Capacete de R$ 200 mil e cartas secretas: visitei acervo com raridades de Ayrton Senna e da F1

Objetos pessoais de Senna dividem espaço com itens raros de Schumacher, Hamilton, Prost e Barrichello em uma das garagens mais impressionantes do Brasil

8 nov 2026 - 13h10
Resumo
O colecionador Carlos Bandeira, o Cadu, reuniu um acervo histórico do automobilismo com itens raros de Fórmula 1. Entre as principais peças destacam-se artigos de Ayrton Senna, como cartas trocadas com uma ex-namorada nos anos 1980, um lenço autografado e um capacete da época do kart avaliado em R$ 200 mil. A coleção ainda preserva botas e peças autografadas de Michael Schumacher e Lewis Hamilton, além de uma luva usada por Rubens Barrichello, valorizada por seu contexto e procedência.

Antes de falar sobre carros, pilotos, Ayrton Senna e uma das garagens mais impressionantes que já visitei, preciso começar este texto de um jeito um pouco diferente.

Estou muito feliz de estar aqui.

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Fazer parte do Jornal do Carro tem um significado especial para quem, como eu, cresceu consumindo conteúdo automotivo. Estamos falando de um nome que faz parte da história do jornalismo automotivo brasileiro e que agora vive um momento de renovação.

E chegar justamente agora, trazendo um pouco do meu jeito de enxergar esse universo, é uma responsabilidade enorme, mas daquelas que deixam a gente animado.

Como entrei na 'garagem do Senna'

A Suzana, minha esposa, diz que as coisas que acontecem comigo ela só acredita vendo. E, vendo, não acredita. Então vou contar pra vocês quem me colocou nesse lugar maravilhoso.

Tudo começou em um encontro na garagem do Eloí Oliveira, do The Bunker Garage. Ele é um cara incrível e está sempre de olho em coisas extremamente inusitadas do meio automotivo. Como organizador de eventos de Track Day e piloto, isso já faz parte da personalidade dele.

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Algumas pessoas começaram a falar sobre garagens incríveis entre vizinhos e, claro, foi questão de tempo até eles entrarem em contato. Assim que isso aconteceu, recebi uma ligação me convidando para ir junto conhecer o acervo.

Aliás, vou aproveitar esse palco ilustre do Jornal do Carro para agradecer formalmente ao Eloí pelo convite.

E assim partimos para conhecer o acervo misterioso e totalmente exclusivo de Carlos Bandeira, mais conhecido como Cadu. Entre os amigos estavam também Marco Aurélio e Juan Fagundes. Uma turma que, apesar de trabalhar em áreas completamente diferentes do mundo automotivo, acaba conectada pelo amor aos motores e ao esporte.

Cartas de uma época em que Ayrton Senna ainda estava construindo sua história

Uma das primeiras histórias que o Cadu começou a contar envolve Marie Claude van der Graaff, ex-namorada de Ayrton Senna, e talvez seja justamente uma das que melhor explicam o que encontramos naquela casa.

Os dois se relacionaram no começo dos anos 1980, quando Ayrton ainda construía sua carreira na Europa, e parte dessa relação ficou registrada em cartas que eles trocaram. Cadu nos contou que Marie Claude guardou esse material, além de credenciais e outros registros daquele período.

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E aqui tem uma coisa que me pegou bastante, hoje a gente está acostumado a acompanhar praticamente em tempo real a vida de um piloto. Tem Instagram, vídeo, entrevista, bastidor, equipe produzindo conteúdo o tempo inteiro. Naquela época, uma carta atravessava o oceano levando notícias, planos, saudade e um pedaço da vida de duas pessoas.

Poder ver esse tipo de material de perto é muito especial. Você conhece o Ayrton Senna tricampeão, o ídolo, o piloto que virou uma figura gigantesca no Brasil e no mundo. Aquelas cartas, porém, foram escritas por um Ayrton muito mais jovem, vivendo uma fase em que ainda tinha muita coisa pela frente.

E é também por relações como essa que o acervo do Cadu foi crescendo. Conforme ele foi mergulhando nessas histórias, conhecendo pessoas e entendendo a origem dos objetos, algumas peças começaram a encontrar o caminho até a casa dele.

