A possível ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no debate promovido pela Band em parceria com o Estadão, neste domingo, 23, coloca a estratégia eleitoral do petista diante de uma escolha que envolve ganhos e riscos. Integrantes da campanha de Lula disseram que o presidente avalia não participar do encontro, principalmente por causa da presença dos candidatos Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) entre os convidados. Já Flávio Bolsonaro (PT) afirmou que só deve confirmar presença se Lula participar.
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Pela legislação eleitoral, as emissoras são obrigadas a convidar candidatos de partidos que tenham ao menos cinco representantes no Congresso Nacional. Para esse cálculo, são considerados os parlamentares eleitos em 2022, sem levar em conta as mudanças de legenda ocorridas durante a janela eleitoral. A legislação, portanto, não obriga a participação de Zema e Renan no debate.
Para especialistas ouvidos pelo Terra, a decisão de Lula não pode ser analisada apenas como uma tentativa de evitar confrontos. A coordenadora do Esfera Lab, Laboratório de Comunicação Política da ESPM, Adriane Buarque, avalia que a ausência nos primeiros debates pode ser uma escolha estratégica para um candidato que já aparece bem posicionado nas pesquisas.
Em uma avaliação complementar, o cientista político e professor de Sociologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), Rogério Baptistini, destaca que os debates também podem ser importantes para consolidar a imagem de Lula, apresentar resultados de governo e alcançar eleitores indecisos.
Exposição pode ajudar, mas também trazer desgaste
Na avaliação de Adriane Buarque, o momento da campanha é um fator importante para decidir se vale a pena expor Lula aos primeiros debates. "Nessa primeira fase de campanha, que é uma fase que você tem outros candidatos participando, eu não vejo uma vantagem tão grande em participar, exatamente porque como ele é governo, alguns embates vão vir maiores. Acho que quando você já está em time que se está ganhando, não mexe", afirmou.
A especialista considera que o cenário das pesquisas também influencia essa decisão. Na liderança das intenções de voto, Lula poderia encarar a participação em um debate no início da campanha como uma exposição de risco.
Rogério Baptistini, por outro lado, vê nos debates uma oportunidade para Lula reforçar sua imagem. Embora o presidente lidere as pesquisas, alguns levantamentos apontam empate técnico com Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno. Para o especialista, essa exposição pode ser aproveitada para consolidar a imagem de Lula como estadista.
"Os debates, em um ambiente saudável, são fundamentais para a democracia, pois ajudam a formar a convicção do eleitor. Na eleição, os cidadãos estão governando diretamente, e por isso devem estar bem-informados", diz Baptistini. Mas, segundo ele, o cenário atual é diferente. "O problema é que, no Brasil de 2026, os debates não são mais um espaço de formação democrática, mas um palco para espetacularização e desinformação, e Lula, como presidente, tem o direito de escolher onde e como debater."
Redes sociais mudam o peso dos debates
A mudança na forma como os eleitores consomem informação também aparece como um dos argumentos para a escolha de quais debates participar. Adriane destaca que parte do público acompanha os candidatos pelas redes sociais, e não necessariamente pela transmissão integral dos encontros.
"Você tem o eleitor que consome o conteúdo pelo debate, tem um eleitor que consome também pelas redes sociais. Acho que as redes sociais hoje é protagonista", declarou. Para ela, a campanha pode aproveitar esse ambiente para transformar propostas e respostas em conteúdos específicos, direcionados aos diferentes públicos. Trazer aquilo que seria debatido, mas em formas de conteúdo, você informa mais o seu público", disse.
Ausência pode ser interpretada como fuga?
A decisão de não participar, no entanto, também pode levar o eleitor a interpretar a ausência como uma tentativa de evitar o confronto com os adversários, segundo avaliam os especialistas. Adriane cita ainda a possibilidade de adversários explorarem temas negativos relacionados ao governo e à família do presidente durante os debates, mesmo que Lula não esteja presente para responder. Para a especialista, a resposta precisa fazer parte da própria estratégia da campanha. Em vez de deixar o argumento de que Lula "não quer participar" circular sozinho, a equipe precisa utilizar as redes sociais para explicar a escolha e apresentar propostas.
Baptistini também cita que existe risco de a ausência ser interpretada negativamente, mas considera que ele é limitado. Para ele, o contexto atual permite que Lula escolha estrategicamente em quais encontros aparecer. "O risco existe, mas é pequeno. Em 2022, como candidato de oposição contra Bolsonaro, Lula precisou reconstruir sua imagem após anos de lawfare (entraves jurídicos). Hoje, como presidente em exercício, com um mandato avaliado pela população, a seletividade nos debates não é fuga, mas estratégia."
