Crise de remédios força iranianos a abandonar tratamentos

24 ago 2026 - 11h42
Resumo
A crise econômica no Irã, agravada por sanções e impactos bélicos, gerou uma disparada de preços e escassez crítica de remédios essenciais. Com terapias oncológicas custando várias vezes o salário mínimo e a perda de cobertura governamental, pacientes agora arcam com mais de 70% das despesas. Essa barreira financeira e a falta de produtos forçam doentes graves a adiar ou abandonar tratamentos vitais, ampliando expressivamente os riscos de complicações e de mortes prematuras.

Uma sessão de quimioterapia pode custar seis vezes o salário mínimo. Preços disparam e escassez persiste em meio aos desafios econômicos exacerbados pela guerra.Num Irã impactado por crises que se amontoam, uma mulher de 70 anos com câncer de mama avançado deveria fazer quimioterapia a cada duas semanas. Os médicos haviam programado seis sessões de tratamento, e cada uma custaria cerca de 100 milhões de tomans iranianos (cerca de R$ 2,8 mil).

Guerra exacerbou crise de saúde que já castigava o Irã
Guerra exacerbou crise de saúde que já castigava o Irã
Foto: DW / Deutsche Welle

Em comparação, o salário mínimo mensal para trabalhadores cobertos pela legislação trabalhista do Irã é de 16,6 milhões de tomans (R$ 475). Isto é, apenas uma sessão da quimioterapia prescrita custa quase seis vezes este valor.

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Para a família da paciente, a solução foi adiar o tratamento, enquanto buscava um empréstimo ou outra fonte de apoio financeiro.

Esta história está longe de ser caso isolado. Em todo o Irã, contra o qual os EUA travam uma "guerra econômica", a alta dos preços, a persistência da escassez de medicamentos, as dificuldades nas transferências internacionais de moeda estrangeira e a crescente pressão sobre o sistema de saúde estão tornando o acesso ao tratamento cada vez mais difícil. Os relatos vêm de médicos iranianos radicados na Áustria.

Preços dos medicamentos disparam

Uma empresa farmacêutica iraniana anunciou recentemente aumentos de preços para 82 produtos. O preço médio desses medicamentos subiu aproximadamente 120%, segundo dados publicados pela agência de notícias Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária.

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O preço do donepezil (usado contra doença de Alzheimer e outros tipos de demência) aumentou cerca de 543%, o da claritromicina (antibiótico) cerca de 308% e o da amoxicilina (também antibiótico) aproximadamente 115%. Alguns xaropes de paracetamol (analgésico) e difenidramina (antialérgico) tiveram reajustes em torno de 135%.

Os usuários de insulina estão entre os mais afetados. O custo mensal de uma prescrição com quatro canetas aumentou de cerca de 280 mil tomans (R$ 8), após o reembolso do seguro, para aproximadamente 1,1 milhão de tomans (R$ 31).

O médico Hassan Nayeb Hashem afirma que as consequências da falta de medicamentos e do aumento dos custos podem ser graves. "Se o medicamento se torna inacessível, os pacientes podem desenvolver complicações muito mais rapidamente. O risco mais grave é a morte prematura."

Em muitos casos, trocar de medicamento não é uma alternativa viável. "Para muitas doenças específicas, na prática não há substituto", diz Hashem.

Riscos diversos à saúde

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Pacientes com câncer são particularmente vulneráveis porque os cronogramas de tratamento costumam ser rigidamente estruturados. Atrasos podem reduzir a eficácia da terapia e comprometer os resultados.

Hamid Hemmatpour, também médico, relata que alguns pacientes pedem a médicos no exterior que obtenham medicamentos oncológicos para eles. Outros adiam ou abandonam o tratamento ao descobrir os custos.

O medicamento contra o câncer Keytruda (pembrolizumabe) é um exemplo. Uma versão produzida no Irã pode custar cerca de 70 milhões de tomans (R$ 2 mil), mais de quatro vezes o salário mínimo mensal, segundo Hemmatpour. Versões importadas da Índia podem ser vendidas por cerca de 300 milhões de tomans (R$ 8,5 mil), enquanto as europeias podem custar ainda mais.