Foi assim que chegamos a um capacete. E aqui a visita ficou complicada para mim.

Um capacete do Senna na minha mão…

O Cadu começou a contar a história de um capacete dos tempos de kart de Ayrton. Segundo ele, a peça ficou durante muitos anos em Tatuí, com uma pessoa próxima daquele ambiente, e existem registros daquele período que ajudam a reconstruir a história do capacete.

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Cadu conheceu o proprietário e quis comprar a peça. Isso aconteceu em 2022, e ele conta que fez uma proposta na casa dos R$ 200 mil, mesmo sem ter aquele dinheiro disponível para simplesmente fazer um Pix e voltar feliz para casa. A resposta, inicialmente, foi não.

Até que, numa noite de chuva, por volta das 23 horas, o telefone tocou. Era o dono perguntando se aquela proposta ainda estava de pé. O pagamento poderia ser feito de forma parcelada, diretamente para uma conta indicada por ele.

O Cadu topou na hora. E, quando ouviu que poderia buscar o capacete no dia seguinte, resolveu que "amanhã" estava muito longe. Saiu de Alphaville naquela mesma noite e foi até Tatuí buscar a peça.

Enquanto ele contava tudo isso, o capacete estava ali. E ouvi uma frase que muda completamente a experiência de quem é fã de automobilismo: "Pode pegar."

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Cara… Eu já tive a oportunidade de dirigir e pilotar muita coisa legal, conhecer pessoas que admiro e viver situações que provavelmente o "Japa" de alguns anos atrás jamais imaginaria. Mas segurar aquele capacete foi diferente. Fiquei olhando os detalhes e tentando imaginar quantas histórias passaram por ele.

E a emoção bateu forte. Eu só me lembro de ter sentido algo parecido quando visitei o Kennedy Space Center, na NASA, e pude tocar o ônibus espacial Atlantis. É aquela sensação difícil de explicar de estar diante de algo que viveu o extraordinário. E, para mim, ver o Senna pilotar sempre foi exatamente isso.

Você que curte o Jornal do Carro, tenho certeza de que entende esse sentimento. E eu torço, de verdade, para que vocês também tenham a oportunidade de viver algo assim um dia, seja diante de um carro, de uma moto, de um objeto histórico ou de qualquer coisa que tenha feito parte de uma história que marcou a sua vida. É uma sensação que fica difícil traduzir em palavras quando acontece com a gente.

Um lenço, um autógrafo e a história junto

Depois do capacete, Cadu foi mostrando outros itens ligados a Ayrton, e um deles era um lenço autografado. Só que ele não simplesmente aponta para a peça e fala: "Esse lenço foi autografado pelo Senna". Há toda uma história por trás dele.

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Cadu conta uma passagem bem curiosa de Ayrton Senna por Porto Alegre, que saiu até no jornal com o título "1h30min de Senna em Porto Alegre".

Ayrton fez uma passagem extremamente rápida pela cidade durante uma conexão de viagem. Mesmo ficando pouco tempo, sua presença provocou uma pequena mobilização entre funcionários e fãs no aeroporto. Inclusive, na matéria publicada na época, Senna é descrito como bastante acessível. Conversou, distribuiu autógrafos, tirou fotos e brincou com as pessoas.

E é aí que entra o lenço. Ele pertencia a funcionárias do Duty Free e, na foto, dá para ver o momento do autógrafo. Vale prestar atenção na assinatura: ela é enorme quando comparada a outros autógrafos de Senna e está com uma definição incrível. Dá para acompanhar o traço praticamente de ponta a ponta.

Esse cuidado com o contexto das peças aparece várias vezes durante a visita ao acervo. Tem fotografias, revistas, convites, credenciais, gibis do Senninha, miniaturas e autógrafos de diferentes fases da carreira. Em alguns casos, os objetos vieram de pessoas que participaram daqueles eventos e guardaram o material durante décadas. O Cadu vai contando esses fatos e você começa a viajar no tempo a cada canto da sala.

Tem material do Estoril, registros relacionados às primeiras vitórias, fotos originais, convites de eventos e peças que ajudam a lembrar uma Fórmula 1 muito diferente daquela que acompanhamos hoje.

