A disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) tende a ser marcada menos pela adesão a propostas e mais pela capacidade de cada candidato de explorar a rejeição ao adversário, segundo avaliações de dirigentes de institutos de pesquisa durante participação no 25º Fórum Lide Empresarial, realizado no Rio de Janeiro.
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Para Murilo Hidalgo, diretor do Paraná Pesquisas, Flávio vive um momento de aproximação com Lula e as próximas sondagens podem registrar novamente empate técnico entre os dois. Já Andrei Roman, CEO da AtlasIntel, considera que o presidente ainda parte de uma posição mais favorável, mas afirma que a rejeição será um dos principais fatores para determinar o resultado das urnas.
As pesquisas divulgadas nas últimas semanas mostram uma redução da distância entre os dois. Na primeira pesquisa Datafolha após o início oficial das campanhas eleitorais, divulgada na sexta-feira, 21, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 47% das intenções de voto contra 43% de Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno. O número de possíveis brancos e nulos foi de 9%, enquanto 2% não soube responder.
Para Hidalgo, Lula enfrenta um momento de desgaste provocado por denúncias envolvendo seu grupo político. “Eu vejo que é um momento do Flávio Bolsonaro”, avaliou, mas com a ressalva que não é possível projetar se a tendência permanecerá nas próximas semanas.
O pesquisador, porém, considera que o cenário ainda está longe de indicar um vencedor. Para ele, a eleição atualmente caminha para um segundo turno, e a definição deverá ocorrer apenas na reta final da campanha.
Rejeição pode pesar mais que propostas
Apesar das diferenças nas avaliações sobre o momento de Lula e Flávio, Hidalgo e Roman apontam para uma característica semelhante do eleitorado: a importância da rejeição na escolha do voto.
Para Roman, a política brasileira tem sido cada vez mais movida pela rejeição ao adversário, em detrimento da avaliação de projetos de governo. Na eleição de 2022, segundo ele, a vitória de Lula teria sido influenciada menos por uma adesão majoritária à sua candidatura e mais pela rejeição a Jair Bolsonaro (PL), principalmente diante da sua postura na pandemia da covid-19.
A lógica, segundo o CEO da AtlasIntel, pode se repetir em 2026. “A questão da rejeição poderá muito bem determinar quem vencerá”, avaliou. Neste cenário, a corrupção aparece como uma das principais armas de desconstrução dos adversários. Segundo Roman, o tema historicamente mobiliza eleitores bolsonaristas contra Lula e, atualmente, o escândalo envolvendo o Banco Master representa um dos principais pontos de pressão sobre Flávio.
Hidalgo também critica o que considera excesso de foco das campanhas nas denúncias. Para ele, a eleição tem sido pautada pela tentativa de associar adversários à corrupção, enquanto propostas para problemas concretos da população ainda ocupam pouco espaço. "A eleição no Brasil está indo para um
caminho muito ruim, ao nosso ver. Porque o que a gente menos escuta dos candidatos são propostas. Ela tem sido pautada pela destruição em cima da palavra corrupção."
Segurança entra no radar
Além da corrupção, Roman aponta a criminalidade como outro tema capaz de alterar o nível de rejeição ao governo Lula. O CEO da AtlasIntel chama a atenção especialmente para o avanço das facções criminosas na região Nordeste. Na avaliação dele, a expansão desses grupos pode aumentar a demanda por políticas mais duras de segurança pública e produzir eventos capazes de mudar a percepção do eleitorado durante a campanha.
Economia pode ser problema para Lula
Outro ponto de convergência entre os pesquisadores é a importância da economia. Hidalgo lembra que o “bolso do eleitor” continua sendo o principal fator capaz de definir o voto. O preço dos alimentos, o endividamento das famílias e as condições econômicas do País nos meses que antecedem a votação, segundo ele, podem pesar especialmente contra o presidente, por ser o candidato que representa a continuidade do governo.
Ao mesmo tempo, Hidalgo lembra que Lula mantém uma vantagem importante em temas sociais. Ele cita medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e o Desenrola como fatores que, na avaliação do instituto, ajudaram o presidente a recuperar espaço no Sudeste.
Nordeste e Sudeste serão estratégicos
O desempenho regional também pode ser decisivo. Na avaliação de Roman, as pesquisas indicam que o governo enfrenta uma deterioração no Nordeste em relação a ciclos eleitorais anteriores e tenta compensar esse movimento com uma recuperação no Sudeste, especialmente em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Hidalgo destaca o peso do Sudeste, mas acrescenta outro fator que pode interferir no segundo turno: a possibilidade de diversos Estados encerrarem a disputa para governador já no primeiro turno, o que pode reduzir a mobilização eleitoral na segunda etapa da eleição presidencial.
Terceira via ainda tem dificuldade para romper polarização
Os dois pesquisadores também avaliam que os candidatos que tentam se apresentar como alternativas à polarização entre Lula e Bolsonaro enfrentam dificuldades para conquistar espaço. Hidalgo afirma que esses nomes ainda acabam concentrando parte significativa de seus discursos nos ataques a Lula e Flávio, em vez de apresentarem propostas capazes de mobilizar o eleitor.
O que pode influenciar a reta final?
Hidalgo avalia que novos escândalos e denúncias podem alterar rapidamente o cenário, justamente porque a campanha ainda está no início. "Quem vai ser o próximo presidente? O que a gente tem dito é que será quem não tiver a "nuvem negra" em cima de si a uma semana do segundo turno", diz ele, referindo-se a polêmicas que envolvem os candidatos e seus entornos. "Então, ao nosso ver, o grande vitorioso na eleição do Brasil vai ser quem chegar no melhor momento a uma semana das eleições, no final de outubro".
Roman também ressalta que acontecimentos capazes de aumentar a rejeição a um dos candidatos podem mudar a disputa. Apesar de considerar que Lula hoje tem uma probabilidade maior de vencer do que de perder, o CEO da AtlasIntel afirma que a redução da distância observada nas pesquisas mantém a eleição competitiva.
Ele ainda avalia que uma eventual eleição de Lula representaria, pela primeira vez em décadas, um momento de renovação para a esquerda, que precisaria buscar uma nova liderança. No campo da direita, uma eventual derrota de Flávio Bolsonaro também poderia abrir espaço para uma reorganização, diante da possibilidade de Jair Bolsonaro, Flávio, Eduardo e, provavelmente, Carlos Bolsonaro ficarem fora da política.
Nesse cenário, segundo Roman, haveria uma oportunidade de reconstrução da política brasileira sobre novas bases, com a possibilidade de evitar erros do passado e adotar uma atuação mais propositiva e de longo prazo. “Realmente focada nas demandas sociais, no potencial que o Brasil tem, que consiga resolver alguns dos desafios estruturais que a política dos últimos 20 anos não conseguiu endereçar”, afirmou.
*A repórter viajou ao Rio de Janeiro a convite da Lide Empresarial