A escassez alimenta a demanda por medicamentos obtidos por canais informais de importação. "A questão é: em que condições esses medicamentos foram transportados?", afirma Hemmatpour. "Alguns remédios precisam de transporte refrigerado. Os pacientes muitas vezes não têm como saber se as condições adequadas de armazenamento foram mantidas durante o trajeto."

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Além do armazenamento inadequado, Hemmatpour e Nayeb Hashem alertam que medicamentos importados também correm o risco de ser falsificados ou estar vencidos, o que pode reduzir a sua eficácia e gerar perigo à saúde.

Escassez persistente

Muitos dos problemas do setor antecedem a guerra atual. A indústria farmacêutica iraniana já enfrentava dificuldades devido à desvalorização da moeda, ao aumento dos custos de produção, às restrições de liquidez e aos atrasos nos pagamentos por parte das seguradoras.

As sanções dos Estados Unidos acrescentam outra camada de dificuldades. Medicamentos e bens humanitários geralmente estão isentos das sanções, mas as restrições a transações bancárias e pagamentos internacionais ainda podem complicar o comércio farmacêutico.

Autoridades iranianas atribuíram parte da escassez atual a interrupções nas cadeias de abastecimento e a dificuldades nas transferências de moeda estrangeira.

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Mehdi Pirsalehi, chefe da Organização de Alimentos e Medicamentos do Irã, afirmou que as transferências de recursos desaceleraram drasticamente após o início da guerra. O ritmo beirou uma paralisação ao longo de um ou dois meses e, depois, continuou reduzido.

Ao mesmo tempo, Abdolnaser Hemmati, presidente do Banco Central do Irã, afirmou que o volume de moeda estrangeira destinado a medicamentos e equipamentos médicos nos primeiros cinco meses do atual ano iraniano foi 30% maior do que no mesmo período do ano anterior.

As declarações sugerem que o problema vai além do montante de moeda estrangeira disponibilizado. Atrasos nos pagamentos, nas importações, na fabricação ou na distribuição podem contribuir para a escassez.

Uma crise mais profunda

A falta de medicamentos não é um fenômeno exclusivo do Irã. Nos últimos anos, países como Alemanha e Estados Unidos também enfrentaram escassez de antibióticos, tratamentos contra o câncer e outros medicamentos essenciais.

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Os motivos incluíram problemas de fabricação e vulnerabilidades nas cadeias globais de abastecimento, expostas de forma particularmente clara pela pandemia de covid-19.

O que torna a situação iraniana especialmente difícil é o acúmulo simultâneo de diversos fatores de pressão. A desvalorização da moeda, a alta dos custos de produção, a pressão sobre as seguradoras, os obstáculos relacionados às sanções e as consequências econômicas da guerra convergiram sobre um sistema de saúde que já estava sob forte pressão.

Salman Eshaghi, porta-voz da Comissão de Saúde e Tratamento do Parlamento iraniano, afirma que cerca de 43 medicamentos estão atualmente classificados como em "escassez crítica", enquanto quase mil produtos farmacêuticos enfrentam algum grau de falta no mercado.

Segundo ele, os preços mais altos de medicamentos usados no tratamento de câncer, hemofilia e talassemia já levam parte dos pacientes a reduzir ou interromper completamente seus tratamentos.

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Originalmente, os pacientes deveriam pagar cerca de 30% dos custos de saúde, enquanto seguradoras e governo cobririam o restante, segundo Eshaghi. Agora, porém, os pacientes arcam com mais de 70% das despesas do próprio bolso.

Para a mulher de 70 anos com câncer de mama citada no início deste texto, esses debates sobre políticas públicas parecem muito distantes da realidade cotidiana. Seu médico recomendou a continuidade do tratamento e a família deseja que ela prossiga, mas eles não conseguem pagar pela próxima sessão de quimioterapia. O tratamento segue adiado enquanto os filhos procuram uma forma de financiá-lo.

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