Teto frágil, exemplo do pai e comodidade: como especialistas veem Flávio ir ou não aos debates

O primeiro debate com candidatos à presidência da República acontece neste domingo, 22, na Band, em São Paulo

23 ago 2026 - 04h58
Flávio Bolsonaro, candidato à presidência da República pelo PL
Flávio Bolsonaro, candidato à presidência da República pelo PL
Foto: Wilton Júnior/Estadão / Estadão

Flávio Bolsonaro (PL) quer debater com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – e a indicação de sua equipe de campanha é de que se o petista não for ao confronto, o senador também não vai. Assim, o debate promovido pela Band em parceria com o Estadão neste domingo, 23, pode ser marcado pela ausência dos dois principais candidatos à presidência da República, considerando que o petista já tinha indicou a ausência. Para cientistas políticos ouvidos pelo Terra, a estratégia da ausência pode impactar de forma específica a candidatura de Flávio, por não estar na liderança da corrida eleitoral.

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Paulo Ramirez, cientista político da Fundação de Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), avalia que a postura de Flávio pode ser interpretada como uma comodidade com o segundo lugar e o tornar alvo dos demais opositores que também almejam o segundo turno nas eleições de outubro. No caso de Lula, por ter performado em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto, a questão é outra.

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Em paralelo, Flávia Bozza, professora e cientista política da ESPM, destaca que há ‘dois lados da moeda’ na participação, ou não, de Flávio em debates. Por um lado, há a chance dele mostrar seu projeto político e o quanto é igual ao seu pai. Por outro, seu teto de vidro pode ser alvo. Assim, sem Lula no debate, ela avalia que os ônus de se fazer presente em debates podem ser maiores do que os bônus para a campanha de Flávio.

Estratégia comum – para o primeiro lugar

Paulo Ramirez explica que, historicamente, os candidatos que lideram as pesquisas evitam participar de debates. FHC, Lula e Bolsonaro já adotaram a prática, ainda que por conta do caso da facada. “Mas um segundo colocado nas pesquisas evitando participar é uma raridade”, avalia.

“Claro que em 2018 o seu pai, Jair Bolsonaro, não participou de vários dos debates, mas havia uma justificativa maior, né? Era o caso da facada, diferente do Flávio. Essas comparações certamente vão gerar um incômodo em maior parte no eleitorado moderado, dos indecisos, aqueles que ainda querem votar em nulo.”

Flávia Bozza, por sua vez, aponta que Flávio tem um teto frágil e que pode estar usando o pai de exemplo como alguém que conseguiu ir para o segundo turno faltando em debates. Por causa de polêmicas como o envolvimento com Daniel Vorcaro, do banco Master, e questões em torno do orçamento do filme Dark Horse, a exposição deve fazer Flávio ter que dar muitas explicações e ser colocado na linha de fogo.

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Pensando nisso, pode ser mais vantajoso para Flávio manter suas idas a sabatinas, onde consegue expor aspectos de seu plano de governo sem a necessidade de se ver em um debate ao vivo onde pode ser pressionado por adversários e pego desprevenido, avalia. 

Mesmo assim, para ela, optar por ir aos debates também pode ter um aspecto positivo. “A gente não pode falar que ele precisa ser conhecido, porque o nível de desconhecimento sobre ele é ínfimo, conforme as pesquisas vêm mostrando. Talvez ele pudesse mostrar um pouquinho mais no que ele se diferenciaria do pai, mas sempre pesando o que ele teria a ganhar e o que teria a perder com essa presença [nos debates]”.

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Esvaziamento e 'fogo amigo'

Lula não ir ao debate é avaliado como uma atitude acertada do ponto de vista do marketing político para os especialistas, considerando que ele deve ser o alvo dos ataques dos demais candidatos. “Não que seja louvável. São coisas diferentes”, pontua Ramirez. “Para a democracia é sempre importante que haja esses debates de ideias, de posições políticas. No entanto, o eleitorado está habituado com essa situação. O Lula não vai ser o primeiro, nem o último, na primeira colocação de intenções de voto a não querer participar”. Situação que reverbera diferente para Flávio, que está em segundo lugar. 

Isso pode, também, promover outro cenário que é vantajoso para Lula: sem o comparecimento do petista nos debates, os concorrentes que visam chegar ao segundo turno, por mais que sejam do mesmo espectro político, devem se atacar – o famoso “fogo amigo” dentro da política. 

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Já para Flávio, a sua ausência deve gerar mal-estar. “O foco dos seus concorrentes pode passe a ser mais o Flávio Bolsonaro do que o próprio Lula, já que as pesquisas de segundo turno indicam que o cenário de ser qualquer outro candidato contra Lula. Não se trata exatamente de Flávio contra Lula, mas Lula contra os demais. Então, todas as demais candidaturas são competitivas se chegarem ao segundo turno.”

A legislação eleitoral obriga as emissoras convidarem os candidatos de partidos que tenham ao menos cinco representantes no Congresso Nacional. Esse cálculo considera parlamentares eleitos em 2022, sem levar em conta as mudanças de legenda ocorridas durante a janela eleitoral. Dessa forma, a Justiça Eleitoral não obriga a participação de Zema e Renan no debate, por exemplo. Mas eles foram convidados. 

Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), pré-candidatos à Presidência da República Foto: Wilton Junior/Tiago Queiroz/Cauê Del Valle/Divulgação MBL/Taba Benedicto
Foto: Wilton Junior/Tiago Queiroz/Cauê Del Valle/Divulgação MBL/Taba Benedicto / Estadão

Debates ainda importam?

Para Paulo Ramirez, será o público moderado que vai decidir as eleições – quem ainda oscila entre Flávio e Lula –, considerando o andar das pesquisas eleitorais deste ano. E isso mostra a importância do debate.

As redes sociais criam bolhas e contam com seguidores fiéis. Mas o eleitorado moderado, como aponta, está atrás de propostas. “Ele não é nem de esquerda, nem de direita, está preocupado com o desenvolvimento econômico do Brasil, a questão da segurança e da soberania, e vai tentar se informar de todas as formas possíveis, não só pelas redes sociais”.

Flávia destaca que os debates têm uma importância histórica e que nesse ano podem ser ainda mais relevantes por passarem a acontecer em horários mais acessíveis. Para ela, isso é uma vitória da democracia. 

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Além disso, o que mudou, em sua avaliação, é a possibilidade dos chamados “cortes” e de seus alcances por conta das redes sociais. “Você não precisa assistir três horas de um debate para ver o seu candidato, ou os demais candidatos, respondendo a perguntas de maneira fervorosa, ou encurralando seus adversários”, aponta. Por mais que cada candidato use o corte que o favorece, esses conteúdos ajudam o eleitor a entenderem o “tom” dos políticos.

De maneira geral, como profissional da ciência política, ela avalia que todos perdem com as ausências em um debate que seria importante para o público assistir. “Com todos os tetos de vidro que quem tem, tem. Com todas as pedras que quem pode atirar, possa atirar. É importante que esse debate seja trazido à tona, explicitado, para o eleitor entender”. Mas, do ponto de vista dos candidatos, entende que faltar a debates tem sido cada vez mais usado de maneira estratégica. “A estratégia da ausência tem feito cada vez mais parte [do jogo político] e quem perde com tudo isso é, sem dúvida, o eleitor", afirma.

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Fonte: Portal Terra
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