O que estão compartilhando: postagem afirma que a eficácia geral da vacina contra H1N1 foi de apenas 26% em 2022. A publicação então questiona o porquê da vacinação, dizendo que a população não se beneficia clinicamente e fica exposta a eventos adversos evitáveis.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. A porcentagem citada na postagem se refere especificamente à eficácia da vacina contra infecção entre pacientes com idade maior ou igual a 65 anos na Califórnia, nos Estados Unidos, na temporada de 2023 a 2024. Ocorre que a eficácia geral da vacina não é medida apenas em uma temporada ou em um grupo da população. Isso porque a cada ano a vacina muda.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define quais cepas do vírus influenza serão usadas na vacina com base naquelas que mais circularam no ano anterior. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), nos anos que em há maior coincidência entre as cepas contidas na vacina e as que estão circulando na população, a eficácia fica em torno de 70 a 80%.
Existem muitas razões para se vacinar. A vacinação serve para proteger o imunizado e para defender indiretamente as pessoas do grupo de risco, uma vez que ela diminui as chances de transmissão da infecção. Além disso, a vacina contra gripe é altamente segura e que os efeitos adversos graves são tão mínimos, que não servem de justificativa para não se imunizar.
Procurado, o médico responsável pela postagem afirmou que se baseou em dados de estudos "públicos e disponíveis a todos".
Saiba mais: A postagem começa dizendo que a vacina contra a gripe, que inclui a proteção contra o H1N1, é renovada anualmente com base em previsões sobre quais cepas do vírus devem circular no ano seguinte. A publicação afirma que essa previsão não é garantida e que, em 2022, a eficácia geral da vacina contra H1N1 foi de 26%.
O Verifica questionou a fonte dessa porcentagem e teve como resposta este link. A porcentagem de 26% é citada nos resultados do texto e se refere à eficácia da vacina observada em adultos com idade maior ou igual a 65 anos, contra todos os tipos de influenza. Segundo o link, o estudo foi publicado em maio deste ano e se refere aos anos de 2023 e 2024.
A pediatra, infectologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Lilian Martins Oliveira Diniz confirma que a vacina da gripe é feita anualmente, com base nas cepas do vírus que circularam no ano anterior, no período do inverno. É inclusive por isso que se têm dois tipos de imunizantes: um para o hemisfério norte, que vai ter na sua composição as cepas que circularam no inverno do ano anterior, e uma para o hemisfério sul.
Diniz explica que a formulação da vacina da gripe tenta atingir as cepas do vírus que circularão no ano seguinte, mas nem sempre elas são exatamente as mesmas que circularam no ano anterior. Segundo a professora, a possibilidade das cepas não coincidirem totalmente pode acabar influenciando na proteção que esse imunizante vai trazer. Entretanto, não existe um risco que o contra indique.
Eficácia e efetividade
Diniz explica que existem dois conceitos: a eficácia e a efetividade. A efetividade mede a proteção em mundo real daquela vacina. "Nessa situação, a gente vai ter influência das cepas virais que circulam naquele ano, que podem ou não ser exatamente as mesmas que circularam no ano anterior", explicou a pediatra.
Quando existe uma coincidência entre as cepas do ano atual com a do ano anterior, a capacidade de proteção da vacina (a efetividade) é muito maior. "Por isso a gente tem uma vacina nova a cada ano e por isso a proteção vai variar", completou Diniz.
A eficácia, citada na postagem analisada aqui, é a proteção da vacina medida em estudos, numa população controlada. A professora exemplifica que é possível medir eficácia contra infecção, hospitalização, óbitos ou outros desfechos. Também existe uma variação dependendo do país. "Porque não necessariamente o mesmo vírus vai circular em todos os países", explicou Diniz.
O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), Renato Kfouri, detalha ainda que essa medida varia conforme a população que se estuda. Isso pode significar diferentes percentuais de eficácia quando se analisa adultos jovens, em comparação a crianças, idosos, imunocomprometidos e demais grupos.
Levando em conta todos esses fatores, Kfouri afirma que décadas de experiência com a vacina da gripe e centenas de trabalhos concluem que o imunizante é altamente seguro e não apresenta riscos. O vice-presidente da Sbim ressalta que os benefícios são observados ao longo de décadas, e não considerando apenas uma temporada, população ou desfecho.
"Não é à toa que virtualmente o planeta todo recomenda a vacina de influenza [gripe], às vezes para grupos mais específicos, às vezes alguns países com vacinação universal, como é nos Estados Unidos", explica Kfouri.
Vacinação contra gripe no Brasil
A legenda do conteúdo verificado aqui termina questionando o motivo de se "insistir" em aplicar a vacina da gripe em toda a população, incluindo quem não está nos grupos de risco.
Segundo Renato Kfouri, a recomendação de cada país sobre quais grupos devem ser imunizados depende da sua própria epidemiologia - ou da carga da doença naquele país.
No dia 28 de fevereiro deste ano, a vacina da gripe entrou para o Calendário Nacional de Vacinação. A aplicação desse imunizante agora é obrigatória para crianças de 6 meses a menores de 6 anos, gestantes e idosos a partir de 60 anos de idade. A campanha de imunização começou no dia 7 de abril e enfrenta baixa adesão do público prioritário em São Paulo.
Diniz afirma que as pessoas fora dos grupos de risco, de fato, têm menos risco de hospitalização e de óbito. Mas isso não diminui a importância da imunização. "A população que não é de risco, ao se vacinar, ela reduz a taxa de infecção e ela reduz a taxa de transmissão do vírus para outras pessoas de risco", explicou a professora.
A pediatra conta que, nos hospitais onde atua, ela precisa orientar os familiares das crianças hospitalizadas para que se vacinem, pois quanto menor a chance deles se infectarem, menor também a chance desses parentes transmitirem o vírus para a criança. "É uma vacinação para se proteger e para proteger indiretamente as pessoas de grupo de risco", concluiu.