A eleição em Israel tornou-se um laboratório de inteligência artificial na política, marcada pelo uso intenso de deepfakes, robôs e desinformação. Partidos como o Likud, de Benjamin Netanyahu, lideram o uso da tecnologia em vídeos controversos, perfis falsos e chamadas automatizadas hiper-realistas para eleitores. Diante de regras brandas e da falta de leis rígidas de proteção digital, especialistas alertam que a manipulação de dados e de chatbots pode influenciar o resultado nas urnas.
Partidos estão usando inteligência artificial para gerar deepfakes, aumentar engajamento nas redes e mobilizar eleitorado. Há casos até mesmo de robôs que se fazem passar por pessoas reais em telefonemas.Em um clipe de 19 segundos publicado no X, o candidato a primeiro-ministro Gadi Eisenkot aparece de braços abertos e com um enorme sorriso no rosto. Em câmera lenta, ele corre por um campo na direção de uma pessoa que se parece com seu filho, vestindo uma camiseta com as palavras "Unidade Israelense". Mas em vez de abraçá-lo, Eisenkot passa por ele e cai nos braços de Mansour Abbas, um importante político árabe que lidera o partido Ra'am, também na disputa pel14%as eleições em Israel.
O vídeo, gerado por inteligência artificial (IA), foi publicado na conta do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. As pesquisas de opinião mostram Netanyahu e Eisenkot, que também é ex-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF), em uma disputa acirrada.
O material parece ter sido concebido para explorar sentimentos antiárabes, um elemento importante da campanha do premiê. O vídeo teve mais de 1 milhão de visualizações e gerou indignação — o filho de Eisenkot foi morto em 2023, durante a guerra entre Israel e o Hamas.
Segundo o Ze Be AI, um projeto de pesquisa da Universidade Aberta de Israel que monitora conteúdos produzidos por IA na campanha legislativa de 2026, esse clipe é apenas um dos mais de 1.800 posts com conteúdo gerado por IA que o Likud, partido de Netanyahu, havia publicado ao longo da campanha até meados de outubro. Isso representa cerca de um quarto de todo o material da legenda analisado pelo projeto.
Em 27 de outubro, os israelenses irão às urnas em uma eleição que poderá retirar Netanyahu do poder ou consolidar seu domínio sobre o país pelos próximos anos. Os partidos vêm utilizando inteligência artificial em praticamente todos os aspectos da campanha, desde a criação de vídeos polêmicos para gerar controvérsia até ligações automatizadas para eleitores e uso de robôs nas redes sociais.
"Há um cenário em que, em um momento estratégico pouco antes da eleição, a IA poderia ser usada de maneiras que alimentassem controvérsias capazes de influenciar o resultado eleitoral", afirma Anat Ben-David, pesquisadora de mídia que lidera o projeto Ze Be AI na Universidade Aberta de Israel.
Vídeos de IA estão por toda a parte na campanha israelense
Ben-David e sua equipe monitoram todo o conteúdo publicado nas redes sociais por políticos desde o fim de julho. Até meados de outubro, haviam coletado mais de 44 mil publicações no Facebook, Instagram, X e TikTok, e constataram que mais de 14% do material utilizava IA de alguma forma.
A abordagem mais comum era híbrida, com a IA sendo empregada apenas em partes dos anúncios: imagens, músicas, legendas, logotipos ou até deepfakes completos.
Alguns partidos menores apresentam a maior proporção de conteúdo produzido com IA. Mas o Likud lidera com folga em números absolutos de utilização da tecnologia. Em seguida vêm os Democratas, de esquerda, seguidos pelo partido de Eisenkot, Yashar, embora em volumes muito menores.
Em julho, o Comitê Central de Eleições de Israel criou uma norma exigindo que todo conteúdo eleitoral gerado ou manipulado por IA seja identificado. Fora isso, há poucas restrições.
"Não existe uma Lei de IA, nem uma Lei de Serviços Digitais [como a que existe na Europa], e a legislação sobre privacidade está muito desatualizada", diz Ben-David. "Por isso vemos novos usos da IA que seriam impossíveis de ocorrer na Europa."
Alguns desses usos vieram de políticos israelenses de destaque.
Yair Golan, líder dos Democratas, tentou aproveitar tendências populares da internet. Em um vídeo identificado como conteúdo gerado com IA, ele aparece sentado sob um ventilador de teto e, a cada volta das pás, suas roupas mudam: de uniforme militar para uma camiseta com o slogan "Tragam-nos para casa agora" — referência aos reféns israelenses em Gaza —, e depois para terno e gravata.
