem e disse que a decisão seria recebida pelos eleitores como “uma afronta” e um “desrespeito à sociedade brasileira”.
Questionado se considerava estar disputando a eleição contra Lula e Flávio, Caiado foi direto: “Eu não disputo com fujões.” O candidato chegou a afirmar que os dois sequer deveriam ter o registro de candidatura mantido diante da ausência no debate.
Renan Santos também direcionou seus principais ataques aos dois. Com Lula e Flávio fora do estúdio, o debate acabou funcionando, em grande medida, como um confronto indireto contra os dois principais nomes da corrida presidencial.