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E tem Alain Prost, obviamente. Cadu montou uma peça baseada no último pódio dos dois juntos, em 1993, naquele momento famoso em que Senna chama Prost para perto. Segundo ele, a foto recebeu as assinaturas dos dois e, anos depois, quando publicou o material e marcou Prost no Instagram, recebeu uma mensagem do próprio francês falando sobre a importância daquele momento e sobre a amizade que nasceu depois de tantos anos de rivalidade.

Dá para passar uma tarde inteira só nas histórias de Ayrton Senna que estão espalhadas por aquela sala. E, quando você acha que já viu coisa suficiente para um dia, começa a reparar nos outros nomes que aparecem pelo acervo. Michael Schumacher, Lewis Hamilton, Rubens Barrichello... e aí começa outra viagem.

Michael Schumacher também está naquela sala

Entre os itens que Cadu nos mostrou está uma bota que, segundo ele, pertenceu ao alemão e leva o autógrafo do próprio piloto.

E aqui aparece novamente uma característica interessante do acervo: muitas peças chegaram até Cadu por meio de pessoas que tiveram acesso aos bastidores de grandes eventos e programas de televisão.

No caso de Schumacher, ele conta histórias envolvendo uma passagem do piloto pelo Caldeirão do Huck, quando poucas pessoas tiveram acesso à gravação e alguns objetos acabaram autografados.

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É engraçado porque você ainda está processando tudo o que acabou de ver do Senna e, alguns passos depois, está olhando para uma peça relacionada a outro dos maiores nomes da história da Fórmula 1.

Logo aparecem os itens de Lewis Hamilton

Cadu nos mostrou uma bota que, segundo ele, foi usada por Hamilton e posteriormente sorteada em uma ação envolvendo clientes da Petronas. Junto dela existem registros que ajudam a contar sua origem. Também aparecem capacetes, viseiras, peças autografadas e uma jaqueta relacionada ao piloto.

Foi nessa parte da conversa que entramos em um detalhe muito interessante sobre colecionismo. Para quem olha de fora, um autógrafo é um autógrafo. Para quem coleciona, onde o piloto assinou, a procedência da peça e, principalmente, a documentação daquela assinatura podem fazer bastante diferença.

Cadu explicou, por exemplo, que não dá para chegar a um GP carregando vinte capacetes. A solução dele é tirar as viseiras e levar várias dentro de uma mochila. Assim, consegue circular com dezenas delas e, quando encontra os pilotos, busca as assinaturas. Sempre que possível, registra também aquele momento em foto ou vídeo.

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É uma logística que eu nunca tinha parado para pensar.

Uma luva do Rubinho com uma bela história

Entre tantas peças, uma luva de Rubens Barrichello tem uma trajetória particularmente interessante.

Segundo Cadu, ela foi doada para uma ação do Criança Esperança e acabou arrematada por outra pessoa. Anos depois, esse colecionador conheceu Cadu durante uma palestra e os dois começaram a conversar. A peça acabou sendo negociada praticamente pelo mesmo valor pago originalmente no leilão: cerca de R$ 40 mil.

Cadu conta que posteriormente já recebeu ofertas de R$ 80 mil e até R$ 100 mil pela luva. E ele não vendeu.

A essa altura da visita, eu já tinha entendido que perguntar o preço das coisas era divertido e nós perguntamos várias vezes, mas quase sempre a resposta vinha acompanhada de uma história muito melhor do que o número.

Um belo começo aqui no Jornal do Carro, não acham?

Fica aqui o meu agradecimento ao Cadu por abrir as portas do seu acervo e receber a gente com tanto carinho e atenção.

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Gostaria de dizer a você, audiência do nosso querido Jornal do Carro, que, enquanto escrevia esse texto e compartilhava essa experiência, não deixei de imaginar se, ao ler, você conseguiria sentir um pouco da energia desse lugar.

Meu objetivo por aqui é justamente esse: tentar passar essas sensações e colocar vocês junto comigo em cada aventura, como se também estivessem por lá.

E a dúvida que quero deixar por aqui é... Qual será a próxima?

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