Em outro vídeo hiper-realista criado por IA e publicado em setembro pelo ministro das Finanças e ultradireitista Bezalel Smotrich, a procuradora-geral de Israel e juízes da Suprema Corte aparecem sendo detidos durante um protesto contra o governo. A procuradora-geral Gali Baharav-Miara tem entrado frequentemente em conflito com a coalizão governista.
Já o ministro da Segurança Nacional, o também ultradireitista Itamar Ben-Gvir, compartilhou um vídeo gerado por IA mostrando palestinos sendo transportados por uma esteira rolante para algo semelhante a um campo de concentração. A publicação foi amplamente condenada, e o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha a classificou como "completamente inaceitável" e "abominável".
A autoridade eleitoral tem demonstrado alguma disposição para agir. Em julho, seu presidente ordenou que Smotrich removesse um vídeo que não havia sido rotulado como IA, por considerá-lo enganoso.
Robôs não identificados que ligam para eleitores
A IA não está sendo usada apenas em deepfakes e anúncios. Ela também está servindo para entrar em contato direto com os eleitores.
Alguns israelenses estão recebendo um novo tipo de chamada automatizada baseada em IA, muito mais conversacional do que as antigas ligações robóticas.
Nitsan Yasur, pesquisador especializado em desinformação da Associação de Internet de Israel, compartilhou com a DW a gravação de uma ligação telefônica de quatro minutos.
Nela, uma voz se apresenta como uma pesquisadora chamada Danielle, ligada a um instituto israelense de pesquisas eleitorais, e pergunta sobre preferências de voto. Quando Yasur questiona se a voz é humana, ela admite que "não há nenhum agente humano na linha" e prossegue perguntando: "Você gostaria de continuar com a breve pesquisa?"
O sistema responde a várias perguntas de Yasur, mas sempre retorna ao tema de sua intenção de voto. Quando ele pergunta cinco vezes quem encomendou a pesquisa, a informação não é revelada. Assim, permanece incerto se a ligação fazia parte de uma campanha eleitoral ou de uma pesquisa de opinião. O que está claro é o quanto a tecnologia evoluiu.
"Você não precisa mais de pessoas reais fazendo ligações reais, que obviamente têm limitações de tempo e capacidade", afirma Tehilla Shwartz Altshuler, pesquisadora sênior do Instituto para a Democracia de Israel.
Tentativas de influenciar o que os chatbots dizem aos eleitores
Alguns israelenses também estão recorrendo à IA para decidir em quem votar.
Segundo uma pesquisa da Associação de Internet de Israel, cerca de um quarto dos israelenses afirmaram que considerariam utilizar ferramentas de IA ou outros serviços online para ajudá-los nessa tarefa.
Isso gera preocupações com uma prática conhecida como Generative Engine Optimization (GEO), ou otimização para mecanismos generativos: a criação de conteúdo online projetado para ser absorvido por chatbots de IA e influenciar suas respostas.
O próprio governo israelense já recorreu a esse setor. De acordo com registros apresentados sob a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros dos Estados Unidos, ele pagou uma empresa americana para criar sites destinados a alimentar grandes modelos de linguagem (LLMs) com conteúdos favoráveis ao governo Netanyahu, com o objetivo de tornar os chatbots mais favoráveis a Israel.
"As mesmas indústrias agora serão usadas internamente para influenciar as eleições", afirma Shwartz Altshuler.
Contas automatizadas promovem Netanyahu nas redes
Além do conteúdo falso, existem também o engajamento falso. A empresa israelense de monitoramento de mídia Scooper afirma ter identificado uma rede de contas inautênticas promovendo Netanyahu nas redes sociais. No X, mais de mil novas contas passavam a segui-lo diariamente logo após serem criadas. Seu número de seguidores no Instagram também cresceu rapidamente nas últimas semanas.
Segundo Gil Feldman, gerente de pesquisa da Scooper, cerca de 70% das contas que compartilham publicações de Netanyahu no X estão fora de Israel e apresentam características típicas de bots. A empresa identificou esses perfis com base em comportamentos suspeitos, como postagens ininterruptas, datas recentes de criação e ausência de foto de perfil.
E não é apenas Netanyahu. A organização de monitoramento FakeReporter detectou uma campanha de bots ligada à campanha de Ben-Gvir, acusação negada por seu gabinete. A entidade encontrou uma rede com mais de cem contas, algumas utilizando imagens e identidades geradas por IA para atacar Smotrich e outras figuras políticas.
Embora redes de bots não sejam novidade, a inteligência artificial tornou sua operação mais barata e mais fácil.
E, como os israelenses estão entre os primeiros e mais entusiasmados adotantes de novas tecnologias, Shwartz Altshuler vê o país como um laboratório para entender como a IA está transformando eleições em todo o mundo.
"A máquina de propaganda política está mudando por completo", afirma ela.
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