O cientista político, entretanto, chama atenção para os diferentes perfis de eleitores. Segundo ele, eleitores progressistas podem considerar a ausência uma decisão inteligente, por entenderem que Lula não deveria validar o "baixo nível de determinados debates". Já eleitores moderados poderiam enxergar a ausência como arrogância, principalmente se a campanha não explicar claramente os motivos. Esse grupo, segundo Baptistini, seria mais vulnerável às narrativas de que Lula estaria evitando o confronto. Nesse cenário, ele também vê a comunicação da decisão um ponto central. "O mais importante é a campanha comunicar os motivos da ausência."
Escolha do debate pode ser estratégia de canal
Em vez de tratar a participação como uma decisão entre comparecer a todos ou faltar a todos, Adriane defende que a campanha avalie cada emissora e o público alcançado por cada debate. Ela considera que o perfil da audiência precisa ser levado em conta para medir o potencial de conversão de votos. Segundo a especialista, não faria sentido expor o candidato a um desgaste elevado diante de um público que já tem posição consolidada.
A estratégia, segundo ela, seria selecionar os encontros em que Lula tenha maior possibilidade de conversar com eleitores que ainda podem mudar de voto. "Por isso que eu acho que eleger alguns debates é inteligente da equipe de marketing, para realmente falar com quem você tem uma chance de converter o voto para você", disse.
2022 deixou lições diferentes para 2026
A postura adotada por Lula em 2022 diverge um pouco da campanha atual. Naquela eleição, o petista chegou a cogitar não participar de debates e sua campanha defendeu que veículos de comunicação se reunissem em um "pool" como uma das condições para sua participação.
Apesar disso, Lula participou do debate da Band e também do encontro promovido pela TV Globo. A situação agora é diferente porque ele ocupa o Palácio do Planalto e tenta a reeleição. Naquele ano, Jair Bolsonaro (PL) era o presidente e o petista ainda tentava vencê-lo no pleito.
"A lição de 2022 é que o último debate é decisivo. Nele, os eleitores indecisos prestam atenção máxima, e um deslize pode ser fatal", afirmou Baptistini. "Por isso, Lula não pode faltar ao debate final, mas deve evitar erros que possam ser explorados pela máquina de desinformação".
A outra diferença, segundo Baptistini, está no principal adversário. Para ele, Flávio representa uma situação diferente da enfrentada por Lula em 2022. "Em relação a 2022, a diferença crucial em 2026 é Flávio Bolsonaro. Ele não é só um adversário, mas o herdeiro político do projeto que culminou no 8 de janeiro, além de ser aliado aos interesses do governo dos Estados Unidos", argumentou.
Na avaliação dele, isso altera o significado da disputa. "Isso muda a natureza do debate. Já não é mais uma disputa eleitoral comum, mas uma batalha pela democracia da Carta de 1988", disse ele. "Se em 2022 Lula precisou reconstruir sua imagem, em 2026 ele precisa defender a democracia. E os debates são um campo de batalha simbólico para isso."
E se Lula e Flávio não estiverem no mesmo palco?
A polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro torna a presença dos dois especialmente relevante para o interesse do público. Segundo Baptistini, a ausência de um deles reduziria a força do encontro e abriria espaço para o adversário explorar politicamente a situação. “Um debate sem um dos principais candidatos perde relevância. O público quer ver Lula e Flávio, não um confronto entre coadjuvantes.”
Para o cientista político, caso Lula falte e Flávio participe, o candidato do bolsonarismo poderia dominar o espaço e associar a ausência do presidente a um suposto receio do confronto. Se a situação fosse inversa, Lula poderia se apresentar como o candidato mais experiente. “Se Flávio faltar e Lula participar, o presidente se posiciona como o adulto na sala, alguém com experiência, conhecimento de governo e um projeto para o país”, analisou.
Para Baptistini, a estratégia de Lula deve combinar exposição e seletividade, priorizando encontros de maior audiência. “A estratégia ideal para Lula é participar dos debates de alta audiência para neutralizar Flávio e reafirmar sua liderança, mas evitar os debates onde o risco de desgaste supera o ganho eleitoral.” A campanha do presidente avalia não participar do debate da Band em parceria com o Estadão, marcado para este domingo, mas a ausência ainda não foi oficialmente confirmada. Procurada pelo Terra, a equipe de Lula não respondeu.